Entre os séculos XVII e XVIII, os sertões das capitanias do norte do Brasil, descritos pelos colonizadores como “solidões vastas e assustadoras” , foram o palco de uma série de confrontos devastadores conhecidos como a “Guerra dos Bárbaros”. Longe de ser um conflito único e centralizado, essa “guerra” foi, na verdade, um conjunto de levantes, batalhas e negociações distintas, unificadas apenas pela perspectiva da administração colonial que buscava expandir suas fronteiras para o interior. Nesse cenário complexo, a capitania de Pernambuco destacou-se como o principal centro de comando militar para a conquista do sertão.
A chamada “Guerra do Açu” (1687-1704), uma das principais frentes do conflito, foi combatida por meio de expedições que partiram de Pernambuco e foram efetivamente comandadas por seu governo.
Choque de Mundos: As Causas e os Povos do Conflito
A principal causa desses confrontos foi a reação das nações indígenas do sertão, como os Kariri, ao avanço da pecuária e à escravização promovida pelos colonos a partir de Salvador e Olinda. À medida que os currais de gado se aprofundavam no interior, invadindo territórios tradicionais, a resistência indígena se intensificava.
Os povos envolvidos eram diversos e multifacetados:
- Os Tarairiú: Povo de língua independente, habitava principalmente a região entre o Rio Grande do Norte e o Ceará. Grupos como os Janduí, Panati e Xucurú atuavam na jurisdição de Pernambuco. Sua cultura guerreira não se baseava no arco e flecha, mas em propulsores de dardos, tacapes e machados de pedra. Eles rapidamente se adaptaram ao contexto colonial, incorporando armas de fogo e cavalos para formar uma temível “artilharia montada”.
- Os Kariri: Espalhavam-se por vastos territórios, desde a Bahia até o Ceará, passando por Pernambuco e Paraíba. Seus muitos grupos, como os Caropotó, Xocó, Carnijó, Porcáz e Payayá, eram protagonistas nos conflitos e negociações.
- Agência e Estratégia: Os indígenas não eram vítimas passivas. Os Payayá, por exemplo, demonstraram um profundo conhecimento das táticas coloniais ao simularem ataques de “tapuias” desconhecidos para forçar a Coroa a transferi-los de volta para suas terras ancestrais na serra do Orobó, utilizando a estratégia colonial dos “muros do sertão” a seu favor.
O Exército Colonial: Uma Estrutura Dependente
As forças coloniais em Pernambuco eram um mosaico de diferentes grupos, cuja eficácia dependia fundamentalmente da participação e do conhecimento indígena:
- Composição Mista: As expedições eram formadas por uma combinação de soldados regulares, milícias especializadas como o “terço dos Henriques” , sertanistas paulistas contratados e, de forma crucial, um grande número de guerreiros indígenas de aldeias aliadas, conhecidos genericamente como “flecheiros”.
- Guias e “Línguas”: Além de combatentes, os indígenas eram indispensáveis como guias, tradutores de línguas e espiões. Sem seu domínio da geografia, dos rios, serras e plantas, nenhuma expedição teria adentrado os sertões. O poder desses “práticos do sertão” era tal que, em uma ocasião, um grupo de “Tapuias” vetou a rota planejada por um comandante colonial, ameaçando abandonar a expedição e forçando o comando a seguir o caminho que lhes era mais conveniente.
- O Terço dos Índios: Pernambuco contava com a única tropa indígena oficializada na região, o “terço de índios“, também chamado de “terço de Camarão”. Essa unidade era composta principalmente por indígenas Potiguar e Tabajara, de aldeamentos em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande, e comandada por uma liderança nativa institucionalizada, o “governador de índios“.
- O Governador dos Índios: Este líder possuía autoridade sobre os aldeamentos da capitania e tinha o poder de organizar ou vetar o recrutamento de guerreiros. Essa posição o transformava em uma figura de poder e negociação. Líderes como D. Sebastião Pinheiro Camarão chegaram a confrontar as autoridades coloniais e os sertanistas paulistas para proteger seu povo da exploração e do recrutamento forçado.
Esse posto, que se tornou hereditário e permaneceu ativo por cerca de cem anos (1636-1733), consolidou essas famílias como uma verdadeira elite, com autoridade sobre dezenas de aldeamentos espalhados pelas capitanias do norte. Longe de serem meros chefes de guerra, os governadores dos índios exerciam um poder administrativo complexo e essencial para a Coroa. A história dos governadores dos índios revela uma faceta pouco conhecida do Brasil Colonial: um mundo de intensas negociações, onde lideranças indígenas não foram apenas vítimas passivas, mas agentes poderosos que usaram sua força militar e sua inteligência política para forjar espaços de poder, defender seus povos e se tornarem figuras centrais na construção da própria sociedade colonial. Suas funções eram variadas e de imensa responsabilidade:
- Comando Militar: Eram encarregados de recrutar, organizar e liderar as tropas de “flecheiros” para as diversas frentes de batalha, desde a luta contra quilombos, como o de Palmares, até os sangrentos conflitos de expansão para o interior, conhecidos como a “Guerra dos Bárbaros”.
- Proteção e Administração: Atuavam como a principal autoridade sobre os aldeamentos, intervindo em disputas, defendendo seus liderados da escravização ilegal e dos abusos cometidos por colonos e fazendeiros.
- Intermediação Política: Eram a ponte entre o mundo indígena e a administração colonial, participando de reuniões importantes como a Junta das Missões e levando diretamente as demandas de seu povo às mais altas autoridades, inclusive ao rei em Portugal.
Batalhas e Alianças no Sertão
A complexidade do conflito pode ser vista em diversas expedições e alianças. Em 1688, uma grande campanha partiu de Pernambuco com 200 soldados regulares, 100 Henriques e 400 homens do terço dos índios, ilustrando a diversidade das forças. Em 1691, uma expedição no sertão pernambucano contra os “Hoé Hoé” mobilizou guerreiros Xucurú da aldeia do Ararobá, além de Xocó, Carnijó e Carapotó.
Ao mesmo tempo, a guerra não era feita apenas de confrontos. Em 1692, o líder Francisco Dias Mataroa, da nação Porcáz, teve seus serviços militares reconhecidos pelo Governador de Pernambuco. Ele atuava como um “prático do sertão”, guiava entradas em busca de salitre e usava sua aliança com a Coroa para adquirir prestígio e recursos, solicitando pagamento e patentes militares para si e para seu filho.
O conflito em Pernambuco foi muito mais do que uma simples campanha de conquista. Foi um período marcado pelo papel central da capitania como base de operações militares e por uma complexa teia de negociações e batalhas. Os povos nativos, confrontados com a violência colonial, souberam usar a própria máquina de guerra invasora para resistir, negociar e reinventar sua realidade, desempenhando um papel central na definição do futuro e da ocupação do sertão nordestino.
Referências
FERREIRA, David Barbuda. Os Governadores dos Índios do Estado do Brasil: elites indígenas e administração colonial nos sertões da América portuguesa (1630-1755). Salvador: Sagga, 2024.
PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão Norte do Brasil, 1650-1720. São Paulo: Hucitec /Edusp, 2002.
SILVA, Kalina Vanderlei. Agência indígena na conquista do Sertão: estratégias militares e tropas indígenas na “Guerra dos Bárbaros” (1651-1704). Estudos Ibero-Americanos, v. 45, n. 2, p. 77-90, 2019.SILVA, Kalina Vanderlei. Sem os Tapuias não se conquista o Sertão: atuação militar e negociações de flecheiros, guias e tradutores Kariri e Tarairiú nas expedições de conquista das Capitanias do norte do Brasil no século XVII. Revista Latino-Americana de História, v. 12, n. 29, p. 117-137, 2024.