Embora o Brasil Colonial frequentemente nos remeta à opulência dos engenhos de açúcar de Olinda e Recife, na Zona da Mata pernambucana, essa imagem, embora marcante, revela apenas uma parte da nossa história. Longe do litoral, outra narrativa se desenrolava, igualmente crucial: a colonização do Sertão de Pernambuco.
Contrariando a ideia de um vazio demográfico ou de um mero anexo da economia açucareira, o Sertão, entre os séculos XVI e XIX, foi um verdadeiro motor econômico. Foi também um palco de intensos conflitos e o berço de sociedades e culturas singulares.
A expansão para o interior não foi uma aventura de sertanistas solitários. Pelo contrário, foi um projeto ambicioso liderado pela própria elite do açúcar, com o pleno apoio da Coroa Portuguesa. Por meio da pecuária, da fé e da força militar, eles adentraram o território, transformando para sempre o cenário humano e econômico da capitania.
O termo “sertão”, que muitos associam a “deserto”, tem sua origem mais ligada à ideia de “interior”. Dicionaristas dos séculos XVIII e XIX o definiam como uma terra distante da costa, “o coração das terras”, em oposição ao litoral. Era, portanto, a designação para a vasta e pulsante região que se estendia para além da faixa litorânea.
Rasgando o Sertão: Conquista, Cobiça e Resistência
Com um olhar estratégico, Portugal já ambicionava ocupar os sertões desde o início da colonização. O Regimento de Tomé de Sousa, em 1548, já traçava planos para avançar em direção ao grandioso rio Opará, hoje, São Francisco. Em 1560, a primeira grande expedição em Pernambuco, liderada por Duarte Coelho de Albuquerque, partiu para efetivar essa conquista, resultando na fundação de Penedo, um ponto vital às margens do São Francisco, e no fortalecimento de pequenas vilas.
No entanto, o que se chamou de “conquista” foi, na prática, um processo de dominação violenta e quase extermínio dos povos originários, que resistiram bravamente à invasão. Muitas expedições posteriores, como a de Francisco Barbosa da Silva em 1578, buscavam o sonhado ouro, mas acabavam focadas na captura e escravização de indígenas, mais do que na descoberta de minérios.
É fundamental compreender que a ocupação do sertão não foi um avanço pacífico ou linear. A presença colonizadora era instável, marcada pela distância dos centros litorâneos e por constantes ameaças. De um lado, os povos indígenas lutavam para defender suas terras ancestrais. De outro, africanos escravizados e seus descendentes fugiam do cativeiro e criavam seus próprios espaços de liberdade e resistência, os quilombos, que desafiavam diretamente o poder colonial.
Aos poucos, o território foi sendo desbravado. Em 1738, já existiam três rotas principais que cortavam o sertão pernambucano, aproveitando antigas trilhas indígenas ao longo de rios como o Ipojuca e o Capibaribe. Esses caminhos eram mais do que simples trilhas: eram artérias vitais que conectavam Pernambuco a outras regiões cruciais do Brasil colonial, como as terras do ouro em Minas Gerais, além da Bahia, Alagoas, Sergipe, Ceará e Piauí.
A presença de nomes de lugares de origem portuguesa ao longo dessas rotas revela como os colonizadores, mesmo em pequeno número, iam marcando seu domínio. Viajantes, comerciantes de gado e “faiscadores” em busca de ouro deixaram seus rastros, transformando um território imenso e selvagem em uma paisagem progressivamente integrada às necessidades da Coroa Portuguesa.
Donos da Terra: Entre a Lei e a Posse
Para povoar o vasto território, a Coroa Portuguesa adotou uma política de distribuição de imensos lotes de terra, conhecidos como sesmarias. O sistema funcionava como um contrato: para receber a terra, o interessado precisava fazer um pedido formal, apresentar um fiador que garantisse o pagamento dos impostos e, crucialmente, se comprometer a tornar a terra produtiva com agricultura ou criação de gado em até cinco anos.
No entanto, a realidade no Brasil colonial era bem mais complexa que a lei no papel. A distribuição dessas terras frequentemente acontecia de forma arbitrária e, com o tempo, as exigências foram aumentando.
Um fato interessante é que muitos dos que se consideravam “proprietários” eram, na verdade, posseiros — pessoas que ocupavam e cultivavam a terra sem possuir um título de propriedade legal. Documentos do século XIX confirmam que essa prática de se apossar de terras “devolutas” (sem dono reconhecido pela Coroa) para só depois tentar legalizá-las era extremamente comum. Na prática, a ocupação muitas vezes vinha antes da lei, moldando a verdadeira forma como o Brasil foi colonizado.
A Riqueza do Sertão: O Poder do Gado e do Algodão
No coração do Sertão, duas atividades se tornaram os grandes pilares econômicos que moldaram a região: a pecuária e, posteriormente, o cultivo do algodão. Longe de ser isolada, essa produção estava profundamente conectada às áreas de exportação de açúcar e tabaco no litoral, além de ser fundamental para o ciclo do ouro em Minas Gerais e a fabricação de charque no Piauí.
A criação de gado, feita com os animais soltos pela vastidão da caatinga, deu origem a um modo de vida menos rígido que o dos engenhos de açúcar. Essa maior flexibilidade no trabalho chegou a servir como uma alternativa para indígenas e seus descendentes que buscavam escapar do controle e da disciplina severa do litoral.
Contudo, essa aparente liberdade escondia uma profunda desigualdade. Embora a sociedade sertaneja fosse composta por mais homens livres do que escravizados, a extrema pobreza e a concentração de terras nas mãos de poucos (o latifúndio) criaram uma elite tão poderosa quanto a dos senhores de engenho. Para complementar a mão de obra indígena e dos trabalhadores livres, a presença de escravizados de origem africana, ainda que em menor número, foi um elemento importante na engrenagem econômica do Sertão.
O Quintal do Engenho: Como o Gado Colonizou o Sertão
A grande riqueza dos engenhos de açúcar no litoral pernambucano dependia de um “quintal” gigantesco e produtivo: o Sertão. A razão era simples e prática. Cada engenho era uma máquina complexa que demandava uma força animal imensa, com bois sendo usados para mover as pesadas moendas, transportar cana e lenha, e alimentar toda a população, incluindo o crescente número de escravizados.
Como as valiosas terras da Zona da Mata eram preciosas demais para serem usadas como pasto, a solução foi empurrar a criação de gado para o interior. O que começou como uma necessidade prática foi oficializado por uma lei régia de 1701, que proibiu a pecuária a menos de dez léguas da costa. Essa lei foi o empurrão definitivo que forçou a fronteira da colonização a avançar ainda mais para o coração do continente.
Engana-se quem pensa que essa expansão foi uma aventura de homens pobres e isolados. Os verdadeiros agentes por trás dela eram figuras da mais alta elite rural. Grandes clãs, como os Garcia d’Ávila — senhores da famosa Casa da Torre da Bahia, cujos domínios se estendiam por áreas monumentais do sertão —, receberam sesmarias gigantescas como recompensa por seus serviços militares, principalmente após a expulsão dos holandeses.
Eram essas famílias poderosas que financiavam as expedições, armavam os sertanistas e, por fim, colhiam os lucros dos rebanhos imensos que se formavam às margens do Rio São Francisco. Foi este grande rio, aliás, que serviu como o eixo vital, a principal via de acesso que tornou possível a conquista do Sertão em nome do gado.
A Conquista a Ferro e Fogo: A Guerra dos Bárbaros
É fundamental entender que o avanço sobre o Sertão esteve longe de ser um processo pacífico. As terras não eram vazias; eram o lar de diversas nações indígenas, que os portugueses rotulavam genericamente de Tapuias. A tomada de seus territórios ancestrais aconteceu com uma violência extrema, que a Coroa Portuguesa tentava justificar sob o conceito de guerra justa — um pretexto que, na prática, legitimava a conquista pela força.
Agindo sob as ordens e com os recursos da elite do litoral, os sertanistas promoveram um verdadeiro extermínio. Aldeias inteiras foram dizimadas, inúmeros indígenas foram escravizados e os sobreviventes, confinados em missões religiosas. O objetivo era claro: esvaziar a terra para dar lugar aos currais de gado.
Este processo brutal, conhecido como a “Guerra dos Bárbaros”, durou décadas. Foi sobre essa fundação de sangue e terra que a pecuária sertaneja se ergueu, consolidando o Sertão como o grande fornecedor de carne e força motriz para a economia açucareira da colônia.
Vaqueiros e Capitães: A Sociedade e o Poder no Sertão Colonial
Enquanto a Zona da Mata se consolidava em torno de uma pirâmide social rígida — com o senhor de engenho no topo, uma vasta população de africanos escravizados na base e os indígenas confinados —, o sertão pernambucano dava origem a uma sociedade de contornos muito mais fluidos e complexos. O interior tornou-se um palco de intensa miscigenação, onde as fronteiras entre brancos, indígenas e africanos eram constantemente atravessadas.
Essa diferença fundamental nascia da própria economia. A lavoura de cana-de-açúcar exigia a concentração de mão de obra cativa, mas a pecuária extensiva do sertão, com rebanhos espalhados por territórios imensos, promovia uma maior mobilidade e interação. Nesse ambiente, onde conviviam colonos empobrecidos, indígenas remanescentes da “Guerra dos Bárbaros” e africanos escravizados ou libertos, surgiu a figura central da cultura sertaneja: o vaqueiro. Geralmente um homem livre e mestiço, sua identidade e função eram produtos diretos dessa nova sociedade, forjada pela adaptação e pela sobrevivência. Sua relação de trabalho com o grande proprietário, baseada na “partilha”, permitia que ele recebesse uma parte das crias como pagamento, abrindo a rara possibilidade de, um dia, formar seu próprio pequeno rebanho.
Para governar essa imensidão, a Coroa Portuguesa adotou a estratégia de fundar vilas, que funcionavam como centros de poder político, militar e religioso no coração do sertão. Lugares como Cabrobó e Penedo eram postos avançados da colonização. Suas Câmaras Municipais, controladas pelos “homens bons” — a elite dos grandes fazendeiros —, administravam a justiça e a ordem local, sempre sob a autoridade final do governador em Recife.
Contudo, o poder de fato no sertão era exercido pelos capitães-mores. Nomeados diretamente pelo governador, esses homens eram verdadeiros senhores da guerra e da terra. Eles comandavam as tropas locais, reprimiam rebeliões e não hesitavam em usar sua autoridade para expandir seus próprios interesses. Foi assim que se formou uma poderosa elite sertaneja que, embora devesse lealdade a Recife, governava com imensa autonomia, controlando a vida e a morte em seus vastos domínios.
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Do Couro ao Algodão: A Revolução que Integrou o Sertão ao Mundo
Se a pecuária foi a força que impulsionou a ocupação do sertão, foi o cultivo do algodão que, na segunda metade do século XVIII, transformou radicalmente a região, conectando-a de forma definitiva ao mercado global. Com a Revolução Industrial na Inglaterra, a demanda por fibra têxtil explodiu, e o solo semiárido do sertão pernambucano revelou-se perfeito para a cotonicultura. Uma verdadeira “febre do algodão” tomou conta do interior.
Terras antes usadas para o gado foram rapidamente convertidas em vastos campos de algodão. O valor do solo disparou, atraindo novos colonos e acirrando os conflitos pela posse da terra. A economia sertaneja, antes voltada para o abastecimento interno, agora mirava a exportação. Após a colheita, os fardos de algodão iniciavam uma jornada épica em lombo de burro, atravessando por semanas os antigos “caminhos das boiadas” até o porto do Recife, de onde partiam para as indústrias da Europa.
Essa nova riqueza também aprofundou as contradições sociais. A cultura do algodão exigia mais mão de obra, o que levou a um aumento significativo do número de escravizados africanos no sertão. Paradoxalmente, o algodão também se tornou um caminho para a liberdade: como podia ser cultivado em pequenos roçados, muitos escravizados conseguiam plantar sua própria safra e, com a venda, comprar a tão sonhada carta de alforria.
Artérias Abertas: Comércio e Contrabando
Longe de ser uma região isolada, o sertão era um corpo vivo, cortado por uma complexa rede de estradas que o ligavam ao litoral e a outras capitanias. Esses “caminhos do sertão” eram as artérias pelas quais fluíam o gado, o couro, o algodão, o sal e as pessoas.
Essa teia de rotas, no entanto, dificultava o controle da Coroa. Uma brecha na lei, que permitia o comércio livre de monopólios nos “portos do sertão” ao longo do Rio São Francisco, transformou a região em um gigantesco corredor de comércio legal e, principalmente, de contrabando. Produtos vindos da Bahia e de outras províncias entravam em Pernambuco pelo interior, escapando de impostos e da fiscalização, muitas vezes com a conivência das autoridades locais.
A conectividade era tão intensa que o sertão pernambucano funcionava como um polo de atração para o comércio de lugares ainda mais distantes, como o couro do Piauí, que descia pelas estradas para ser exportado a partir do Recife.
O Legado de uma Fronteira
A colonização do sertão de Pernambuco foi um processo de muitas faces. Começou como uma expansão violenta sobre territórios indígenas para a criação de gado e evoluiu para se tornar o coração de uma próspera economia algodoeira, integrada às redes do comércio global.
Essa história deixou um legado profundo: uma estrutura de terras concentrada nas mãos de poucos; uma sociedade marcada pela miscigenação e pela violência; e uma cultura singular, simbolizada para sempre na figura do vaqueiro.
Acima de tudo, a história da conquista do sertão revela que essa região nunca foi o “fim do mundo” ou as “costas” da província. Pelo contrário, foi uma fronteira essencial, cuja integração, por mais brutal que tenha sido, foi fundamental para a formação econômica, social e territorial não apenas de Pernambuco, mas do próprio Brasil.
Referências
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