Samuel Albuquerque
Historiador, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (DHI/UFS) e sócio do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP).
Entre 1817 e 1824, Pernambuco ousou, por duas vezes, levantar a bandeira republicana e desafiar os interesses e o cariz absolutista da Casa de Bragança. A velha capitania pagou caro por seu apego aos ideais federalistas. Além dos mártires que tiveram seu sangue derramado na Revolução Pernambucana de 1817 e na Confederação do Equador, o acuado “Leão do Norte” sentiu na própria carne os golpes do autoritarismo monárquico, vendo amputadas partes importantes do seu território, como as comarcas de Alagoas e do São Francisco.
Não irei, aqui, narrar a história da Independência a partir de Pernambuco, tarefa feita com método e arte por autores da envergadura de Evaldo Cabral de Mello. Nosso fulcro é, sem meias palavras, contribuir para refutar uma tese subjacente em obras como A outra Independência (2004): a de que o federalismo pernambucano, entre 1817 e 1824, não se ramificou para o Centro da província, zona que seria um reduto de reacionários e monarquistas, fossem absolutistas ou constitucionais.
Lastreio minha antítese em documentos coevos à Confederação do Equador. O mais conhecido deles é o Itinerario que fez Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, sahindo de Pernambuco a 16 de setembro de 1824, para a provincia do Ceara Grandei.
Frei Caneca (1779-1825), sabemos, é o mais celebrado mártir da Confederação do Equador. Seu Itinerário, publicado originalmente em 1875, constitui um documento de cunho autobiográfico em que o líder confederado narra seu calvário particular (mas não solitário), desde a queda do Recife, em setembro de 1824, até sua prisão, no Ceará, em fins de novembro daquele ano, e recondução à “sua pátria”. É a narrativa de uma renhida perseguição dos imperiais aos confederados de Pernambuco e da Paraíba que teimavam em resistir e, embrenhando-se pelos sertões, irem se juntar às forças confederadas do Ceará, no que não lograram êxito.
Principiada a infausta marcha em 16 de setembro de 1824, os confederados fizeram pouso no Engenho Poço Compridoii, onde chegaram no dia 20. Desde a passagem por Goianinha (Condado) na manhã de 19 de setembro, o grupo ao qual se integrara frei Caneca (ao final reduzido ao trio Caneca, Francisco de Souza Rangel e João Soares Lisboa) juntou-se à divisão formada pelo que restara das forças confederadas do Recife, de Goiana e da Paraíba. Integrados, portanto, à cúpula da divisão, Caneca, Lisboa e Rangel apearam no Poço Comprido.
Entre os fatos passados naquele engenho, e registrados atentamente por frei Caneca, o primeiro a revelar o lugar de destaque de Garanhuns na Confederação do Equador deu-se no grande conselho de 21 de setembro de 1824, que, entre suas deliberações, decidiu que “se levantasse o acampamento, e se procurasse outra posição vantajosa”. A almejada “posição vantajosa” tinha entre seus fitos facilitar a: “[…] communicação com os liberaes das provincias do Ceará, Rio Grande do Norte, interior da Parahiba, divisão liberal de Garanhuns, e especialmente com o general Filgueiras, afim de se combinarem os planos de ataque sobre o inimigo”.iii
Em outras palavras, conforme o registro legado por frei Caneca, quando o Recife já caíra e as forças confederadas já haviam sido desmanteladas pelos imperiais em Olinda e Goiana, a Divisão Liberal de Garanhuns resistia no Centro da província, representando a última barreira em território pernambucano aos projetos do absolutismo. Era necessário manter ativa a comunicação com ela, era preciso firmar laço entre a dita divisão sertaneja e a nova divisão surgida após os sucessos da repressão na cabeça da província e na Mata Norte.
Adiante, em seu Itinerário, frei Caneca rememora e registra fato anterior às deliberações do grande conselho. No mesmo Poço Comprido, em 20 de setembro de 1824, as autoridades confederadas ali reunidas enviaram circulares aos líderes da Divisão Liberal de Garanhuns. É muitíssimo revelador este registro:
No antecedente dia escreveram-se circulares aos commandantes das forças de Garanhuns o capitão mór Luiz Tenorio de Albuquerque, o capitão Lourenço Bezerra Cavalcanti, José de Albuquerque Cavalcanti e Antônio Cavalcanti d’Albuquerque, assignadas por João Soares Lisboa e pelo presidente temporario da Parahiba; nas quaes se dava conta do estado de Pernambuco, do fim da divisão, e se rogava que as forças dos seus respectivos commandos se conservassem estacionadas em qualquer ponto do interior, não só para defenderem os do partido liberal; mas tambem para hostilisarem o inimigo quanto podessem.iv
Para além de nomear os comandantes da Divisão Liberal de Garanhuns (importantes autoridades da vila, como veremos), os retirados do Recife, da Mata Norte e da Paraíba, através das lideranças surgidas após a debandada de figuras como a do presidente Manuel de Carvalho Pais de Andrade, rogavam que aquela trincheira liberal se mantivesse de pé, não se dispersasse, garantindo refúgio aos federalistas que, atordoados, ainda estivessem dando de pernas do Recife e da Mata Norte.
Seja pela distância do epicentro dos confrontos, o Recife, seja pelas dificuldades de penetração em zona menos conhecida e própria a escaramuças, fato é que, na esteira dos (in)sucessos da Confederação do Equador, Garanhuns representa a última trincheira federalista em território pernambucano, conforme nos confessa ninguém menos que o frei do Amor Divino, em seu triste Itinerário.
E quem eram esses líderes da Divisão Liberal de Garanhuns, citados nominalmente por Caneca? Orlando Cavalcanti, nos três volumes da sua Gente de Pernambuco, publicados entre 1994 e 2000, dá-nos algumas respostas, baseadas em documentos referidos e, muitas vezes, editados na obra.v

LUIZ TENÓRIO DE ALBUQUERQUE contava cerca de 60 anos e era capitão-mor da Vila de Garanhuns desde a sua instalação em 1813. Tinha ele ao menos 11 filhos legítimos, tidos de sua esposa, dona Rosa Felipa de Santiago. Eram cinco filhos homens e seis mulheres, todos maiores, ao que parece. Os filhos homens, possivelmente, abraçaram as lutas do pai. Entre seus genros, ao menos um combateu ao seu lado: Antônio Cavalcanti de Albuquerque Melo, sargento-mor de Garanhuns, casado com Joana Tenório de Albuquerque. Outros familiares próximos podem ter abraçado as lutas de Luiz Tenório, entre muitos sobrinhos maiores de idade, irmãos e cunhados daquele capitão-mor.
Os três outros comandantes da Divisão Liberal de Garanhuns na Confederação do Equador – Lourenço Bezerra Cavalcanti de Albuquerque, José de Albuquerque Cavalcanti e Antônio Cavalcanti de Albuquerque Melo – são irmãos e, por via paterna, são primos do capitão-mor Luiz Tenório de Albuquerque.
LOURENÇO BEZERRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, o coronel Lourenço Bezerra das Antas, fora diretor do Aldeamento do Ipanema, no distrito de Águas Belas, contava cerca de 44 anos e tinha ao menos dez filhos legítimos e uma filha natural, nascida antes do seu casamento com dona Josefa Florentina de Albuquerque Maranhão, sua prima. Entre os seus filhos, cinco meninos e três meninas eram menores. Dois meninos, todavia, eram maiores e aptos a tomarem parte nas pelejas do pai e parentes confederados. Eram eles: Apolinário Florentino de Albuquerque Maranhão, solteiro e com cerca de 21 anos, e Lourenço Cavalcanti de Albuquerque Maranhão (futuro Barão de Atalaia), solteiro e com cerca de 20 anos.
Senhor de muitas terras e gentes, o coronel Lourenço Bezerra Cavalcanti de Albuquerque era proprietário do Engenho Antas, em Águas Belas, e sobre a serra que dava nome ao seu engenho fizera erguer também o sobranceiro solar onde vivia com sua família: o conhecido casarão do Riacho Fundo. Suas fazendas de gado e algodão se espraiavam serra abaixo, bordejando, sobretudo, o rio Garanhuzinho.
Sobre os dois outros comandantes da Divisão Liberal de Garanhuns, irmãos de Lourenço Bezerra das Antas e primos de Luiz Tenório de Albuquerque, os dados são mais escassos. JOSÉ DE ALBUQUERQUE CAVALCANTI era ao menos três anos mais moço que seu irmão Lourenço e dele sabemos, somente, ter sido coronel-comandante do Ponto do Feijão. De ANTONIO CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE MELO, sargento-mor de Garanhuns, sabemos ser o mais velho entre os três irmãos, contando cerca de 47 anos em 1824. Já mencionamos que Antonio fora casado com uma filha do primo Luiz Tenório de Albuquerque, o capitão-mor de Garanhuns, chamada Joana Tenório de Albuquerque.
O cotejo dos críveis dados constantes nas obras de Alfredo Leite Cavalcanti e Orlando Marques Cavalcanti (críveis porque os autores, quase sempre, indicam e até editam as fontes de onde foram extraídos tais dados) leva-nos a concluir que a família do capitão-mor Luiz Tenório de Albuquerque e seus primos Lourenço, José e Antônio se estabeleceu na região que daria origem ao município da Vila de Santo Antônio de Garanhuns ainda em princípios do século XVIII, adquirindo terras que pertenciam a herdeiros dos primeiros sesmeiros da região. Lá deitaram raízes e firmaram um potentado que ganharia ainda mais vulto sob a Regência e o Segundo Reinado.
Reveladas as identidades dos líderes confederados sertanejos, ressalto a dívida de Garanhuns com frei Caneca, que, nas memórias de sua fuga, não desconheceu e não deixou de registrar os nomes dos patriotas que, após a queda do Recife, resistiam no Centro da província.
Tomando como referência o comportamento da mais proeminente família do município da Vila de Garanhuns, concluo que o Centro da Província de Pernambuco não era o monólito reacionário representado por autores como Evaldo Cabral de Mello. Ao que parece, a região esteve, no máximo, dividida entre morgadistas e carvalhistas, quiçá pendendo mais apara as hostes federalistas. Não é correta, portanto, a conclusão de que “o apoio rural aos movimentos insurrecionais do Recife procedeu invariavelmente da Mata Norte”.i
Em relação ao Centro da Província de Pernambuco, e notadamente ao município da Vila de Garanhuns, estou convencido de que, assim como no poema de Manuel Bandeira, tão apreciado por Cabral de Mello, a clássica historiografia sobre a Confederação do Equador é, sobretudo, aquilo “que poderia ter sido e que não foi”.
Versão resumida de: ALBUQUERQUE, Samuel. O Centro da Província de Pernambuco na Confederação do Equador. In: CÂMARA, Bruno Augusto Dornelas; MOURA, Carlos André Silva de (Orgs.). Confederação do Equador: instituições, ideias e sociedade. Recife: CEPE, 2025. p. 241-277.
O Itinerário foi publicado pela primeira vez em 1875, por iniciativa do comendador Antônio Joaquim de Mello, em obra que reúne, além dos escritos políticos, os escritos literários de frei Caneca. Para a transcrição de trechos do documento, farei uso dessa edição, que manteve a grafia original do manuscrito (CANECA, Frei. Itinerario que fez Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, sahindo de Pernambuco a 16 de setembro de 1824, para a provincia do Ceara Grande. In MELLO, Antonio Joaquim de. (Org.). Obras politicas e litterarias de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Tomo I. Recife: Typographia Mercantil, 1875. p. 110-136). A edição mais recente do Itinerário é a de 2024, levada a cabo pela CEPE Editora, do Recife.
Atual Museu Poço Comprido, no distrito de Murupé, em Vicência, Mata Norte de Pernambuco.
CANECA, Frei. Itinerario que fez Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, sahindo de Pernambuco a 16 de setembro de 1824, para a provincia do Ceara Grande. In MELLO, Antonio Joaquim de. (Org.). Obras politicas e litterarias de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Tomo I. Recife: Typographia Mercantil, 1875. p. 115, grifos nossos.
Ibidem, ibidem.
CAVALCANTI, Orlando [Marques]. Gente de Pernambuco. Recife: Editora Universitária da UFPE/Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, 1994 (Nossa terra, nossa gente); _____. Gente de Pernambuco
. V. 2. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2000 (Resgate); _____. Gente de Pernambuco. V. 3. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2000 (Resgate).