Alexandre Bittencourt Leite Marques
Doutor em História pela Universidade de Évora. Mestre em História pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Católica de Pernambuco.
Olá! Pronto para realizar uma viagem no tempo? Iremos percorrer um triste momento da nossa história: o período da escravidão no Brasil Colônia, especificamente nos sertões da Capitania de Pernambuco. Durante muito tempo, os estudos históricos praticamente se dedicaram a analisar a escravidão nas áreas do litoral e seu entorno, onde estavam erigidos os principais núcleos urbanos da capitania, como Recife, Olinda e demais vilas açucareiras. Nesse sentido, pouco se pesquisou sobre a escravidão nas áreas mais ao interior, os chamados sertões. Contudo, isso está mudando! Nas últimas décadas, tem crescido o número de estudos sobre a presença de escravizados africanos e mestiços nas regiões interioranas de Pernambuco durante o período colonial e imperial.
Antes de trilharmos os caminhos que adentravam o interior pernambucano, é importante sabermos que a palavra “sertão” (plural “sertões”) possuía significados e usos diferentes dos de hoje. Entre os séculos XVI e XIX, um dos significados, por exemplo, era o de apartado da costa, ou seja, distante do litoral, o interior. Além dessa conotação, existiam outras para a referida palavra: espaço bárbaro, selvagem, inculto. Porém, essa história fica para outro dia, pois agora é o momento de entendermos um pouco sobre a presença de escravizados africanos e mestiços nesses lugares distantes da costa de Pernambuco.
De grandes distâncias, desfiladeiros, densos, retorcidos e espinhosos matos, e com falta de água em determinadas épocas, os caminhos pelo interior de Pernambuco eram longos, difíceis e perigosos. Sem dúvida, a travessia por esses espaços não deveria ter sido fácil para os escravizados recém-chegados a esses sertões. Porém, é bem verdade que, com o passar do tempo, essas pessoas acabavam por adquirir afinidade com esses lugares. Como veremos mais adiante, alguns empreenderam fugas em busca de sua liberdade. Fugidos para os matos, passaram a fazer uso desse ambiente para se esconder e sobreviver. Nesse sentido, muitas vezes, era nos matos que havia os caminhos para a fuga e a liberdade.
Tudo começou com a organização do tráfico atlântico de escravos na África a partir do século XVI. De acordo com o historiador Luiz Felipe de Alencastro (2018), basicamente os africanos transportados ao Brasil vieram de duas áreas principais: uma formada pela Baía de Benim e pelo Golfo de Biafra, na África Ocidental, e a outra localizada na África Centro-Ocidental, sobretudo em Angola. Ainda segundo Alencastro (2018), do século XVI até 1850, o Brasil foi o maior importador de escravos africanos das Américas. Estima-se que mais de 4 milhões de escravos africanos deram entrada no Brasil ao longo desse período. Em relação especificamente à ida de escravos africanos para Pernambuco, segundo as historiadoras Suely Almeida e Jéssica de Souza (2013), os cativos partiam da Costa da Mina, na África Ocidental, assim como de Angola, na África Centro-Ocidental. Contudo, em meados do século XVIII, houve um aumento significativo de escravos provenientes de Angola e uma redução considerável de escravos emanados da Costa da Mina.
Capturados nos sertões da África, os escravizados eram conduzidos até o litoral daquele continente. Essa travessia terrestre era cansativa, tortuosa, violenta e perigosa para esses cativos. Uma vez chegados dos sertões africanos à costa marítima, os escravizados eram embarcados em navios, também chamados de tumbeiros, em uma perigosa e mortífera travessia oceânica em direção à América portuguesa. O militar cronista Elias Alexandre da Silva Corrêa, que viveu em Angola na segunda metade do século XVIII, afirmou que havia três portos no Brasil que mais importavam esses escravos procedentes da África Centro-Ocidental: os do Rio de Janeiro, da Bahia e de Pernambuco. Ainda segundo o cronista, desembarcados nesses três lugares, essas pessoas cativas se espalhavam para os diversos sertões e demais capitanias da América portuguesa.
Em relação a Pernambuco, desembarcada nos portos da costa, a maior parte da escravatura acabava sendo utilizada nas propriedades agrícolas de plantação de cana e fabrico de açúcar, como também em diversos afazeres nos principais núcleos urbanos da capitania, tanto um quanto outro situados nas áreas litorâneas e no entorno. No entanto, a partir do século XVIII, cada vez mais escravizados passaram a ser conduzidos para os sertões, devido à consolidação do processo de conquista e ocupação do interior do território, que proporcionou um aumento de propriedades rurais, assim como de povoados e vilas. Nesses casos, para muitos escravizados, além da travessia transatlântica, havia uma viagem complementar em direção ao interior de Pernambuco, que se caracterizava como uma continuação das rotas dos escravos saídos de Angola e outras regiões da África.
Nos sertões de Pernambuco, enquanto alguns escravizados eram introduzidos para realizar trabalhos rurais e domésticos, outros eram conduzidos através dessas veredas para trabalhar nas minas mais distantes do interior do Brasil. Infelizmente, ainda são escassas as informações detalhadas sobre o trânsito dessas pessoas nos sertões pernambucanos. Porém, ainda assim, alguns vestígios de informações foram encontrados nos manuscritos do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU).
Por exemplo, em meados do século XVIII, as autoridades da capitania e da Coroa portuguesa tinham preocupação com o abastecimento de escravos nos sertões. Havia o risco de muitos escravos serem deslocados dos afazeres agrícolas para o trabalho nas minas, causando, assim, prejuízo para o comércio de gêneros agrícolas e o abastecimento de alimentos. Por outro lado, havia casos de condutores que deveriam levar os escravizados até as distantes minas do interior do Brasil, mas não completavam seu trajeto, pois, no meio do caminho, iam vendendo aquelas pessoas para serem utilizadas em outros trabalhos, que não o da mineração. Em consequência dessa instabilidade, na tentativa de melhor equilibrar a entrada e fixação de escravizados nos sertões, as autoridades de Pernambuco e da Coroa portuguesa procuravam instituir medidas de controle. O uso de passaportes por escravos era uma delas. (AHU_ACL_CU_015, cx. 82, D. 6880).
Os escravizados que vieram da África exerceram influência cultural nos lugares para onde foram destinados. Acostumados a trabalhar nas minas, na criação de gado, na plantação de mandioca e milho nos antigos territórios que habitavam no continente africano, muitas vezes os escravos angolas eram adquiridos por senhores dos sertões de Pernambuco e adjacências. Uma vez ali inseridos, aplicavam diversas práticas e costumes vindos da África Centro-Ocidental, bem como se miscigenavam biológica e culturalmente com a população local, composta por luso-brasileiros, grupos indígenas e escravizados de outras partes da África. Consequentemente, a miscigenação de angolas com brancos, angolas com indígenas, angolas com angolas, angolas com outros africanos gerou toda uma leva de mulatos, pardos, cabras e crioulos.
Os escravizados africanos que adentravam os sertões de Pernambuco deveriam sentir um misto de estranheza e semelhança em relação aos espaços por onde passavam. Pernambuco e Angola estão na mesma latitude e têm praticamente o mesmo clima, que varia entre quente e úmido, e quente e seco, a depender da região. Apesar desses fatores propiciarem um ambiente, de certa forma, semelhante entre os dois territórios, há também grandes diferenças na formação do relevo, da flora e da fauna.
Porém, gradativamente, uma vez conhecida a região, alguns desses cativos adaptavam-se aos relevos e à vegetação. Isso para não falar nos descendentes dessas pessoas (crioulos ou mestiços), que já nasciam imersos nos sertões de Pernambuco e, desde cedo, passavam a se aventurar pelos matos que circundavam as vilas, povoados e propriedades rurais. Aliás, é importante frisar: os matos eram o grande aliado das fugas empreendidas por escravos, tanto em Pernambuco quanto em Angola. Não tardaria muito para os escravos africanos e seus descendentes compreenderem que aqueles matos, tão semelhantes e ao mesmo tempo diferentes de sua terra natal, eram também seus aliados mais seguros contra a escravização por parte dos colonizadores.
Da mesma maneira que em Angola, em Pernambuco e em outras partes do Brasil, os escravizados também procuravam resistir às condições penosas do cativeiro. Em busca da liberdade e do fim dos maus-tratos, muitos deles empreenderam fugas para os matos, alguns chegando a formar quilombos. Existiram diversos quilombos espalhados pelo Brasil, dentre eles o de Palmares. Muito se fala nas terras dos Palmares, que ficavam na parte leste e ao sul da Capitania de Pernambuco, ou seja, mais próximas da costa. Porém, pouco se aborda a respeito de seus limites mais a oeste, que chegavam a adentrar parte das caatingas, dos sertões secos, semiáridos e espinhosos, no que hoje é a atual região chamada de Agreste pernambucano. Ainda assim, em documentos dos séculos XVII e XVIII, é possível perceber que a vegetação da caatinga dos sertões de Ararobá e Garanhuns, ou seja, nas terras mais ao oeste, foi usada pelos negros para fuga e esconderijo, anos após a destruição de Palmares.
Contudo, é importante salientar que as matas dos sertões mais ao interior de Pernambuco não abrigavam somente remanescentes de negros fugidos do antigo quilombo dos Palmares ou seus descendentes. Conforme pode ser visto na documentação da época (como inventários e testamentos), diversos sítios, fazendas, povoados e vilas existentes nos sertões possuíam dezenas ou centenas de trabalhadores africanos e mestiços escravizados. Portanto, nesses locais, não seria difícil imaginar que alguns desses cativos conseguissem fugir e se embrenhar pela caatinga à procura de abrigo. Esses escravizados fugidos viam nos lugares mais afastados a oportunidade de se esconder de seus proprietários e das autoridades locais. Alguns desses fugitivos possivelmente formaram pequenos quilombos nas caatingas ásperas; já outros empreenderam as fugas com o intuito de tentar negociar melhores condições com seus donos ou com outros senhores.
Desde o Rio São Francisco até o Maranhão, passando por Pernambuco, as fugas de escravizados nas vastidões territoriais eram constantes. Nos anos de 1750, a existência de um Juízo dos Ausentes tinha, dentre suas finalidades, a de devolver ou arrematar escravizados fugidos. Os senhores que mandassem resgatar seus cativos fugitivos, recolhidos pelo Juízo, deveriam pagar todas as despesas feitas pelo dito órgão. (AHU_ACL_CU_015, cx. 84, D. 6978). Exemplos de registros de fugas de escravizados podem ser encontrados em alguns dos inventários e testamentos dos moradores dos sertões de Pernambuco. No ano de 1785, na Fazenda das Almas, julgado do Pajeú, o crioulo Luiz foi descrito como “acostumado a fugir”. (IAHGP. Fundo Orlando Cavalcanti, cx. 71. Inventário de Alexandre da Silva de Carvalho, 1785). Já no ano de 1788, o mulato João havia fugido de seu senhor, um português chamado Luiz Ferreira Maciel, proprietário da Fazenda da Barra e da Alagoa, ribeira do Pajeú, tendo sido encontrado em outra propriedade, em casa e poder de um capitão chamado Aleixo Feliz de Andrade, morador em seu engenho junto de Limoeiro. (MJPE. BR PEMJ FLOR, cx. 961. Testamento Comendador Luiz Ferreira Maciel, 1788).
Apesar da diversidade de escravizados nos sertões de Pernambuco (angolas, crioulos, pardos, mulatos, cabras, entre outros), todos tinham em comum o fato de estarem na mesma condição de cativos. É bem verdade que alguns conseguiram sua liberdade, seja por meio da resistência, empreendendo fugas, seja por alforria negociada com seus senhores. Infelizmente, a maioria deles morreu escravizada e silenciada no cativeiro. Porém, nem toda desumanização é capaz de silenciar por completo suas histórias, suas individualidades. Nos próprios documentos da sociedade escravista aparecem vestígios sobre esses indivíduos: eram os Luizes, as Marias, os Joãos e tantos outros, com seus nomes, idades, condições e qualidades. Essas pessoas não devem ser consideradas meros números, mas indivíduos de diversas origens, que tinham identidade, que sofriam com doenças, casavam-se, tinham filhos, empreendiam luta, fuga e resistência e, por vezes, adquiriam a liberdade.

BIBLIOTECA NACIONAL (Brasil). Catálogo da exposição de história do Brasil. Anais da Biblioteca Nacional. Volume IX, Rio de Janeiro, 1882. V.1. P. 226, Ref.2.257. Disponível em http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart524404/cart524404.html.
Sendo assim, como vimos, definitivamente havia presença de africanos e mestiços no interior de Pernambuco ao longo do período colonial, seja de grupos oriundos do antigo quilombo dos Palmares, seja de pessoas escravizadas que foram deslocadas para lá para trabalharem nos sítios, fazendas, povoados e vilas dos sertões. Antes de encerrarmos nossa viagem no tempo, vale salientar que vestígios da presença marcante dessas pessoas são percebidos até os dias de hoje, na medida em que existem, por exemplo, comunidades quilombolas no interior de Pernambuco, localizadas em áreas de diversos municípios como, por exemplo, Alagoinha, Caruaru, Garanhuns, Panelas, Pesqueira, Custódia, Flores, Salgueiro, Petrolina, entre tantos outros. A configuração territorial de muitos desses municípios se originaram a partir dos sítios e outras propriedades que, no passado, fizeram uso do trabalho escravo.
FONTES
Manuscritos avulsos do Fundo do Conselho Ultramarino da Série Pernambuco, localizados no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU).
Inventários post-mortem e testamentos localizados no Instituto Arqueológico Histórico Geográfico de Pernambuco (IAHGP) e no Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE).
REFERÊNCIAS
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