Dança do trancelim. Foto: Ricardo Moura. Fonte: acervo do INCRA. In: CARVALHO, Maria Letícia de Alvarenga. Quilombo de Conceição das Crioulas. Belo Horizonte: FAFICH, 2016, p. 08.

Lugares de Memórias da Escravidão e da Liberdade no Sertão de Pernambuco

Por que lembrar? Em um tempo em que a história parece se acelerar e o passado é frequentemente apagado pela modernidade voraz, voltar o olhar para o chão que pisamos não é apenas um ato de nostalgia, mas um ato político de resistência.

Quando o historiador Pierre Nora cunhou o termo “Lugares de Memória”, ele nos alertou que a memória viva, aquela transmitida organicamente de geração em geração, estava desaparecendo, dando lugar a uma “história reconstruída”. No entanto, ao adentrarmos o interior de Pernambuco e o Sertão do São Francisco, descobrimos que a memória da escravidão e, sobretudo, da resistência negra, não é apenas um monumento de pedra ou um arquivo empoeirado. Ela pulsa. Ela é território, reza e corpo.

Neste texto, vamos mapear e discutir esses lugares sagrados e de luta. Mas, diferentemente da visão clássica que busca a memória em estátuas oficiais, nós a buscamos onde ela foi forçada a se esconder e onde ela escolheu resistir: nas comunidades quilombolas que compraram sua própria liberdade e nos terreiros que preservam a África no coração da caatinga.

O Tempo da Escravidão Não Passou

Dialogando com a pensadora Saidiya Hartman, entendemos que o “tempo da escravidão” não é um capítulo encerrado nos livros de história. As rupturas causadas pelo tráfico transatlântico e a “vida póstuma da escravidão” ainda ecoam nas desigualdades do presente. Contudo, como Hartman nos lembra, a dor da perda também gerou uma capacidade criativa de reinventar a vida.

No Sertão, essa reinvenção se manifesta de formas surpreendentes:

  1. A Terra como Lugar de Memória: Como revelado na obra Sertão Quilombola, os quilombos desta região não são apenas refúgios de fuga. São territórios conquistados através da compra de terras, de alianças estratégicas com povos indígenas e de uma relação profunda com o ambiente, criando os “Quilombos-Lugar”, “Quilombos-Árvore” e “Quilombos-Bicho”. Aqui, a memória está na escritura da terra comprada do antigo senhor e na árvore sagrada que demarca o território.
  2. O Terreiro como Arquivo Vivo: Na Cartografia Social dos Terreiros, vemos que em cidades como Petrolina e Juazeiro (Bahia), a memória ancestral não se perdeu; ela se metamorfoseou. Os terreiros de Candomblé e Umbanda funcionam como guardiões de uma filosofia ecológica e comunitária. Eles são lugares de memória onde o corpo dança a história que a boca muitas vezes foi proibida de contar.

Se a teoria de Pierre Nora nos alerta para a fragilidade da memória e Saidiya Hartman nos aponta a continuidade do tempo da escravidão, os dados do Censo 2022 materializam esses conceitos em vidas reais. Aquela ‘memória que pulsa’, descrita anteriormente, tem agora um rosto e um número: são quase 80 mil pernambucanos que, ao se autodeclararem quilombolas, transformam a estatística em um ato político de afirmação identitária. Não estamos falando apenas de ruínas ou documentos antigos, mas da 5ª maior população quilombola do país, que resiste exatamente naqueles territórios do Sertão onde a liberdade foi historicamente negociada e conquistada.

Censo 2022: Pernambuco é o 5º Estado com Maior População Quilombola do Brasil

O Censo Demográfico de 2022 trouxe um marco histórico para a visibilidade das comunidades tradicionais no Brasil: pela primeira vez, o IBGE investigou especificamente o pertencimento étnico quilombola. Os dados revelam que Pernambuco ocupa a 5ª posição no ranking nacional, consolidando-se como um dos maiores territórios de resistência e identidade quilombola do país.

Aqui estão os principais destaques desse levantamento inédito:

A Força dos Números: Quase 80 Mil Quilombolas

Em Pernambuco, 78.827 pessoas se autodeclararam quilombolas. Esse número coloca o estado atrás apenas da Bahia (líder absoluta), Maranhão, Minas Gerais e Pará.

Essa contagem oficial é fundamental, pois tira essas populações da invisibilidade estatística e fornece a base necessária para a criação de políticas públicas de saúde, educação e regularização fundiária.

Onde Estão os Quilombolas em Pernambuco?

A presença quilombola é capilarizada: 113 dos 184 municípios pernambucanos (cerca de 61,4%) registraram a presença de ao menos uma pessoa autodeclarada quilombola. No entanto, algumas cidades se destacam como grandes redutos dessa ancestralidade, especialmente no Sertão e no Agreste.

Cidades com maior população absoluta (número total de pessoas):

  1. Custódia: 7.744 pessoas
  2. Bom Conselho: 6.473 pessoas
  3. Garanhuns: 5.938 pessoas
  4. Santa Maria da Boa Vista: 3.622 pessoas
  5. Mirandiba: 3.363 pessoas

A Densidade da Identidade: Mirandiba em Destaque

Quando olhamos para a proporção (a porcentagem da população da cidade que é quilombola), o cenário muda e revela onde a identidade é mais concentrada em relação ao total de habitantes:

  • Mirandiba: Lidera o ranking proporcional, com 23,74% de sua população total se declarando quilombola.
  • Betânia: 21,8%.
  • Custódia: 20,54%.
  • Brejão: 17,51%.
  • Itacuruba: 16,6%.

Raízes de Pedra e Rio: A Formação e Resistência dos Quilombos no Sertão

Para entender a força dessa identidade que hoje se afirma nas estatísticas, precisamos voltar ao chão batido da caatinga e ouvir as histórias de fundação que desafiam o senso comum, especialmente porque nem todo quilombo nasceu da fuga. No Sertão, a resistência assumiu múltiplas formas: nasceu de migrações pós-Canudos, da organização de negros libertos e de profundas alianças com povos indígenas. Essas comunidades não são apenas refúgios do passado; são territórios vivos, batizados com nomes de animais, árvores e gente — como os ‘Quilombos-Árvore’ (Gameleira, Jatobá) ou ‘Quilombos-Gente’ (Conceição das Crioulas, Negros de Gilú) — que revelam uma relação íntima e sagrada com o lugar.

Quando pensamos em quilombos, a imaginação nos leva quase que imediatamente à Serra da Barriga e ao grande Quilombo de Palmares: um refúgio de guerreiros em matas densas, isolados do sistema escravocrata. No entanto, ao voltarmos o olhar para a Caatinga e para as margens do Rio São Francisco, descobrimos uma história diferente.

A formação quilombola no Sertão de Pernambuco e na Bahia é mais complexa, surpreendente e, muitas vezes, contraintuitiva. Não se trata apenas de fuga, mas de negociação, compra de terras e alianças interétnicas. O estudo Sertão Quilombola revelou como essas comunidades não apenas ocuparam o espaço, mas criaram uma “territorialidade” única, moldando suas identidades entre a seca e o rio.

Muito Além da Fuga: As Múltiplas Origens

Embora os quilombos mais antigos tenham, sim, nascido da fuga da escravidão, a dinâmica mudou drasticamente no final do século XIX. As comunidades formadas a partir desse período são fruto de três movimentos principais:

  • Migrações Internas: Comunidades quilombolas já estabelecidas que se deslocaram em busca de melhores terras ou segurança.
  • Negros “Libertos”: Trabalhadores que deixaram fazendas de regime (semi)escravo para fundar seus próprios roçados.
  • A Diáspora de Canudos: A dispersão populacional após o fim da Guerra de Canudos (1897) levou grupos a migrarem para as margens do São Francisco, fundando novas comunidades baseadas na resistência e na fé.

O Fator Pluriétnico: O isolamento geográfico do Sertão favoreceu uma mistura única. Esses novos grupos não eram exclusivamente negros; eram frequentemente uma “configuração pluriétnica” que acolhia negros, brancos pobres e, fundamentalmente, indígenas.

A Terra Comprada: A Revolução Econômica Silenciosa

Uma das revelações mais fascinantes sobre o Sertão é que a liberdade, muitas vezes, não foi tomada pela força das armas, mas pela força do trabalho. Em uma realidade de resistência econômica monumental, diversos quilombos surgiram em territórios comprados — às vezes das mãos dos próprios ex-senhores — e registrados em cartório.

  • O Caso de Araçá e Buenos Aires: Homens como Seu Severino da Berruga (Buenos Aires) e João Balbino (Araçá) não esperaram por doações. Trabalharam arduamente para acumular capital e comprar suas terras, garantindo a posse legal para suas famílias.
  • O Sacrifício do Feijão: No quilombo do Feijão, a história conta que Jiboião precisou se desfazer de toda a sua criação de animais e vender inúmeros sacos de feijão para conseguir pagar por seus 42 hectares de terra.

A gente trabalha nessa terra há muitos anos. Já vem de 100 anos, meu avô morreu com a idade de 100 anos, eu acho que nós já pagamos essa terra! Já tá mais do que paga, a gente desde criança trabalhando nessa terra!” (Relato em Sertão Quilombola).

A Geografia da Identidade: O Nome é o Lugar

A conexão com o bioma Caatinga é tão profunda que ela define o “batismo” das comunidades. Os nomes não são aleatórios; eles refletem o que o estudo chama de territorialidade — o vínculo afetivo e prático com os recursos naturais que garantiram a sobrevivência do grupo.

  • Quilombos-Lugar (A Geografia): Brejo de Dentro, Serra do Talhado, Riacho do Meio.
  • Quilombos-Árvore (A Flora): Gameleira, Juazeiro Grande, Ingazeira, Jatobá.
  • Quilombos-Bicho (A Fauna): Abelha, Leitão, Gia, Poço dos Cavalos, Cachoeira da Onça.
  • Quilombos-Gente (A Ancestralidade): Conceição das Crioulas, Negros de Gilú.

Essa taxonomia revela que o território não era apenas um chão para morar, mas um espaço sagrado de caça, coleta, cura e refúgio.

Sede da AQCC. Fonte: acervo do INCRA. In: CARVALHO, Maria Letícia de Alvarenga. Quilombo de Conceição das Crioulas. Belo Horizonte: FAFICH, 2016, p. 11.

Mapeando a Resistência: Onde Estão?

MunicípioComunidades Quilombolas
SalgueiroConceição das Crioulas
MirandibaJuazeiro Grande, Araçá
CustódiaRiacho do Meio, Cachoeira da Onça, Serra da Torre, Buenos Aires
CarnaíbaBrejo de Dentro, Gameleira, Abelha
ItacurubaIngazeira, Poço dos Cavalos, Negros de Gilú
QuixabaGia
Afogados da IngazeiraLeitão (Leitão da Carapuça)
Santa TerezinhaSerra do Talhado

4. Alianças de Sangue: Negros e Indígenas

No Vale do São Francisco, a fuga das fazendas (como as de Floresta) não levou ao isolamento total, mas ao encontro. As rotas de fuga dos negros cruzavam territórios indígenas, gerando o que os historiadores chamam de “redes de sociabilidade intercomunitária”.

O acolhimento de negros em aldeias indígenas (temporário ou permanente) criou laços de parentesco indissolúveis. Essa fusão é visível hoje nos rituais, na medicina das rezadeiras e na própria fisionomia das populações sertanejas. A resistência à opressão colonial no Brasil foi, e continua sendo, uma luta interétnica.

O Progresso que Afoga a Memória

A água — elemento vital no semiárido — tornou-se um agente de apagamento da memória negra e indígena no século XX e XXI. Grandes projetos hídricos trouxeram o “desenvolvimento”, mas cobraram um preço alto das comunidades tradicionais.

  • Negros de Gilú (A Cidade como Exílio): Esta comunidade viveu o trauma do deslocamento compulsório pela CHESF para a construção da Hidrelétrica de Luiz Gonzaga. A inundação da velha Itacuruba forçou a comunidade a migrar para a periferia urbana (bairro Caixa D’água), rompendo o vínculo com a terra e o rio. Como lamentam os mais velhos: “perder a identidade é perder as brincadeiras, os rituais”.
  • Carvalho (O Risco da Transposição): Em Custódia, a comunidade de Carvalho viu sua igreja secular, construída pelas mãos de seus antepassados ex-escravizados, ameaçada de demolição pelas obras da Transposição do Rio São Francisco.

Filhos de Canudos: O Caso de Barrinha da Conceição

Um exemplo fascinante dessa resistência móvel é a comunidade de Barrinha da Conceição, em Juazeiro (BA). Sua origem não remonta à fuga de uma senzala colonial, mas à fuga da Guerra de Canudos (1896-1897).

Seus antepassados, sobreviventes do massacre de Belo Monte, migraram trazendo consigo a imagem de Nossa Senhora da Conceição e a tradição do “Samba de Veio”. Hoje, enquanto lutam por saneamento básico e educação, eles provam que a identidade quilombola é dinâmica: ela se refaz na luta diária pela cidadania, mantendo viva a memória de que seus avós não aceitaram a opressão da República Velha.

Uma História de Luta do Povo Negro: Vida, Fé e Memória nos Terreiros do Sertão

Se nos quilombos a resistência se deu historicamente através da conquista da terra e da produção agrícola, existe outro espaço no Sertão onde a memória africana não apenas sobreviveu, mas floresceu com uma força impressionante: os terreiros de Candomblé e Umbanda. Enquanto as comunidades quilombolas garantiam o sustento do corpo, os terreiros preservaram a “tecnologia” ancestral de cura e conexão com a natureza.

O estudo de Cartografia Social dos Terreiros, realizado por volta de 2015, revelou uma realidade que desafiava o senso comum. Longe da invisibilidade ou da presença discreta imaginada pela história oficial, pesquisadores mapearam uma rede vibrante e densa: quase cinco centenas de casas de culto espalhadas entre Petrolina (PE) e Juazeiro (BA).

Ao adentrarmos nesses territórios sagrados através dos registros dessa pesquisa, encontramos um caldeirão de resistência, onde a fé era definida como uma “religião ecológica” e a luta contra o preconceito se fazia no toque do tambor.

A “Pele” do Orixá e a Ecologia do Sagrado

A densidade religiosa identificada na época, liderada por figuras como Pai Gildo, Pai Jorge e Mãe Socorro, demonstrava que a fé de matriz africana era um pilar fundamental da organização social da região. Mais do que locais de culto, os terreiros funcionavam como guardiões de uma filosofia intrinsecamente ecológica.

Para essas comunidades, os Orixás são energias que atuam nas forças naturais – tempestades, rios, sol, plantas e metais. A máxima recorrente kosí ewe, kosí òrìsà (“sem folha não há orixá”) sintetizava essa relação onde a pessoa não apenas se sentia parte da natureza, mas entendia que “ela é a natureza”.

Essa sabedoria era transmitida através do que o Ogan Ricardo Nery definiu como uma “educação de pele”. O conhecimento não estava apenas nos livros, mas na vivência oral e corporal: aprendia-se olhando os rituais, escutando os mais velhos e vestindo a religião. A entrada nos cargos e funções, muitas vezes, era compreendida não como uma escolha pessoal, mas como uma designação ancestral.

A “Mãe África”: Metáfora e Identidade

Nos discursos recolhidos pela pesquisa, a figura da “Mãe África” aparecia como uma metáfora mítica necessária. Embora os entrevistados reconhecessem que o Candomblé “puro” pertencia ao continente africano, a idealização de uma “África ancestral” funcionava como uma estratégia política e discursiva para conferir legitimidade ao Candomblé, diferenciando-o da Umbanda.

Nesse contexto, a Umbanda era caracterizada como a “verdadeira religião brasileira” devido ao seu sincretismo de elementos africanos, indígenas e cristãos, enquanto o Candomblé se posicionava como guardião de uma proximidade maior com as raízes negras. Contudo, a prática sertaneja mostrava que tais fronteiras eram fluidas: inúmeros terreiros operavam com práticas “cruzadas”, transitando entre as nações e as linhas de caboclo.

Essa fluidez foi personificada em lideranças registradas na época:

  • Pai Gildo: Considerado então o Babalorixá mais antigo da região, transitava entre as vertentes, ensinando que “o importante é zelar pelos orixás”, independentemente do rótulo.
  • Mãe Maria de Tempo: Liderança da Nação Angola em Juazeiro, cujos relatos ajudaram a compreender como a realidade sertaneja forjou o “Candomblé de Caboclo”, uma fusão que honrava tanto a ancestralidade africana quanto a indígena local.

Conflitos e a “Ecologia de Sangue”

A pesquisa também documentou as tensões enfrentadas por essas comunidades, especialmente no que tange ao sacrifício animal, ou imolação. Para os povos de terreiro, essa prática não era crueldade, mas uma “Ecologia de Sangue”. O sangue (ou axé) era visto como veículo de energia vital circulando entre seres, divindades e terra.

Um caso emblemático registrado foi o de Mãe Renilda, em 2012. Seu terreiro, a Tenda de Umbanda Estrela da Guia, em Petrolina, sofreu uma invasão da Vigilância Sanitária que tratou o espaço sagrado como um “abatedouro clandestino”. O episódio evidenciou o racismo institucional e desencadeou uma batalha jurídica pelo reconhecimento de que a visão de mundo africana sobre a natureza e a vida é válida e deve ser protegida constitucionalmente.

As Rezadeiras: A Medicina da Fé nas Margens

Nas franjas dos terreiros e das igrejas, a cartografia também identificou a presença fundamental de rezadeiras e rezadores. Eles atuavam como guardiões de um saber medicinal que a ciência oficial muitas vezes ignorava, utilizando plantas da caatinga e orações.

Figuras como Seu Zé do Vira Beijú (entrevistado aos 84 anos) e Dona Maria dos Santos exemplificavam a sobrevivência desses métodos. Seja curando “espinhela caída” com pinhão-roxo ou retirando “quebranto” com galhos de mussambé, essas práticas misturavam fé católica e pajelança indígena, provando que a cura no Sertão sempre foi plural.

Considerações Finais: Caminhos da Revolta e a Memória Viva do Sertão

O site Caminhos da Revolta nasceu com a missão de trazer luzes sobre as histórias de resistência que moldaram a identidade do Sertão de Pernambuco, muitas vezes silenciadas ou simplificadas pela historiografia tradicional. Ao percorrermos as trilhas dos Quilombos e Terreiros, desde a compra da terra no século XIX até a luta contra o racismo institucional no século XXI, confirmamos que a memória não é um arquivo estático, mas uma força viva e transformadora.

Os registros aqui reunidos, fixados no tempo pelas pesquisas de Sertão Quilombola e da Cartografia Social dos Povos de Terreiro de Petrolina e Juazeiro, servem hoje como prova documental de uma resistência histórica. Eles revelam que o Sertão de Pernambuco, como também o da Bahia, nunca foi um vazio espiritual ou cultural. Pelo contrário, foi e continua sendo um palco onde a memória africana e indígena se reinventou para sobreviver à seca, à escravidão e ao esquecimento.

Seja na luta pela terra nos quilombos de Araçá e Conceição das Crioulas, seja na defesa do sagrado nos terreiros de Juazeiro e Petrolina, a história desse povo confirma que a memória cura, educa e, acima de tudo, resiste. Estes são os verdadeiros caminhos da revolta: trilhas que nos levam do passado traumático ao presente de luta, provando que, enquanto houver quem conte a história e quem bata o tambor, a chama da liberdade no Sertão jamais se apagará.

Referências

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HARTMAN, Saidiya. O Tempo da Escravidão. Tradução de Kênia Freitas, Cíntia Guedes e Matheus Araujo dos Santos. Periódicus, Salvador, n. 14, v. 1, p. 242-262, nov. 2020/abr. 2021.

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SANTOS, Márcia Guena dos et al. Quilombos do submédio São Francisco: definições e delimitações. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 34., 2011, Recife. Anais […]. São Paulo: Intercom, 2011.

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