A Confederação do Equador e os Sertões: rebeldia, esperança e resistência

A Confederação do Equador foi uma das maiores revoltas ocorridas no Brasil no início do século XIX. O movimento teve início em Pernambuco, mas logo ganhou força na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte, chegando a inspirar movimentos no Maranhão e em outras províncias. Seu objetivo principal era claro: lutar contra o autoritarismo de Dom Pedro I e o sistema centralizador da monarquia recém-criada. A alternativa proposta era a de um Brasil republicano e federalista, no qual cada província teria mais autonomia para tomar decisões administrativas e políticas.

Logo após a Independência do Brasil, Pernambuco e outras províncias do norte viveram um período de grande tensão. Inicialmente, grande parte das elites locais apoiou a independência, mas sob certas condições: exigiam uma monarquia constitucional — ou seja, com limites ao poder do imperador — e a manutenção de certa autonomia política, a exemplo das Juntas Provinciais de Governo, criadas entre 1820 e 1821. Essas juntas permitiam que as províncias escolhessem seus próprios dirigentes.

Contudo, em 1823, o governo de Dom Pedro I adotou medidas que desagradaram a muitos, principalmente no Norte do país:

  • Criou os cargos de Presidentes de Província, que eram escolhidos diretamente pelo imperador, retirando dos grupos locais o direito de decidir sobre seus próprios governos.
  • Fechou a Assembleia Constituinte, que deveria discutir a Constituição do Brasil, em um ato considerado autoritário.

Foi nesse clima que Frei Caneca, importante líder religioso e intelectual, começou a publicar o jornal Typhis Pernambucano, no qual denunciava os abusos do governo e defendia ideias federalistas e liberais.

As disputas internas em Pernambuco

Em Pernambuco, o cenário político também estava dividido. Desde setembro de 1822, o poder provincial era controlado pela chamada “Junta dos Matutos”, formada por grandes senhores de engenho da Mata Sul. Em dezembro de 1823, porém, devido as insatisfações com o governo e falta de autoridade dos “Matutos”, outra junta foi eleita, liderada por Manoel de Carvalho Paes de Andrade e com nomes de peso como Frei Caneca e José da Natividade Saldanha, todos participantes da Revolução Pernambucana de 1817.

Os “Matutos” não aceitaram o resultado e recorreram ao imperador para manter sua influência. 15Em resposta, Dom Pedro I nomeou Francisco Paes Barreto — o “Morgado do Cabo” e seu aliado — para a presidência da província, que até então presidia a Junta dos Matutos. No entanto, quando o nome foi apresentado em fevereiro de 1824, a maior parte da elite pernambucana se recusou a aceitar a decisão do imperador.

Isso gerou a existência de dois governos rivais na província:

  • A junta de Manoel de Carvalho Paes de Andrade, apoiada pelos setores federalistas e liberais de Recife e Olinda.
  • O governo de Francisco Paes Barreto, sediado na vila do Cabo, com apoio direto do imperador.

O caminho para a revolta

Em abril de 1824, Frei Caneca escreveu que aceitar a nomeação de Paes Barreto seria o mesmo que legitimar a política autoritária e centralizadora de Dom Pedro I. Nos meses seguintes, a tensão apenas aumentou. Enquanto o imperador enviava sua nova Constituição de 1824 — outorgada por ele mesmo e vista como um “projeto pérfido” por seus críticos — para ser aceita pelas câmaras municipais, os líderes pernambucanos se recusavam a abrir mão do governo local.

Entre maio e junho, as tropas de Paes de Andrade começaram a agir contra o governo rival, que se retirou para Alagoas, aguardando reforços do imperador. Já era claro que o conflito não se restringiria a disputas políticas. Em 2 de julho de 1824, foi proclamada a Confederação do Equador. O nome fazia referência à linha do Equador, próxima ao território nordestino, e simbolizava a tentativa de criar uma união de províncias autônomas.

Inspirados pela experiência de 1817, os confederados defenderam um regime republicano e federalista, em oposição ao modelo centralizador de Dom Pedro I. A revolta rapidamente recebeu a adesão das províncias da Paraíba, do Ceará e do Rio Grande do Norte, contando com o apoio de militares, políticos e religiosos que buscavam um Brasil mais descentralizado.

O imperador reagiu sem demora, enviando tropas que, com a ajuda de aliados locais, estabeleceram uma forte repressão. A rebelião na Paraíba e no Rio Grande do Norte foi rapidamente sufocada. O Ceará resistiu um pouco mais, mas, em 12 de setembro de 1824, a revolta foi militarmente derrotada. 

A fuga foi a solução encontrada por alguns. Manoel de Carvalho Paes de Andrade conseguiu escapar para a Inglaterra com sua família. Já Frei Caneca, considerado o símbolo intelectual e político da Confederação, foi preso e executado, tornando-se o mártir mais lembrado da causa.

O que os confederados realmente queriam?

Segundo o historiador Luiz Geraldo Silva, os confederados não buscavam “esquartejar o império” e fundar novos países. Seu objetivo principal era garantir o pacto constitucional firmado na Independência e propor um modelo alternativo de organização para o Brasil, mais descentralizado e diferente do projeto autoritário imposto pelas elites do Sul e pela corte do Rio de Janeiro.

A Confederação do Equador foi uma das mais fortes contestações ao poder de Dom Pedro I. Embora tenha sido breve e violentamente derrotada, deixou lições fundamentais ao expor as profundas divisões do Brasil recém-independente e a força das províncias do Norte na defesa de projetos federalistas. A Confederação foi, em suma, uma tentativa frustrada de construir um projeto alternativo de Estado Imperial.

Por que Pernambuco se revoltava tanto?

Pernambuco tem uma longa história de lutas e contestações, o que ajuda a entender o clima de insatisfação que eclodiu em 1824.

  • Durante o domínio holandês (1630-1654), sob o governo de Maurício de Nassau, a região experimentou certa liberdade e organização autônoma, o que marcou a memória da província.
  • A Restauração Pernambucana, quando os pernambucanos expulsaram os invasores, reforçou a ideia de que poderiam se governar sozinhos.
  • Com a Guerra dos Mascates (1710), já surgiam os primeiros debates sobre a criação de uma república em Pernambuco.
  • A Revolução Pernambucana de 1817, embora fracassada, foi muito lembrada e consolidou ideias de republicanismo, resistência à dominação portuguesa e crítica à monarquia.

Esses antecedentes formaram o que Ulysses de Carvalho Brandão chamou de “gênio pernambucano” de autonomia. Além disso, após a Independência em 1822, muitos pernambucanos sentiram-se prejudicados: o dinheiro da província era enviado para o Rio de Janeiro, mas pouco retornava em benefícios. A dissolução da Assembleia Constituinte por Dom Pedro I em 1823 foi a gota d’água, deixando claro que o imperador desejava governar sem dividir o poder com as províncias.

A Proclamação da Confederação do Equador

Em 2 de julho de 1824, lideranças de Pernambuco proclamaram oficialmente a Confederação do Equador. Eles defendiam:

  • uma república, em vez da monarquia;
  • um sistema federalista, no qual cada província teria autonomia;
  • medidas ousadas, como a abolição do tráfico de escravos.

O movimento se espalhou rapidamente, com levantes na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte. Até regiões mais distantes, como o Maranhão, sentiram os ecos da revolução.

O Sertão entra em cena

É possível afirmar que foi nos sertões e nas áreas rurais que o movimento mostrou sua força real. Na Paraíba, a participação popular foi intensa, especialmente na vila do Brejo, enquanto a vila de Areia liderou importantes levantes contra o presidente nomeado pelo imperador. O maior momento de luta ocorreu na Batalha de Riacho das Pedras, em 24 de maio de 1824, perto de Itabaiana, com quase 2 mil combatentes e 113 mortos. Após a derrota, os rebeldes recuaram em direção ao Ceará, tentando reorganizar a resistência. 

No Agreste pernambucano, os indígenas de Cimbres também se mobilizaram. Eles não se uniram diretamente aos confederados, mas tomaram uma posição política em favor de Dom João VI, pois acreditavam que, assim, protegeriam suas terras coletivas. Isso demonstra como os povos indígenas interpretaram a crise segundo seus próprios interesses, exercendo sua autonomia.

No Ceará, o movimento teve um caráter ainda mais popular. No Crato, em 1823, muitos “cabras” (mestiços e trabalhadores pobres) se revoltaram contra o recrutamento para o Exército. Segundo historiadores, essas camadas mais baixas não obedeciam simplesmente aos líderes da elite; agiam com autonomia e sonhavam com transformações sociais mais profundas, evocando até mesmo lembranças da Revolução Haitiana.

No Maranhão, as ideias confederadas ressurgiram em 1828, com a chamada República de Pastos Bons. Esse eco tardio mostra como os ideais republicanos não morreram com a derrota de 1824, mas continuaram a circular, especialmente no sertão.

A Retirada e a criação da Divisão Constitucional

Quando Recife caiu em setembro de 1824, parecia que tudo estava perdido, mas a resistência continuou no interior. Foi criada a Divisão Constitucional da Confederação do Equador, formada por soldados, milícias populares, camponeses e até famílias que acompanhavam os revoltosos na fuga. Alguns líderes importantes, como Pedro Ivo e Frei Caneca, uniram-se a esse grupo.

Eles marcharam em direção ao Ceará, improvisando trilhas e abrindo caminho na mata com foices e machados, muitas vezes sobrevivendo de cana-de-açúcar. No percurso, enfrentaram batalhas duras, como em Couro d’Anta, onde o jornalista revolucionário João Soares Lisboa foi gravemente ferido. A odisseia terminou em 29 de novembro de 1824, já em território cearense, quando os rebeldes foram cercados e enganados com falsas promessas de paz. Os últimos sobreviventes, entre eles Frei Caneca, foram presos. Frei Caneca acabaria se tornando o mártir mais lembrado da Confederação, sendo executado no Recife.

O Significado da Confederação e seus ecos no Sertão

A Confederação do Equador foi muito mais do que uma rebelião regional; ela colocou em confronto dois projetos de país. Mesmo derrotada, a Confederação deixou um legado republicano e federalista que seria retomado ao longo do século XIX.

E aqui reside o ponto essencial: o sertão não foi apenas um cenário de apoio ou refúgio. Foi um espaço de mobilização, confronto e resistência, onde ocorreram as batalhas mais longas, onde os ideais ganharam capilaridade popular e onde se deu a última luta armada do movimento. O sertão, nesse sentido, ajudou a manter vivo o projeto revolucionário. Ele mostrou como, para além das elites urbanas, camadas populares — mestiços, camponeses e indígenas — também tiveram um papel ativo na construção do debate sobre que tipo de Brasil estava nascendo. 

Considerações Finais

A Confederação do Equador (1824) foi um dos momentos mais intensos da história brasileira no século XIX. Seu fim teve um custo alto: mortes, prisões e uma repressão violenta. Mas sua memória perdurou. O sertão nordestino, longe de ser periférico, foi protagonista: alimentou a luta, sustentou a resistência e tornou-se um símbolo de coragem diante do poder imperial.

Assim, ao olharmos para a Confederação do Equador, não vemos apenas uma revolta pernambucana ou um episódio isolado. Vemos uma batalha entre projetos para o Brasil: um centralizado e monárquico, outro descentralizado e republicano.

Referências

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