A história da Independência do Brasil que aprendemos na escola muitas vezes parece um caminho reto, que levaria inevitavelmente ao 7 de setembro de 1822. Mas a realidade foi bem mais complicada e cheia de reviravoltas. A Independência não foi um evento único, e sim o resultado de um verdadeiro cabo de guerra entre diferentes grupos com ideias muito distintas para o futuro do país.
O projeto que venceu — um Brasil unificado sob a monarquia de Dom Pedro I, com poder centralizado no Rio de Janeiro — não era a única opção na mesa. Havia alternativas que acabaram derrotadas e até mesmo o receio, entre os donos de escravos, de que acontecesse aqui uma grande rebelião de escravizados, como a vitoriosa revolução que libertou o Haiti (então Saint-Domingue) do domínio francês. O objetivo aqui é contar essa história sem heróis idealizados, mostrando as disputas e contradições daquele momento.
Podemos entender um pouco desse processo observando o que ocorreu na província de Pernambuco. Desde que a família real portuguesa se instalou no Rio de Janeiro em 1808, todas as ordens vinham de lá. Muitas elites locais não estavam satisfeitas com isso e ficaram animadas quando uma revolução liberal em Portugal, em 1820, permitiu que as províncias brasileiras elegessem seus próprios governantes por meio de Juntas de Governo — um movimento do qual Bahia e Pará foram pioneiras.
Essa ideia, conhecida como federalismo, ganhava cada vez mais espaço e popularidade no debate público, inspirada pela independência dos Estados Unidos e pelo início dos processos de emancipação das colônias espanholas na América. Significava que cada província teria mais autonomia para tomar as próprias decisões e, principalmente, para controlar o dinheiro arrecadado em seu território, em vez de enviá-lo para o Rio. Era um primeiro passo para um autogoverno que agradava a muitos.
Contudo, essa proposta de autonomia não agradava a todos, especialmente a D. Pedro e seus aliados, liderados por José Bonifácio de Andrada e Silva. Ambos enviaram emissários às províncias para convencer a população, focando nas elites políticas e econômicas das vilas. Esse grupo era formado por grandes proprietários de terras e de escravos, comerciantes e homens que ocupavam postos importantes em instituições administrativas e militares, além de ostentarem títulos que lhes conferiam nobreza e poder local. Por isso, a adesão de Pernambuco ao projeto do Rio de Janeiro não foi voluntária nem pacífica. Inclusive, diferente do que muita gente pensa, o Brasil teve guerras de independência, com mobilizações militares e focos de resistência em províncias como Bahia, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Cisplatina (hoje Uruguai).
O historiador Evaldo Cabral de Mello, em sua análise sobre o processo em Pernambuco, relata um episódio ilustrativo. Ele argumenta que o emissário enviado para negociar com a Junta pernambucana — comandada pelo comerciante Gervásio Pires Ferreira e outras famílias influentes — chegou a prometer quase tudo que o grupo reivindicava. O objetivo era garantir a adesão ao projeto do Rio de Janeiro, liderado por D. Pedro e organizado por seu ministro José Bonifácio, mesmo que para isso fosse preciso fazer promessas conflitantes entre si.
Como afirmamos no início, havia outros projetos de independência em disputa. Seria impensável que, em um território tão vasto e diverso, todos tivessem a mesma ideia de nação. Havia uma pluralidade de grupos políticos e sociais, homens e mulheres trazidos à força de diferentes regiões da África e seus descendentes (livres ou libertos), além de inúmeras etnias indígenas que resistiam em suas terras. Justamente por essa complexidade, foi necessário que o príncipe D. Pedro e Bonifácio enviassem seus agentes para negociar, persuadir e, quando preciso, impor o seu projeto de Brasil.
Contudo, isso não significa que todos os grupos sociais foram ouvidos e participaram de forma igualitária no debate da independência e da formação do Estado Imperial. A historiografia recente tem apontado que, embora grupos como escravizados, libertos, pessoas de cor livres, homens e mulheres das classes baixas e indígenas tenham participado ativamente do processo, lutando e reivindicando suas pautas, eles foram, na maioria das vezes, deixados de lado nas decisões políticas das vilas e províncias.
Houve exceções, claro. Em algumas províncias, esses grupos tiveram mais autonomia e possibilidade de diálogo do que em outras. Mas Pernambuco é um exemplo claro de um lugar onde a participação desses grupos no processo de decisão foi severamente limitada pela atuação das elites locais.
A participação das vilas e regiões do sertão de Pernambuco no processo de independência do Brasil insere-se precisamente nessa questão. Nas principais obras sobre o tema em Pernambuco, são raras as análises que abordam a atuação da população do interior da província nesse momento. É uma história que precisa ser construída. Aqui, buscaremos apresentar um recorte desse processo, a partir da proposta do nosso projeto e em diálogo com textos de outros colegas.
Com certeza. O material que você reuniu é riquíssimo, mas está fragmentado como notas de pesquisa. Meu trabalho aqui será o de um tecelão: vou entrelaçar esses fios de informação em uma narrativa coesa, que flui diretamente do que já estabelecemos.
A ideia é transformar essa coleção de eventos, nomes e datas em uma história viva que demonstre, com provas documentais, como a Independência foi um processo construído ativamente no sertão, com suas próprias tensões, projetos e protagonistas.
Enquanto isso, no Sertão: A Independência em Carne e Osso
Se a história da Independência costuma ser contada a partir dos salões do Rio de Janeiro ou dos campos de batalha na Bahia, os documentos empoeirados da antiga Comarca do Rio São Francisco, no sertão de Pernambuco, nos oferecem uma perspectiva diferente e fundamental. Eles revelam como a construção de um país se dava na prática, no cotidiano de pequenas vilas distantes centenas de quilômetros do poder central. Longe de serem meros espectadores, os habitantes do sertão foram agentes ativos, negociando, conflitando e, finalmente, elaborando seu próprio projeto de futuro em meio à crise do Império português.
1. As Bases da Crise: Ordem, Justiça e Autonomia (1820-1821)
Antes mesmo que o grito do Ipiranga ecoasse pelo país, o sertão já fervilhava com as tensões da formação do Estado. A criação da Comarca do Rio São Francisco em 1820 foi o ponto de partida. Imediatamente, surgiram os desafios práticos: como governar um território tão vasto? A primeira medida do governador Luís do Rego Barreto foi ordenar a criação de um serviço de correios, passo essencial para a comunicação e o controle administrativo.
Ao mesmo tempo, a população local pressionava por seus interesses. Moradores reclamavam da ausência de juízes letrados, o que os forçava a longas e perigosas viagens para resolver disputas e garantia a impunidade de crimes graves. Em vilas como Pilão Arcado, a nomeação de oficiais e os conflitos entre potentados locais, como o Capitão-mor e seus desafetos, exigiam a intervenção constante do governo provincial.
Nesse cenário, a maior reivindicação era por autonomia. Povoados como Campo Largo e Carinhanha lutavam para serem elevados à categoria de vila, o que lhes daria uma Câmara Municipal e mais controle sobre seus próprios assuntos. A luta não era apenas por status, mas por sobrevivência e desenvolvimento, como argumentavam os moradores de Carinhanha ao citar sua importância comercial e a enorme distância da sede, a Vila da Barra.
2. A Ruptura: Brasileiros vs. Portugueses no Coração do Sertão (1822)
A crise política nacional chegou ao sertão e ganhou um rosto: o do ouvidor português João Carlos Leitão. Nomeado no final de 1821, ele inicialmente pareceu um administrador dedicado, apoiando a criação da vila de Carinhanha e mediando disputas de terra. Contudo, à medida que a tensão entre Brasil e Portugal crescia, sua lealdade foi posta em xeque.
Em junho de 1822, as Câmaras foram ordenadas a realizar o juramento às Cortes de Lisboa, mas o sentimento de separação já era forte. Em novembro, a situação explodiu. A Câmara da Vila da Barra, suspeitando que o ouvidor, por ser europeu, pudesse fugir e se unir às tropas portuguesas na Bahia, o intimou a aclamar Dom Pedro e jurar obediência às novas Cortes brasileiras. Pressionado e acuado, Leitão teria respondido com desdém: “Jurarei quando quizerem”. O juramento ocorreu sob coação e, logo depois, o ouvidor fugiu da Comarca, personificando a ruptura definitiva com a autoridade portuguesa na região.
3. A Adesão à Causa: Guerra, Política e um Projeto para o Futuro (1823)
Com a ruptura consolidada, o sertão abraçou a causa da Independência com fervor. Em 1º de janeiro de 1823, mesmo sem uma ordem direta do governo, a Câmara da Vila da Barra aclamou solenemente Dom Pedro I como Imperador do Brasil.
Mas a adesão não foi apenas simbólica. A região se mobilizou para a guerra. Discutiu-se o envio de armas para apoiar a luta contra as forças portuguesas em Oeiras (Piauí). O padre José Lúcio do Bomfim fez uma proclamação inflamada, convocando a população a formar o “Batalhão do Rio de São Francisco” para socorrer o exército na Bahia, bradando com orgulho: “porque também somos Pernambucanos“.
Foi nesse momento de efervescência que surgiu o mais audacioso projeto político local. Em 21 de julho de 1823, em uma reunião na Vila da Barra para preparar as reivindicações aos deputados eleitos para a Assembleia Constituinte, uma proposta revolucionária foi formalizada: a criação da Província do Rio São Francisco.
A justificativa era a mesma que por anos alimentara as queixas locais: a enorme distância da capital, Recife, que dificultava o acesso à justiça e aos recursos. A proposta era a expressão máxima do ideal federalista no sertão, um desejo de autogoverno que ecoava as disputas políticas de todo o Brasil. Eles não queriam apenas pertencer ao novo Império; queriam moldá-lo segundo seus próprios interesses, transformando sua remota comarca em uma província autônoma.
Mesmo que a proposta não tenha vingado, ela revela o vigor político de uma região frequentemente vista como periférica. Os fragmentos de documentos, embora incompletos, pintam um quadro claro: a Independência no sertão foi um processo de intensa negociação, conflitos violentos e, acima de tudo, de uma clara consciência política, onde homens e mulheres comuns, longe dos centros de poder, ajudaram a dar forma e sentido à nação que nascia.
Considerações Finais
Ao percorrer os caminhos sinuosos que levaram à Independência do Brasil, torna-se evidente que estamos diante de um processo histórico vivo e contraditório, e não de uma data cívica engessada no tempo. A narrativa aqui construída buscou deliberadamente se afastar da imagem de um evento monolítico, fruto da vontade de poucos heróis, para revelá-lo como um campo de disputas, um mosaico de projetos concorrentes e de realidades locais distintas que, juntas, deram forma à nação que nascia.
É nesse sentido que o mergulho na documentação do sertão pernambucano se revela tão fundamental. Longe das grandes narrativas, são as miudezas do cotidiano administrativo que nos mostram as verdadeiras engrenagens da formação do Estado. A criação de um serviço de correios, a anulação de uma eleição local, a queixa contra um ouvidor corrupto ou a mobilização para construir uma igreja não são meros detalhes pitorescos; são a materialização da política no nível mais elementar e, talvez por isso, mais autêntico.
O sertão, frequentemente visto como um espaço periférico e passivo, surge nesta análise como um palco de intensa atividade política. A proposta de criação da Província do Rio São Francisco, nascida no calor dos debates de 1823, não foi uma utopia local, mas a mais clara expressão regional de um anseio por autonomia que percorria todo o Brasil e que definiria os grandes conflitos políticos do Império e da República.
Portanto, revisitar a Independência sob esta ótica é mais do que um exercício de correção histórica. É compreender as origens de tensões que marcam o Brasil até hoje: a luta perene entre um poder centralizador e as autonomias regionais; o abismo entre os projetos formulados pelas elites e as demandas concretas das populações locais; e a persistente invisibilidade de um Brasil profundo, distante dos centros de decisão.
A Independência, afinal, não terminou em 1822. Ela deixou em aberto questões fundamentais sobre o país que queríamos ser, e cujas respostas ainda buscamos construir no presente.
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