O Grito do Sertão: A Face Oculta da Revolução de 1817

A manutenção da família real portuguesa no Rio de Janeiro desde 1808 e os custos das intervenções de Dom João VI no Uruguai e na Guiana levaram a um aumento de impostos no Nordeste. A seca de 1814-1817 e o fim da guerra (1812-1815) entre Inglaterra e Estados Unidos, derrubaram as exportações de algodão agravando a crise, que também atingia os militares nascidos no Brasil, que eram mal pagos e sem possibilidade de ascensão, reservada a gente nascida na Europa.

Em 6 de março de 1817, um grupo de liberais radicais (que não devem ser confundidos com o “liberalismo” atual) tomaram o poder. Chamaram de revolução, pois se inspiravam nos ideais da Revolução Francesa, que ampliou as liberdades e direitos civis, e na Revolução Americana, que promoveu um imenso crescimento econômico naquele país. Os revolucionários formaram um governo republicano, apoiados por muitos clérigos, magistrados e proprietários rurais e urbanos e governaram Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte por 74 dias. Tiveram muito apoio no Ceará, enviaram emissários para os EUA e cone sul e tentaram, sem sucesso, “revolucionar” outras partes do Brasil.
Baseados em uma Lei Orgânica” republicana, a primeira constituição do Brasil, pretendiam ampliar direitos que não existiam no Absolutismo, tanto que aboliram as formas de tratamento senhorial, como Vossa Mercê, obrigando todo mundo que não era escravizado a se tratar igualmente por Vós ou Patriota. 

O movimento de 1817 tinha contradições, como todas as revoluções já acontecidas, pois defendia a propriedade e não eram abolicionistas. Todavia, condenaram moralmente a escravidão, prometendo que o “cancro da escravidão”, nas palavras dos revolucionários, seria abolido no futuro, uma promessa que nunca havia sido feita até então pelo governo monárquico. Eram, portanto, emancipacionistas, pois defendiam o fim da escravidão, mesmo que não fosse de imediato. Esse emancipacionismo levou muita gente pobre, inclusive libertos, escravizados e o Batalhão dos Henriques a aderir ao movimento.

A Surpresa Sertaneja: Para Além do Mito da Monarquia

Por muito tempo, o interior de Pernambuco foi retratado como uma fortaleza de lealdade à monarquia. O historiador Evaldo Cabral de Mello descreveu a região como um lugar de “fanatismo monárquico”, onde a população era tão fiel ao rei que chegava a hostilizar violentamente os defensores da república. Embora existissem fortes laços econômicos entre o Sertão — grande fornecedor de gado e algodão — e o litoral, politicamente pareciam mundos opostos.

No entanto, essa visão conta apenas metade da história. Documentos e relatos da época revelam um cenário muito mais complexo e surpreendente. Longe de ser um espectador passivo, o interior foi um caldeirão de ideias e um viveiro de combatentes pela causa republicana.

As Sementes da Liberdade no Coração do Interior

As ideias revolucionárias não esperaram a explosão na capital para se espalhar. Sociedades secretas, como o famoso Areópago de Itambé, foram fundadas estrategicamente na zona rural, na divisa com a Paraíba, funcionando como centros de difusão do pensamento iluminista.

De lá, as notícias e os ideais viajavam nas bolsas dos almocreves, comerciantes e viajantes que cruzavam os sertões. Eles foram os verdadeiros mensageiros da revolução, levando panfletos e proclamações do novo governo a vilas distantes, incitando o povo a se levantar. O plano do Governo Provisório era claro: a revolução só venceria se conquistasse o vasto território interiorano.

Um Exército Vindo do Sertão

A resposta foi imediata e avassaladora. Quando a notícia da tomada do poder no Recife chegou, o Sertão não hesitou. De vilas como Limoeiro, Pão de Alho e Igarassu, um “avultado número de Ordenanças” — milícias locais — marchou em direção à capital para se juntar ao movimento, como relata o historiador Muniz Tavares.

O entusiasmo era tão grande que um dos principais líderes da revolução, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, escreveu ao irmão, maravilhado:

“Acabo de vir do Conselho assombrado de ver a imensa tropa que baixa do interior. (…) Deve montar a 10 mil a que com as milícias e ordenanças formará um exército de 30.000 soldados.” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, p. 69)

Mesmo que o número fosse um exagero do calor do momento, a carta revela a impressionante capacidade de mobilização popular da revolução. Não era um motim de poucos, mas um movimento com profundo apoio, capaz de formar um exército formidável com homens vindos do Agreste e do Sertão.

Construindo um Novo Poder no Interior

A adesão não foi apenas popular, mas também institucional. O Governo Provisório agiu rápido para desmantelar o poder da Coroa e instalar uma nova estrutura republicana. Na Paraíba, por exemplo, novos oficiais, leais à República, foram nomeados para comandar o estratégico Regimento de Cavalaria do Cariri (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, p. 53; 55; 56; 59). O próprio ouvidor da comarca do Sertão, José da Cruz Ferreira, aderiu à causa, assinando despachos em favor dos revolucionários (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, p. 214).

A Igreja Católica, instituição de imenso poder no interior, também se dividiu. Muitos padres, especialmente os de formação mais progressista, foram cruciais para espalhar as ideias e legitimar a revolta. Em uma carta, um padre da região do Cunaú, no Rio Grande do Norte, usou uma linguagem codificada para declarar apoio, afirmando dispor de um “grande número de gente a favor da causa”, disfarçando sua lealdade à República (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CIII, p. 31).

No Ceará, o Sertão foi o próprio epicentro do movimento, com a revolução liderada pela poderosa família Alencar, na região do Crato. Como os próprios documentos da repressão monarquista admitiriam mais tarde, “os sertões não entraram na revolução, senão depois que Pernambuco, Paraíba, e Rio Grande foram revolucionados”, mas quando entraram, desenvolveram focos de poder autônomos e resilientes (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CVI).

Quando o Sertão Ardeu: A Repressão e o Fim do Sonho de 1817

Se o Sertão foi o bastião que deu força e homens à Revolução de 1817, ele também se tornou o palco sangrento de sua derrocada. A mesma vastidão que permitiu a articulação secreta do movimento transformou-se em uma armadilha mortal quando a fúria da Coroa Portuguesa se abateu sobre os insurgentes. A repressão foi implacável, e o interior de Pernambuco, Paraíba e Ceará tornou-se um vasto e violento campo de batalha.

A Coroa Contra-ataca: O Sertão em Armas

A contrarrevolução não nasceu na capital. Ganhou força nas vilas do sul da província, como Santo Antão e Pão de Alho, que se declararam leais à monarquia e por onde avançou o exército vindo da Bahia. O objetivo era claro: sufocar a revolução a partir de suas bordas, cercando-a.

Os documentos da época, escritos pela ótica dos vencedores, narram uma ofensiva coordenada para “pacificar” o interior. O Governador do Ceará, Manuel Inácio de Sampaio, um dos mais ferozes repressores, ordenou a marcha de suas tropas pelos sertões da Paraíba para caçar rebeldes (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CII, p. 42). Foi uma guerra que não respeitou fronteiras provinciais.

Ao mesmo tempo, a Coroa travava uma batalha de narrativas. Para deslegitimar o movimento, culpava os “magnatas do sertão da Paraíba”, acusando-os de manipular o povo (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CII, p. 46). Líderes antes vistos como influentes, como padres e proprietários rurais, eram demonizados e chamados de “facinorosos” (criminosos), como foi o caso do Padre Luiz José Corrêa de Sá (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CV, p. 45). A intenção era apagar qualquer traço de apoio popular à causa republicana.

O resultado foi uma conflagração total. Uma carta da época, curta e alarmante, resume o cenário de forma poderosa: “o sertão está todo em armas” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CV, p. 70). Lealdades familiares, disputas por terra e a influência de coronéis fiéis a Portugal criaram divisões profundas, transformando o Sertão em um palco de uma verdadeira guerra civil, onde “os povos do sertão” foram convocados para lutar contra os rebeldes, como descreve Muniz Tavares (TAVARES, 2017, p. 132). Batalhas decisivas, como o Combate de Utinga, foram travadas no interior, selando o destino militar da revolução.

O Último Refúgio: A Fuga Pela Caatinga

Com a queda de Recife e a derrota militar, o Sertão mudou de papel mais uma vez. De berço da revolução e campo de batalha, tornou-se o último refúgio. Para os líderes e combatentes que tentavam escapar do fuzilamento, a geografia acidentada da Caatinga, com suas serras e rios secos, oferecia um esconderijo natural e uma rota de fuga.

Desde o início da repressão, muitos já fugiam da capital, “uns pelos portos onde há jangadas, e outros para o interior” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, p. 71). Com o fim do movimento, essa fuga se tornou desesperada. Os relatos dos sobreviventes pintam um quadro trágico:

  • Frei Caneca, uma das mentes mais brilhantes da revolução, fugiu desesperadamente para o “sertão do Açu” e depois para a remota “serra do Martins” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CIII, p. 11).
  • André de Albuquerque Maranhão, outro líder, “foi para o sertão, onde andou errante, e fugido” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CVI, p. 110).

A imagem desses homens, antes importantes revolucionários, agora como fugitivos errantes, capta a essência do fim do projeto em discussão. O Sertão foi o cenário do epílogo da revolução, o lugar onde a esperança de uma república se desfez em longas e perigosas jornadas de fuga.

Retratos do Sertão: A Vida por Trás da Guerra

Curiosamente, os documentos da repressão, focados em crimes e perseguições, nos oferecem vislumbres valiosos sobre a vida no Sertão no início do século XIX. Quase por acidente, eles revelam uma sociedade com suas próprias regras e costumes.

Uma nota simples informa que “nas grandes estradas do interior não há estalagens” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, p. 12), o que nos diz muito. Sem espaços para descanso e passarem as noites, os viajantes dependiam inteiramente da hospitalidade dos moradores, indicando uma cultura baseada em laços pessoais e confiança mútua.

A economia agropastoril, espinha dorsal da região, também aparece. Vemos decretos sobre a “arrematação dos dízimos das ribeiras do Cariri e Patu” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, p. 58). Uma carta descreve poeticamente a riqueza da pecuária, falando de como os “vigorosos pastos chamam os seus gados para os criar, e nutrir” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, página 64). Eram esses rebanhos a base do poder da população do sertão.

Um Legado Inesquecível

Analisar a Revolução de 1817 é perceber que o Sertão foi muito mais que um cenário. Foi um protagonista ativo: impulsionou a revolução com homens e recursos, foi o campo de batalha onde a repressão se mostrou mais brutal e serviu como santuário final para os sonhos desfeitos dos revolucionários.

Os documentos, criados para condenar, acabaram por preservar para sempre a prova do profundo envolvimento sertanejo na primeira grande tentativa de se construir um Brasil livre. Ignorar o papel do Sertão é, sem dúvida, compreender apenas metade da história de 1817.

Referências

Documentos Históricos, Devassa da Revolução de 1817, v. CI.

Documentos Históricos, Devassa da Revolução de 1817, v. CII.

Documentos Históricos, Devassa da Revolução de 1817, v. CIII.

Documentos Históricos, Devassa da Revolução de 1817, v. CIV.

Documentos Históricos, Devassa da Revolução de 1817, v. CV.

Documentos Históricos, Devassa da Revolução de 1817, v. CVI.

MOTA, Carlos Guilherme. Nordeste 1817: estruturas e argumentos. São Paulo: Perspectiva; Edusp, 1972.

SILVA, Luiz Geraldo. Igualdade, liberdade e modernidade política: escravos, afrodescendentes livres e libertos e a Revolução Pernambucana de 1817. In: SIQUEIRA, Antônio Jorge; WEINSTEIN, Flávio Teixeira; REZENDE, Antônio Paulo (Org.). 1817 e outros ensaios. Recife: CEPE, 2017.

TAVARES, Muniz. História da Revolução Pernambucana de 1817. Recife: CEPE, 2017.

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