Flávio José Gomes Cabral
Professor de História na Universidade Católica de Pernambuco
Em 1820, o governo pernambucano, capitaneado pelo general Luís do Rego Barreto, foi cientificado de que, nos sertões de Bonito, trabalhadores rurais haviam se arranchado no sopé da Serra do Rodeador para ouvir pregações que falavam sobre o desencantamento de el-rei D. Sebastião, soberano português conhecido como o Rei Desejado, morto em 1578 em combate com os mouros nos areais marroquinos de Alcácer-Quibir. O desafortunado monarca, que desde seu nascimento foi aguardado, ou melhor, “desejado”, como aquele que continuaria a dinastia e evitaria uma possível anexação de Portugal pela Espanha, desaparecera sem deixar herdeiros, deixando a nação desolada. No Sítio do Rodeador, ou Cidade ou Reino do Paraíso Terreal, como passou a ser conhecido um arraial ali organizado, o rei estava prestes a desencantar, quando então distribuía venturas aos crédulos. Nessa ocasião, as injustiças sociais acabariam inaugurando tempos miraculosos. Essas histórias eram transmitidas por Silvestre José dos Santos, um desertor das milícias locais, que, desde princípios do oitocentos, havia se arranchado naquele sítio, nas terras do sesmeiro João Francisco da Silva.
Em um primeiro momento, Silvestre se apresentou como trabalhador braçal ou como meeiro e, após realizar alguns acertos com o senhor daquelas terras, logrou algum sucesso, quando então convidou a parentela para ali se instalar. Ele provavelmente conhecia as histórias de D. Sebastião e do seu retorno, tanto que começou a pregar sobre os milagres do rei, atraindo para o local uma chusma de pessoas pobres e desempregadas, de origem afrodescendente, que ali ergueram cabanas, vivendo do amanho da terra. Os habitantes do Rodeador acalentavam sonhos de melhoria de vida; contudo, dificilmente seriam concretizados, porque o país, no tempo da sua independência, excluiu toda sorte de gente pobre em detrimento das famílias patriarcais que, desde tempos pretéritos, foram agraciadas com a posse de terras e comandavam a política.
A situação do povo pobre que vivia do trabalho rural em nada mudou com a chegada da família real ao país, em 1808; pelo contrário, tendeu a piorar. Os métodos de recrutamento militar afligiam esse povo, que se via privado de seus filhos, os quais eram desenraizados à força dos lares para servir a Coroa em diversos quartéis. Os gêneros alimentícios encareceram, e ampliou-se a carga tributária para cobrir os gastos da nova interiorizada nos trópicos. A gritaria era grande. O povo pobre, afrodescendente, que se arrebanhou para o Rodeador era proveniente de vários lugares, principalmente do Povoado de Bonito, dos Cariris Velhos, das regiões do Capibaribe, de Garanhuns e de Tracunhaém, com idades que variavam entre 20 e 60 anos. As mulheres eram maioria; contudo, pouco se sabe sobre o seu cotidiano. Todavia, cinco delas – Feliciana Maria da Conceição, Francisca Maria de Santana, Isabel Maria, Joana Evangelista e Manoela Maria – exerciam atividades importantes junto a uma irmandade ali organizada, o que consistia em novidade para uma época que excluiu as mulheres do exercício de atividades de destaque na sociedade.
As massas excluídas constantemente vagavam de lugar em lugar em busca de colocação, e, na Cidade do Paraíso Terreal, aparentemente encontraram a felicidade. Para aquela cidade convergiram centenas de pessoas que se abrigaram em diversas cabanas cobertas de palhas de catolé. O trabalho no Rodeador era coletivo, e o fruto da labuta agrícola era comercializado nas feiras da redondeza. Pela manhã, grande parte do povo cultivava a terra, e, à noite, rezava em uma pequena capela que abrigava as imagens de Nossa Senhora e do Senhor Bom Jesus. As rezas eram comandadas pelo próprio Silvestre e pelo cunhado Manoel Gomes das Virgens, também desertor, que o secundava em diversos ofícios. Findos os atos religiosos, os homens manejavam armas. Dizia-se que essas hostes um dia se reuniriam com as do Rei Desejado e, em marcha, lutariam contra os exércitos de D. João VI. Os exércitos sebastianistas seriam vitoriosos, quando então se inaugurariam tempos de felicidade com o desencanto de D. Sebastião.
Os habitantes da Cidade do Paraíso Terreal reclamavam das injustiças sociais, da falta de trabalho e da carestia. Esse quadro de penúria cresceu a partir do início dos Oitocentos e se agravou durante as fortes estiagens que se prolongaram ao longo dos anos de 1815 e 1818. Por ocasião desses infortúnios, muitos atravessadores, desejosos de ganhar dinheiro, aumentavam os preços das mercadorias, gerando desespero. Diante do exposto, havia, na capitania, desesperanças generalizadas que desaguaram na Revolução de 1817. A soldadesca há muito se encontrava desesperada com o atraso do soldo e com o recrutamento forçado, tanto que constantemente fugia das casernas. Não foi à toa que grande parte dos homens que viviam no Rodeador era desertora, inclusive o próprio Silvestre e seu cunhado. Para os habitantes daquele sítio, essas desventuras acabariam com a chegada do rei D. Sebastião.
À primeira vista, as primeiras informações sobre o ajuntamento do Rodeador chegaram até o governador Luís do Rego Barreto por intermédio das autoridades bonitenses. Posteriormente, foram infiltrados espiões na comunidade, que se passaram por conversos e colheram importantes informações sobre o cotidiano e o modus vivendi da Cidade do Paraíso Terreal, principalmente sobre o comportamento de seu povo, procedência, sexo, idade, profissão e aspirações. O governador acreditava que ali se maquinava um movimento contrarrevolucionário com o intuito de restaurar a Revolução de 1817.
Diante dessas desconfianças, Barreto ordenou que as autoridades redobrassem sua vigilância sobre o arraial, a fim de conhecer seus objetivos, pensamentos e com quem mantinham diálogos. Mesmo tomando ciência de que o povo arrebanhado naquele local era constituído por gente simples e seguidora do sebastianismo, ele não se convenceu, tanto que preparou exércitos para dissolver a citada comunidade. As estratégias de guerra foram cuidadosamente planejadas, tanto que o governador desejou comandá-las in loco; contudo, desistiu da ideia após tomar conhecimento da notícia da eclosão da Revolução do Porto, trazida pelo paquete inglês Chresterfield, que aportou em Recife no dia 22 de outubro de 1820.
Surpreso com as novidades, Luís do Rego resolveu permanecer em Recife, porque temeu que se organizasse algum movimento em solidariedade àquela revolução. Diante do exposto, delegou ao general Madureira Lobo que o substituísse no comando das tropas que se dirigiram para Bonito, a fim de desmontar a comunidade do Rodeador, que foi invadida em plena madrugada do dia 26 de agosto de 1820. A escolha dessa data não se tratou de obra do acaso, porque tinha-se conhecimento prévio de que, naquele dia, muita gente iria se reunir, atraída pelas histórias do desencantamento de D. Sebastião e pelo aparecimento de Nossa Senhora. Durante o cerco, registrou-se tremenda carnificina. A Cidade do Paraíso Terreal foi incendiada, e os que escaparam do cerco foram presos e remetidos para o Recife para responderem a inquérito; contudo, foram soltos por não se encontrar culpa alguma. A trajetória de vida das mulheres e dos homens do Rodeador abre janelas para que possamos conhecer a história de um Brasil rural e real do tempo de sua independência.
Para saber mais:
CABRAL, Flavio José Gomes. Paraíso Terreal: a Rebelião Sebastianista na Serra do Rodeador. Pernambuco, 1820. São Paulo, Annablume, 2004.
CABRAL, Flavio José Gomes. Sonhar e morrer por Dom Sebastião: História e cotidiano dos trabalhadores pobres e rebeldes do Rodeador (Pernambuco – 1820. In RÜCKERT, Fabiano et al (org.) Histórias da pobreza no Brasil. Rio Grande: Ed da FURG, 2019, p. 11-31. Disponível em: https://ppghistoria.furg.br/images/Cardozo2019_Pobreza.pdf Acesso: 31/01/2026.
HERMANN, Jacqueline. O movimento sebastianista da serra do Rodeador, Pernambuco na primeira metade do século XIX. In: ALMEIDA, Ângela Mendes et all. De sertões e espaços incivilizados. Rio de Janeiro: FAPERJ/MAUAD, 2001.
PALACIOS, Guilhermo. Messianismo e expropriação camponesa: uma nova expedição ao Reino da Pedra encantada do Rodeador. Pernambuco, 1820. Revista de História, v. 147, p. 71-108, 2002.