Caminhos da Revolta https://caminhosdarevolta.com.br Wed, 11 Mar 2026 00:46:49 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://caminhosdarevolta.com.br/wp-content/uploads/2025/07/faficon_Prancheta-1-copia.png Caminhos da Revolta https://caminhosdarevolta.com.br 32 32 A ditadura civil-militar no interior Pernambucano: experiências e singularidades do Agreste ao Sertão https://caminhosdarevolta.com.br/a-ditadura-civil-militar-no-interior-pernambucano-experiencias-e-singularidades-do-agreste-ao-sertao/ https://caminhosdarevolta.com.br/a-ditadura-civil-militar-no-interior-pernambucano-experiencias-e-singularidades-do-agreste-ao-sertao/#respond Wed, 11 Mar 2026 00:45:36 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=1073
Adauto Guedes Neto
Professor de História do Tempo Presente da Universidade de Pernambuco (Campus Petrolina)

A ditadura civil-militar brasileira (1964–1985) produziu experiências múltiplas e heterogêneas em diferentes regiões do país. Embora a historiografia tenha privilegiado, por muito tempo, os grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro, São Paulo e Recife, estudos mais recentes têm demonstrado que o regime autoritário assumiu feições próprias no interior nordestino. No caso de Pernambuco, particularmente no Agreste e no Sertão, a compreensão desse período exige atenção às dinâmicas locais de poder, às relações entre Igreja, Estado e elites agrárias, bem como às formas específicas de vigilância e repressão que nem sempre se expressavam por meio de prisões espetaculares ou confrontos abertos. Nesse contexto, a experiência da chamada Teologia da Enxada, desenvolvida na cidade de Tacaimbó entre 1969 e 1971, constitui um caso singular para compreender a presença e a atuação da ditadura no interior pernambucano.

A Teologia da Enxada foi um projeto de formação presbiteral que rompeu, em muitos aspectos, com o modelo tradicional dos seminários. Inspirada pelas orientações pastorais e teológicas do Concílio Vaticano II, essa experiência buscava construir um “novo jeito de ser Igreja”, profundamente comprometido com os pobres e com a realidade social do campo. Em vez de uma formação isolada em instituições clericais distantes do cotidiano das comunidades, os seminaristas passaram a viver e trabalhar junto às populações rurais, participando das atividades agrícolas e inserindo-se na vida comunitária. A enxada, símbolo do trabalho camponês, tornou-se também um elemento pedagógico e espiritual, articulando fé, prática social e reflexão pastoral.

Nesse sentido, a formação realizada em Tacaimbó dialogava diretamente com as transformações que ocorriam na Igreja latino-americana no final da década de 1960, sobretudo após a Conferência de Medellín, que enfatizou a opção preferencial pelos pobres e a necessidade de uma presença eclesial comprometida com a justiça social. A Teologia da Enxada procurava formar padres preparados para atuar no meio rural, atentos às experiências de vida das comunidades camponesas e às expressões da religiosidade popular. A fé era compreendida não apenas como doutrina, mas como prática vivida no cotidiano, marcada por romarias, devoções, celebrações comunitárias e formas próprias de organização social.

Entretanto, essa proposta pastoral e formativa ocorreu em um momento de forte endurecimento do regime autoritário brasileiro. O final da década de 1960 foi marcado pela intensificação da repressão política, especialmente após a promulgação do AI – 5, em 1968. Nesse contexto, qualquer iniciativa que envolvesse organização popular, crítica social ou atuação junto aos pobres poderia ser interpretada pelos órgãos de segurança como potencial ameaça à ordem estabelecida. Foi exatamente o que ocorreu com a experiência da Teologia da Enxada.

Documentos produzidos por órgãos de informação da ditadura demonstram que seminaristas, padres e agentes pastorais ligados a essa iniciativa foram monitorados e investigados. A vigilância se dava por meio de relatórios, infiltrações e acompanhamento de atividades religiosas e comunitárias. Missas, reuniões pastorais e encontros de formação eram

observados por agentes que buscavam identificar possíveis vínculos com organizações consideradas subversivas. Nos registros produzidos por esses órgãos, a formação realizada em Tacaimbó passou a ser associada a ideias consideradas perigosas, e seus participantes foram rotulados como “comunistas” “Subversivos” ou “agitadores”.

A presença dessa vigilância evidencia uma característica importante da ditadura no interior: a repressão frequentemente se manifestava de maneira silenciosa e difusa. Diferentemente do que ocorreu em grandes cidades, onde prisões políticas e confrontos ganharam visibilidade pública, no interior pernambucano o controle social era exercido por meio de redes locais de poder, articulações entre autoridades políticas, elites agrárias e agentes do Estado. Informações circulavam entre delegacias, quartéis, prefeituras e setores conservadores da sociedade, produzindo um ambiente de suspeita e intimidação.

Assim, compreender a ditadura no interior não significa apenas identificar episódios de resistência organizada, mas também analisar as formas sutis de vigilância e controle que permeavam o cotidiano das comunidades. No caso da Teologia da Enxada, a espionagem sobre seminaristas e lideranças religiosas revela como o regime buscava acompanhar e neutralizar experiências que pudessem fortalecer a organização popular no campo.

Outro aspecto fundamental para entender as singularidades da ditadura no interior pernambucano diz respeito ao papel das elites locais e de setores políticos que apoiavam o regime. Prefeitos, fazendeiros e lideranças regionais frequentemente atuavam como mediadores entre o poder central e as realidades locais, contribuindo para consolidar a autoridade do regime. Em muitas regiões do Agreste e do Sertão, essas elites estavam diretamente interessadas na manutenção da ordem social e na repressão de iniciativas que pudessem questionar a estrutura fundiária ou fortalecer a organização dos trabalhadores rurais.

Nesse cenário, grandes projetos de desenvolvimento implementados pelo governo militar tiveram impactos profundos sobre as populações do interior. Um dos exemplos mais significativos foi a construção da Usina Hidrelétrica de Itaparica, no rio São Francisco, conduzida pela CHESF, empresa subsidiária da Eletrobras e vinculada ao Ministério de Minas e Energia do regime. Apresentado como símbolo do progresso e da modernização nacional, o empreendimento resultou no deslocamento de milhares de pessoas e na transformação radical do território sertanejo.

Militares inaugurando obras públicas no interior a partir de recursos do projeto Aliança para o progresso, financiado com recursos dos EUA para conter o avanço do comunismo no Brasil. Fonte: Arquivo Pessoal de Carlos Leite Barros, ex-prefeito de Tacaimbó.

As populações atingidas pela barragem enfrentaram processos de desapropriação marcados por conflitos, ausência de diálogo e desrespeito aos direitos humanos. Comunidades inteiras foram removidas de suas terras, muitas vezes sem garantias adequadas de reassentamento ou condições dignas de vida. O discurso do desenvolvimento, amplamente difundido pela propaganda oficial do regime, contrastava com a experiência concreta de agricultores, pescadores e moradores das áreas inundadas pelo lago de Itaparica.

A análise desse processo permite compreender como a ditadura civil-militar também se expressou por meio de políticas econômicas e projetos de infraestrutura que reforçaram desigualdades e produziram novas formas de violência social. No interior de Pernambuco, o autoritarismo não se limitava aos aparelhos repressivos tradicionais; ele se materializava também na imposição de grandes obras, na redefinição do uso do território e na marginalização de populações consideradas obstáculos ao progresso.

Sendo assim, a experiência da Teologia da Enxada e o processo de construção da barragem de Itaparica revelam dimensões complementares da ditadura no interior pernambucano. De um lado, a formação pastoral inspirada pelo Concílio Vaticano II expressava uma tentativa de construir práticas religiosas comprometidas com os pobres e com a transformação social. De outro, os projetos desenvolvimentistas do regime evidenciavam a força de um modelo autoritário de modernização, que subordinava territórios e populações aos interesses do Estado e de grandes empresas.

A articulação entre essas duas experiências permite ampliar a compreensão historiográfica sobre o período. Ao analisar a atuação da Igreja progressista em regiões rurais e os impactos de grandes empreendimentos estatais, torna-se possível perceber que o interior foi também um espaço central de disputa política durante a ditadura. Ali se confrontavam diferentes projetos de sociedade: de um lado, iniciativas que buscavam fortalecer a organização popular e a dignidade das comunidades; de outro, políticas que priorizavam a expansão econômica e o controle social.

A historiografia recente sobre o tema, tem demonstrado que o estudo da ditadura fora dos grandes centros urbanos contribui para revelar novas perspectivas sobre o período. Pesquisas sobre a Igreja no Nordeste, sobre a atuação pastoral em áreas rurais e sobre os conflitos decorrentes de grandes obras públicas evidenciam que o regime autoritário se manifestou de formas variadas, muitas vezes invisibilizadas pela narrativa tradicional.

No caso de Tacaimbó, a documentação produzida por órgãos de segurança e pelos próprios participantes da experiência pastoral constitui um acervo fundamental para compreender as tensões entre Igreja, Estado e sociedade no contexto da ditadura. Esses registros permitem reconstruir não apenas a trajetória da Teologia da Enxada, mas também as estratégias de vigilância e controle utilizadas pelo regime no interior. Ao mesmo tempo, os estudos sobre a construção da barragem de Itaparica e os impactos sociais desse empreendimento evidenciam a centralidade do Nordeste nos projetos de desenvolvimento do governo militar. A análise dessas experiências revela como a lógica autoritária se articulava com interesses econômicos e com a atuação de empresas estatais, produzindo efeitos duradouros sobre as populações locais. Portanto, compreender as singularidades da ditadura civil-militar no interior de

Pernambuco implica reconhecer a complexidade das relações entre religião, política e economia no período. A Teologia da Enxada, ao propor uma formação presbiteral enraizada na vida dos pobres e nas práticas da fé popular, representou uma experiência inovadora e, ao mesmo tempo, alvo de suspeita e repressão. Já a construção da barragem de Itaparica simboliza a face desenvolvimentista e autoritária do regime, marcada pela imposição de grandes projetos e pela marginalização das comunidades atingidas. O estudo dessas experiências não apenas amplia o conhecimento sobre o passado autoritário do país, mas também permite refletir sobre os legados desse período nas dinâmicas sociais e territoriais do presente. A memória da Teologia da Enxada e das populações atingidas por Itaparica continua a desafiar a historiografia e a convidar a novas investigações sobre a ditadura no interior brasileiro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADILSON FILHO, José (Org.). Ecos da ditadura militar no Brasil profundo (1964- 1985). João Pessoa: Editora do CCTA, 2025.

Militares inaugurando obras públicas no interior a partir de recursos do projeto Aliança para o progresso, financiado com recursos dos EUA para conter o avanço do comunismo no Brasil. Fonte: Arquivo Pessoal de Carlos Leite Barros, ex-prefeito de Tacaimbó.

BAUER, Caroline Silveira; GERTZ, René E. Fontes sensíveis da história recente. IN: PINSKY, Carla Bassanezi; LUCA, Tania Regina de (Org.). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2012.

FICO, Carlos. Como eles agiam. Os subterrâneos da ditadura militar: espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001.

GOMES, Paulo César. OsBisposCatólicoseaDitaduraMilitarBrasileira: a visão da espionagem. Rio de Janeiro: Record, 2014.

GUEDES NETO, Adauto. TeologiadaEnxadaeDitaduraMilitar: relações de poder e fé no agreste pernambucano entre 1964 e 1985. Jundiaí-SP: Paco Editorial, 2014.

SCOTT, Parry. Negociações e resistências persistentes: agricultores e a barragem de Itaparica num contexto de descaso planejado. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2009.

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Homens e mulheres pobres e o mito do retorno de D. Sebastião na Serra do Rodeador https://caminhosdarevolta.com.br/homens-e-mulheres-pobres-e-o-mito-do-retorno-de-d-sebastiao-na-serra-do-rodeador/ https://caminhosdarevolta.com.br/homens-e-mulheres-pobres-e-o-mito-do-retorno-de-d-sebastiao-na-serra-do-rodeador/#respond Tue, 03 Feb 2026 20:10:27 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=1040 Flávio José Gomes Cabral
Professor de História na Universidade Católica de Pernambuco

Em 1820, o governo pernambucano, capitaneado pelo general Luís do Rego Barreto, foi cientificado de que, nos sertões de Bonito, trabalhadores rurais haviam se arranchado no sopé da Serra do Rodeador para ouvir pregações que falavam sobre o desencantamento de el-rei D. Sebastião, soberano português conhecido como o Rei Desejado, morto em 1578 em combate com os mouros nos areais marroquinos de Alcácer-Quibir. O desafortunado monarca, que desde seu nascimento foi aguardado, ou melhor, “desejado”, como aquele que continuaria a dinastia e evitaria uma possível anexação de Portugal pela Espanha, desaparecera sem deixar herdeiros, deixando a nação desolada. No Sítio do Rodeador, ou Cidade ou Reino do Paraíso Terreal, como passou a ser conhecido um arraial ali organizado, o rei estava prestes a desencantar, quando então distribuía venturas aos crédulos. Nessa ocasião, as injustiças sociais acabariam inaugurando tempos miraculosos. Essas histórias eram transmitidas por Silvestre José dos Santos, um desertor das milícias locais, que, desde princípios do oitocentos, havia se arranchado naquele sítio, nas terras do sesmeiro João Francisco da Silva.

Em um primeiro momento, Silvestre se apresentou como trabalhador braçal ou como meeiro e, após realizar alguns acertos com o senhor daquelas terras, logrou algum sucesso, quando então convidou a parentela para ali se instalar. Ele provavelmente conhecia as histórias de D. Sebastião e do seu retorno, tanto que começou a pregar sobre os milagres do rei, atraindo para o local uma chusma de pessoas pobres e desempregadas, de origem afrodescendente, que ali ergueram cabanas, vivendo do amanho da terra. Os habitantes do Rodeador acalentavam sonhos de melhoria de vida; contudo, dificilmente seriam concretizados, porque o país, no tempo da sua independência, excluiu toda sorte de gente pobre em detrimento das famílias patriarcais que, desde tempos pretéritos, foram agraciadas com a posse de terras e comandavam a política.

A situação do povo pobre que vivia do trabalho rural em nada mudou com a chegada da família real ao país, em 1808; pelo contrário, tendeu a piorar. Os métodos de recrutamento militar afligiam esse povo, que se via privado de seus filhos, os quais eram desenraizados à força dos lares para servir a Coroa em diversos quartéis. Os gêneros alimentícios encareceram, e ampliou-se a carga tributária para cobrir os gastos da nova interiorizada nos trópicos. A gritaria era grande. O povo pobre, afrodescendente, que se arrebanhou para o Rodeador era proveniente de vários lugares, principalmente do Povoado de Bonito, dos Cariris Velhos, das regiões do Capibaribe, de Garanhuns e de Tracunhaém, com idades que variavam entre 20 e 60 anos. As mulheres eram maioria; contudo, pouco se sabe sobre o seu cotidiano. Todavia, cinco delas – Feliciana Maria da Conceição, Francisca Maria de Santana, Isabel Maria, Joana Evangelista e Manoela Maria – exerciam atividades importantes junto a uma irmandade ali organizada, o que consistia em novidade para uma época que excluiu as mulheres do exercício de atividades de destaque na sociedade.

As massas excluídas constantemente vagavam de lugar em lugar em busca de colocação, e, na Cidade do Paraíso Terreal, aparentemente encontraram a felicidade. Para aquela cidade convergiram centenas de pessoas que se abrigaram em diversas cabanas cobertas de palhas de catolé. O trabalho no Rodeador era coletivo, e o fruto da labuta agrícola era comercializado nas feiras da redondeza. Pela manhã, grande parte do povo cultivava a terra, e, à noite, rezava em uma pequena capela que abrigava as imagens de Nossa Senhora e do Senhor Bom Jesus. As rezas eram comandadas pelo próprio Silvestre e pelo cunhado Manoel Gomes das Virgens, também desertor, que o secundava em diversos ofícios. Findos os atos religiosos, os homens manejavam armas. Dizia-se que essas hostes um dia se reuniriam com as do Rei Desejado e, em marcha, lutariam contra os exércitos de D. João VI. Os exércitos sebastianistas seriam vitoriosos, quando então se inaugurariam tempos de felicidade com o desencanto de D. Sebastião.

Os habitantes da Cidade do Paraíso Terreal reclamavam das injustiças sociais, da falta de trabalho e da carestia. Esse quadro de penúria cresceu a partir do início dos Oitocentos e se agravou durante as fortes estiagens que se prolongaram ao longo dos anos de 1815 e 1818. Por ocasião desses infortúnios, muitos atravessadores, desejosos de ganhar dinheiro, aumentavam os preços das mercadorias, gerando desespero. Diante do exposto, havia, na capitania, desesperanças generalizadas que desaguaram na Revolução de 1817. A soldadesca há muito se encontrava desesperada com o atraso do soldo e com o recrutamento forçado, tanto que constantemente fugia das casernas. Não foi à toa que grande parte dos homens que viviam no Rodeador era desertora, inclusive o próprio Silvestre e seu cunhado. Para os habitantes daquele sítio, essas desventuras acabariam com a chegada do rei D. Sebastião.

À primeira vista, as primeiras informações sobre o ajuntamento do Rodeador chegaram até o governador Luís do Rego Barreto por intermédio das autoridades bonitenses. Posteriormente, foram infiltrados espiões na comunidade, que se passaram por conversos e colheram importantes informações sobre o cotidiano e o modus vivendi da Cidade do Paraíso Terreal, principalmente sobre o comportamento de seu povo, procedência, sexo, idade, profissão e aspirações. O governador acreditava que ali se maquinava um movimento contrarrevolucionário com o intuito de restaurar a Revolução de 1817.

Diante dessas desconfianças, Barreto ordenou que as autoridades redobrassem sua vigilância sobre o arraial, a fim de conhecer seus objetivos, pensamentos e com quem mantinham diálogos. Mesmo tomando ciência de que o povo arrebanhado naquele local era constituído por gente simples e seguidora do sebastianismo, ele não se convenceu, tanto que preparou exércitos para dissolver a citada comunidade. As estratégias de guerra foram cuidadosamente planejadas, tanto que o governador desejou comandá-las in loco; contudo, desistiu da ideia após tomar conhecimento da notícia da eclosão da Revolução do Porto, trazida pelo paquete inglês Chresterfield, que aportou em Recife no dia 22 de outubro de 1820.

Surpreso com as novidades, Luís do Rego resolveu permanecer em Recife, porque temeu que se organizasse algum movimento em solidariedade àquela revolução. Diante do exposto, delegou ao general Madureira Lobo que o substituísse no comando das tropas que se dirigiram para Bonito, a fim de desmontar a comunidade do Rodeador, que foi invadida em plena madrugada do dia 26 de agosto de 1820. A escolha dessa data não se tratou de obra do acaso, porque tinha-se conhecimento prévio de que, naquele dia, muita gente iria se reunir, atraída pelas histórias do desencantamento de D. Sebastião e pelo aparecimento de Nossa Senhora. Durante o cerco, registrou-se tremenda carnificina. A Cidade do Paraíso Terreal foi incendiada, e os que escaparam do cerco foram presos e remetidos para o Recife para responderem a inquérito; contudo, foram soltos por não se encontrar culpa alguma. A trajetória de vida das mulheres e dos homens do Rodeador abre janelas para que possamos conhecer a história de um Brasil rural e real do tempo de sua independência.

Para saber mais:

CABRAL, Flavio José Gomes. Paraíso Terreal: a Rebelião Sebastianista na Serra do Rodeador. Pernambuco, 1820. São Paulo, Annablume, 2004.

CABRAL, Flavio José Gomes. Sonhar e morrer por Dom Sebastião: História e cotidiano dos trabalhadores pobres e rebeldes do Rodeador (Pernambuco – 1820. In RÜCKERT, Fabiano et al (org.) Histórias da pobreza no Brasil. Rio Grande: Ed da FURG, 2019, p. 11-31. Disponível em: https://ppghistoria.furg.br/images/Cardozo2019_Pobreza.pdf Acesso: 31/01/2026.

HERMANN, Jacqueline. O movimento sebastianista da serra do Rodeador, Pernambuco na primeira metade do século XIX. In: ALMEIDA, Ângela Mendes et all. De sertões e espaços incivilizados. Rio de Janeiro: FAPERJ/MAUAD, 2001.

PALACIOS, Guilhermo. Messianismo e expropriação camponesa: uma nova expedição ao Reino da Pedra encantada do Rodeador. Pernambuco, 1820. Revista de História, v. 147, p. 71-108, 2002.

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Os sertões e suas conexões: comércio e ilegalidade entre Bahia e Pernambuco (1759-1780) https://caminhosdarevolta.com.br/os-sertoes-e-suas-conexoes-comercio-e-ilegalidade-entre-bahia-e-pernambuco-1759-1780/ https://caminhosdarevolta.com.br/os-sertoes-e-suas-conexoes-comercio-e-ilegalidade-entre-bahia-e-pernambuco-1759-1780/#respond Thu, 04 Dec 2025 19:13:30 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=1020 Jéssica Rocha de Sousa
Mestra em história pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

As grandes porções de terra que compunham a Colônia brasileira possuíam ainda no século XVIII, vastas áreas despovoadas e desconhecidas pelo Reino, os chamados “sertões”. O termo foi utilizado durante um bom tempo para designar terrenos que se encontravam fora do eixo litorâneo e que eram ilustres desconhecidas da maior parte dos habitantes da colônia brasileira e de seus ministros reais, sendo utilizado para referenciar tudo aquilo que fosse vago, estranho e afastado dos centros. Além disso, dado o modo como se desenvolveu a ocupação do território brasileiro – fixando-se primeiramente no litoral – e dos desafios impostos pela própria geografia nacional, os sertões eram compreendidos como espaços que não estavam totalmente submetidos administrativa e juridicamente à monarquia portuguesa.

Esse cenário só se modificou de modo definitivo com o descobrimento das minas de ouro nas Gerais. A descoberta foi sucedida de um vertiginoso adensamento populacional nas regiões interioranas, sobretudo entre as primeiras décadas do século XVIII. Dessa forma, foi necessário criar naqueles novos centros, aparatos administrativos e fiscais para regular e garantir os direitos régios sobre os recursos minerais ali encontrados. A ocupação dos territórios que margeavam as minas auríferas foi responsável por conectar uma grande malha espacial por meio de seus circuitos de comércio que movimentaram, principalmente as regiões interioranas das capitanias do Norte, incluindo as paragens sertanejas de Pernambuco e Bahia.

Em Pernambuco, desde fins do século XVII, as margens do Rio de São Francisco se desenvolveram como importante zona de criação de bovinos, sendo a área responsável pela distribuição de carnes e couros para as feiras da Bahia e de Pernambuco. No século XVIII, a região do Aracati, no Siara Grande, destacou-se como porto fornecedor de carnes salgadas e de couros, tornando-se um local muito visitado por comerciantes recifenses e baianos nos “tempos de carnes”, quando iam até a região fazer negócios. Nesse momento, – meados do século XVIII – já era possível penetrar no interior pernambucano seguindo o fluxo do São Francisco e seus afluentes por duas rotas, eram elas: o caminho do “Ipojuca” e o caminho do “Capibaribe”, que tinham no Rio Cariranha – região limítrofe entre as capitanias de Pernambuco, Bahia e Minas Gerais – seu ponto final. Ao longo desses caminhos, existiam diversos portos de pequeno porte por onde circulavam uma sortida gama de gêneros.

Os sertões setecentistas possuíam vitalidade e energia e são descritos nos documentos de época como locais propícios ao desenvolvimento de práticas mercantis. Para o período tratado nesse texto, estas relações assumiram contornos especiais. Afinal de contas, entre 1759 e 1780 o comércio em Pernambuco era monopolizado pela Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba. Paralelamente a um mercado legal e reconhecido, surgiu naqueles espaços uma série de atividades extralegais.

As redes comerciais estabelecidas entre Bahia e Pernambuco no período foram comumente associadas ao comércio clandestino. O contrabando de produtos e pessoas trazidos pelos portos da Bahia para Pernambuco e vice-versa foram uma constante durante o período de existência da Companhia monopolizadora.

A política econômica pombalina e o controle comercial: a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba

Sob influência do iluminismo que se disseminou por toda a Europa ao longo do século XVIII, o Estado português, sob liderança do Marquês de Pombal, desenvolveu um conjunto de reformas políticas e fiscais que buscavam combater o atraso econômico do Reino. Dentro desse contexto, foram postas em ação políticas com o intuito de revitalizar o comércio português.

Na capitania de Pernambuco, importante polo econômico da Conquista, essas ações foram colocadas em prática com a criação de organismos reguladores da economia local, a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba foi um deles. A empresa foi instituída com o propósito de fomentar a agricultura e o comércio na região, garantir o fornecimento de escravizados e transportar mercadorias entre a colônia e o reino. No entanto, a Companhia funcionava sob regime de monopólio, o que significava que apenas ela podia comercializar determinados produtos nas capitanias de Pernambuco e Paraíba.

Apesar das intenções oficiais, a Companhia logo se tornou alvo de críticas. A maior parte de seu capital pertencia a acionistas – homens de negócio – em Lisboa, e suas práticas comerciais, que envolviam venda de produtos por preços abusivos e pagamentos aos produtores por meio de crédito e não em moeda corrente (dinheiro), desagradavam os locais. Além disso, a instalação da empresa acabou por modificar toda uma lógica comercial baseada no livre comércio que já estava bem consolidada em Pernambuco. Diante do descontentamento geral, muitos senhores de engenho e lavradores passaram a buscar alternativas para escoar sua produção, recorrendo ao comércio com a capitania da Bahia, que não possuía uma companhia monopolista.

O Sertão como espaço de comércio extralegal

Fonte: ANDRADE, Manoel Correia de. A terra e o Homem no Nordeste. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas Ltda, 1980. P. 169.

Diante das restrições impostas pela Companhia Geral, os sertões que uniam Pernambuco e Bahia passaram a desempenhar um papel central nas práticas comercias extralegais. A região, caracterizada por vastas áreas repletas de rios navegáveis — sobretudo, o Rio São Francisco e seus afluentes —, serviu de rota para o contrabandode mercadorias entre as capitanias. Embarcações leves, como jangadas e sumacas, circulavam entre os pequenos portos sertanejos transportando toda uma variedade de produtos. Os contraventores, atuavam preferencialmente no período noturno o que dificultava ainda mais a fiscalização dessas transações ilegais por parte das autoridades coloniais, que no geral concentravam-se no porto de Recife.

Esse comércio ilegal não era esporádico ou improvisado: ele estava organizado em verdadeiras redes compostas por senhores de engenho, lavradores, comerciantes, mestres de embarcação e até mesmo comissários especializados nas práticas ilícitas. A documentação histórica revela que autoridades régias e membros da própria Companhia também se envolveram nessas atividades, permitindo a continuidade do contrabando ao longo de todo o período de vigência do monopólio.

Os sertões funcionavam como corredores de transporte alternativos onde circulavam uma grande variedade de produtos: açúcar, tabaco, madeira, couro, tecidos, mercadorias da Europa e da Índia, mel e até escravizados. As transações aconteciam de forma recorrente e bem estruturada. Em 1770, Manoel da Cunha Meneses, governador de Pernambuco a época, relatou ao rei como o sertão Pernambucano era “um dos mais povoados” daquele tempo, afirmando na mesma ocasião que as rotas fluviais nele existente eram amplamente utilizadas para a circulação de mercadorias entre Bahia e Pernambuco. Anos depois, em 1779, o ouvidor da comarca de Alagoas também dirigindo-se a Coroa, afirmava que o açúcar produzido nos engenhos pernambucanos já estava todo vendido a comerciantes baianos que transportavam a mercadoria através dos portos sertanejos durante a noite em pequenas e rápidas embarcações, que saíam daquelas regiões recorrentemente. As alegações contidas nos relatos acima, reforçam a existência de um comércio ilícito consolidado.

Essas atividades contavam com canais de comunicação, logística e distribuição bem definidos. Os produtos contrabandeados chegavam aos mercados de Olinda e Recife a preços mais baixos que os oferecidos pela Companhia, prejudicando seu monopólio e fomentando ainda mais a prática ilegal. Além disso, existia também, uma preocupação no sentido contrário, ou seja, com as mercadorias que saiam de Pernambuco e iam para Bahia sem passar pelas mãos da empresa, ou seja, sem pagar os tributos necessários.

Limitações de atuação da Companhia Geral

Merece destaque nessa discussão, a constatação de que o monopólio da Companhia não se aplicava a região dos sertões, como consta no próprio documento de sua fundação. A inexistência de uma legislação que precisasse até onde se estendia o poder de atuação da Companhia, quais portos eram considerados livres e quais mercadorias poderiam circular livremente sem ferir o privilégio mercantil da empresa, acabou permitindo que esses contrabandos e extravios continuassem a ser praticados de modo sistemático.

Essa falta de precisão geográfica e consequentemente jurisdicional é sintomática do profundo desconhecimento das autoridades reais a respeito dos “sertões” Pernambucanos e Baianos e de sua pulsante mercancia. Como definir limites e fronteiras de um território desconhecido? Se a Coroa portuguesa não estava atenta a importância dessa zona, o mesmo não pode ser dito dos homens de negócio pernambucanos, que anos antes da fundação da Companhia Geral, já haviam solicitado ao rei a criação de uma empresa mercante que explorasse de maneira legal as rotas sertanejas. Isso demonstra que o comércio naquela região era forte e estratégico, mesmo antes das medidas oficiais de controle ganharem força em Pernambuco.

Com a limitação do monopólio as áreas litorâneas e a fiscalização concentrada no porto de Recife, o crescimento da insatisfação local, fizeram com que os sertões se fortalecessem como espaços de resistência econômica. As mercadorias saíam das plantações e chegavam às vilas e cidades que margeavam os extensos canais fluviais que permeavam os sertões, de onde eram escoadas para outras regiões sem passar pelos trâmites oficiais.

Entre 1759 e 1787, o comércio nos sertões entre Bahia e Pernambuco destacou-se como uma importante alternativa frente às restrições impostas pelo monopólio da Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba. A região sertaneja, com seus rios, portos e população ativa, tornou-se palco de uma economia paralela que se organizava por meio de redes complexas, compostas por agentes locais e até autoridades coloniais.

Essa realidade evidencia como, apesar dos esforços da Coroa portuguesa para centralizar e controlar a economia colonial, os atores locais encontraram maneiras de resistir, negociar e manter de certo modo sua autonomia comercial. O sertão, longe de ser um espaço marginal, revela-se como parte essencial da dinâmica econômica e social da época, desafiando o modelo oficial e provando a força das conexões locais dentro do Império português.

Referências

SOUSA, Jéssica Rocha de. Nas rostas dos sertões: comércio interno e contrabando entre as capitanias de Pernambuco e Bahia (1759-1780). Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2018.

Manuscritos

Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) – Avulsos de Pernambuco Cx. 108 D.8371

Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) – Avulsos de Pernambuco Cx. 133, D. 10012

Anexo

Dicionário de Conceitos

  • Sertões

Regiões afastadas do litoral e dos grandes centros urbanos. No período colonial, eram áreas pouco exploradas e de difícil acesso.

  • Direitos Régios

Direitos régios eram os direitos e benefícios pertencentes ao rei, especialmente no que diz respeito à cobrança de impostos, taxas e lucros sobre atividades econômicas nas colônias. No comércio colonial, por exemplo, uma parte do valor das mercadorias vendidas legalmente deveria ser repassada à Coroa portuguesa como forma de arrecadação. Quando um produto era vendido sem pagar os direitos régios, ele era considerado contrabandeado. Ou seja, os direitos régios representavam o que o rei ganhava com o funcionamento da economia colonial.

  • Monopolizado

Quando apenas uma pessoa, empresa ou grupo tem o controle total de uma atividade econômica, sem concorrência. Exemplo: uma companhia que é a única autorizada a vender certos produtos.

  • Extralegais

Ações que não estão dentro da lei, mas que muitas vezes são toleradas. Um exemplo comum era o contrabando de produtos no período colonial.

  • Iluminismo

Movimento do século XVIII que defendia o uso da razão, a liberdade, a educação e o fim dos privilégios injustos. Suas ideias influenciaram várias revoluções.

  • Capital (empresa)

No contexto econômico, o capital de uma empresa é o dinheiro ou os bens investidos para que ela possa funcionar. No caso da Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba, a maior parte do capital vinha de investidores portugueses que moravam em Lisboa. Esses investidores compravam ações da companhia e esperavam lucrar com o comércio de produtos coloniais.

  • Livre Comércio

Prática econômica que defende a liberdade para comprar e vender sem muitas regras do governo, como monopólios ou altos impostos.

  • Sumacas

As sumacas eram embarcações pequenas e rápidas, muito usadas no período colonial para o transporte de mercadorias ao longo da costa e pelos rios. Por serem discretas e fáceis de manobrar, as sumacas eram ideais para o comércio clandestino.

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A última trincheira da Confederação do Equador em Pernambuco https://caminhosdarevolta.com.br/a-ultima-trincheira-da-confederacao-do-equador-em-pernambuco/ https://caminhosdarevolta.com.br/a-ultima-trincheira-da-confederacao-do-equador-em-pernambuco/#respond Thu, 04 Dec 2025 19:04:51 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=995 Samuel Albuquerque
Historiador, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (DHI/UFS) e sócio do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP).

Entre 1817 e 1824, Pernambuco ousou, por duas vezes, levantar a bandeira republicana e desafiar os interesses e o cariz absolutista da Casa de Bragança. A velha capitania pagou caro por seu apego aos ideais federalistas. Além dos mártires que tiveram seu sangue derramado na Revolução Pernambucana de 1817 e na Confederação do Equador, o acuado “Leão do Norte” sentiu na própria carne os golpes do autoritarismo monárquico, vendo amputadas partes importantes do seu território, como as comarcas de Alagoas e do São Francisco.

Não irei, aqui, narrar a história da Independência a partir de Pernambuco, tarefa feita com método e arte por autores da envergadura de Evaldo Cabral de Mello. Nosso fulcro é, sem meias palavras, contribuir para refutar uma tese subjacente em obras como A outra Independência (2004): a de que o federalismo pernambucano, entre 1817 e 1824, não se ramificou para o Centro da província, zona que seria um reduto de reacionários e monarquistas, fossem absolutistas ou constitucionais.

Lastreio minha antítese em documentos coevos à Confederação do Equador. O mais conhecido deles é o Itinerario que fez Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, sahindo de Pernambuco a 16 de setembro de 1824, para a provincia do Ceara Grandei.

Frei Caneca (1779-1825), sabemos, é o mais celebrado mártir da Confederação do Equador. Seu Itinerário, publicado originalmente em 1875, constitui um documento de cunho autobiográfico em que o líder confederado narra seu calvário particular (mas não solitário), desde a queda do Recife, em setembro de 1824, até sua prisão, no Ceará, em fins de novembro daquele ano, e recondução à “sua pátria”. É a narrativa de uma renhida perseguição dos imperiais aos confederados de Pernambuco e da Paraíba que teimavam em resistir e, embrenhando-se pelos sertões, irem se juntar às forças confederadas do Ceará, no que não lograram êxito.

Principiada a infausta marcha em 16 de setembro de 1824, os confederados fizeram pouso no Engenho Poço Compridoii, onde chegaram no dia 20. Desde a passagem por Goianinha (Condado) na manhã de 19 de setembro, o grupo ao qual se integrara frei Caneca (ao final reduzido ao trio Caneca, Francisco de Souza Rangel e João Soares Lisboa) juntou-se à divisão formada pelo que restara das forças confederadas do Recife, de Goiana e da Paraíba. Integrados, portanto, à cúpula da divisão, Caneca, Lisboa e Rangel apearam no Poço Comprido.

Entre os fatos passados naquele engenho, e registrados atentamente por frei Caneca, o primeiro a revelar o lugar de destaque de Garanhuns na Confederação do Equador deu-se no grande conselho de 21 de setembro de 1824, que, entre suas deliberações, decidiu que “se levantasse o acampamento, e se procurasse outra posição vantajosa”. A almejada “posição vantajosa” tinha entre seus fitos facilitar a: “[…] communicação com os liberaes das provincias do Ceará, Rio Grande do Norte, interior da Parahiba, divisão liberal de Garanhuns, e especialmente com o general Filgueiras, afim de se combinarem os planos de ataque sobre o inimigo”.iii

Em outras palavras, conforme o registro legado por frei Caneca, quando o Recife já caíra e as forças confederadas já haviam sido desmanteladas pelos imperiais em Olinda e Goiana, a Divisão Liberal de Garanhuns resistia no Centro da província, representando a última barreira em território pernambucano aos projetos do absolutismo. Era necessário manter ativa a comunicação com ela, era preciso firmar laço entre a dita divisão sertaneja e a nova divisão surgida após os sucessos da repressão na cabeça da província e na Mata Norte.

Adiante, em seu Itinerário, frei Caneca rememora e registra fato anterior às deliberações do grande conselho. No mesmo Poço Comprido, em 20 de setembro de 1824, as autoridades confederadas ali reunidas enviaram circulares aos líderes da Divisão Liberal de Garanhuns. É muitíssimo revelador este registro:

No antecedente dia escreveram-se circulares aos commandantes das forças de Garanhuns o capitão mór Luiz Tenorio de Albuquerque, o capitão Lourenço Bezerra CavalcantiJosé de Albuquerque Cavalcanti e Antônio Cavalcanti d’Albuquerque, assignadas por João Soares Lisboa e pelo presidente temporario da Parahiba; nas quaes se dava conta do estado de Pernambuco, do fim da divisão, e se rogava que as forças dos seus respectivos commandos se conservassem estacionadas em qualquer ponto do interior, não só para defenderem os do partido liberal; mas tambem para hostilisarem o inimigo quanto podessem.iv

Para além de nomear os comandantes da Divisão Liberal de Garanhuns (importantes autoridades da vila, como veremos), os retirados do Recife, da Mata Norte e da Paraíba, através das lideranças surgidas após a debandada de figuras como a do presidente Manuel de Carvalho Pais de Andrade, rogavam que aquela trincheira liberal se mantivesse de pé, não se dispersasse, garantindo refúgio aos federalistas que, atordoados, ainda estivessem dando de pernas do Recife e da Mata Norte.

Seja pela distância do epicentro dos confrontos, o Recife, seja pelas dificuldades de penetração em zona menos conhecida e própria a escaramuças, fato é que, na esteira dos (in)sucessos da Confederação do Equador, Garanhuns representa a última trincheira federalista em território pernambucano, conforme nos confessa ninguém menos que o frei do Amor Divino, em seu triste Itinerário.

E quem eram esses líderes da Divisão Liberal de Garanhuns, citados nominalmente por Caneca? Orlando Cavalcanti, nos três volumes da sua Gente de Pernambuco, publicados entre 1994 e 2000, dá-nos algumas respostas, baseadas em documentos referidos e, muitas vezes, editados na obra.v

A Execução de Frei Caneca, 1924. Óleo sobre tela. Acervo do Museu Murillo La Greca — Recife, Pernambuco, Brasil. <a href=”https://commons.wikimedia.org/wiki/File:A_Execu%C3%A7%C3%A3o_de_Frei_Caneca.jpg”>Murillo La Greca</a>, Public domain, via Wikimedia Commons.

LUIZ TENÓRIO DE ALBUQUERQUE contava cerca de 60 anos e era capitão-mor da Vila de Garanhuns desde a sua instalação em 1813. Tinha ele ao menos 11 filhos legítimos, tidos de sua esposa, dona Rosa Felipa de Santiago. Eram cinco filhos homens e seis mulheres, todos maiores, ao que parece. Os filhos homens, possivelmente, abraçaram as lutas do pai. Entre seus genros, ao menos um combateu ao seu lado: Antônio Cavalcanti de Albuquerque Melo, sargento-mor de Garanhuns, casado com Joana Tenório de Albuquerque. Outros familiares próximos podem ter abraçado as lutas de Luiz Tenório, entre muitos sobrinhos maiores de idade, irmãos e cunhados daquele capitão-mor.

Os três outros comandantes da Divisão Liberal de Garanhuns na Confederação do Equador – Lourenço Bezerra Cavalcanti de Albuquerque, José de Albuquerque Cavalcanti e Antônio Cavalcanti de Albuquerque Melo – são irmãos e, por via paterna, são primos do capitão-mor Luiz Tenório de Albuquerque.

LOURENÇO BEZERRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, o coronel Lourenço Bezerra das Antas, fora diretor do Aldeamento do Ipanema, no distrito de Águas Belas, contava cerca de 44 anos e tinha ao menos dez filhos legítimos e uma filha natural, nascida antes do seu casamento com dona Josefa Florentina de Albuquerque Maranhão, sua prima. Entre os seus filhos, cinco meninos e três meninas eram menores. Dois meninos, todavia, eram maiores e aptos a tomarem parte nas pelejas do pai e parentes confederados. Eram eles: Apolinário Florentino de Albuquerque Maranhão, solteiro e com cerca de 21 anos, e Lourenço Cavalcanti de Albuquerque Maranhão (futuro Barão de Atalaia), solteiro e com cerca de 20 anos.

Senhor de muitas terras e gentes, o coronel Lourenço Bezerra Cavalcanti de Albuquerque era proprietário do Engenho Antas, em Águas Belas, e sobre a serra que dava nome ao seu engenho fizera erguer também o sobranceiro solar onde vivia com sua família: o conhecido casarão do Riacho Fundo. Suas fazendas de gado e algodão se espraiavam serra abaixo, bordejando, sobretudo, o rio Garanhuzinho.

Sobre os dois outros comandantes da Divisão Liberal de Garanhuns, irmãos de Lourenço Bezerra das Antas e primos de Luiz Tenório de Albuquerque, os dados são mais escassos. JOSÉ DE ALBUQUERQUE CAVALCANTI era ao menos três anos mais moço que seu irmão Lourenço e dele sabemos, somente, ter sido coronel-comandante do Ponto do Feijão. De ANTONIO CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE MELO, sargento-mor de Garanhuns, sabemos ser o mais velho entre os três irmãos, contando cerca de 47 anos em 1824. Já mencionamos que Antonio fora casado com uma filha do primo Luiz Tenório de Albuquerque, o capitão-mor de Garanhuns, chamada Joana Tenório de Albuquerque.

O cotejo dos críveis dados constantes nas obras de Alfredo Leite Cavalcanti e Orlando Marques Cavalcanti (críveis porque os autores, quase sempre, indicam e até editam as fontes de onde foram extraídos tais dados) leva-nos a concluir que a família do capitão-mor Luiz Tenório de Albuquerque e seus primos Lourenço, José e Antônio se estabeleceu na região que daria origem ao município da Vila de Santo Antônio de Garanhuns ainda em princípios do século XVIII, adquirindo terras que pertenciam a herdeiros dos primeiros sesmeiros da região. Lá deitaram raízes e firmaram um potentado que ganharia ainda mais vulto sob a Regência e o Segundo Reinado.

Reveladas as identidades dos líderes confederados sertanejos, ressalto a dívida de Garanhuns com frei Caneca, que, nas memórias de sua fuga, não desconheceu e não deixou de registrar os nomes dos patriotas que, após a queda do Recife, resistiam no Centro da província.

Tomando como referência o comportamento da mais proeminente família do município da Vila de Garanhuns, concluo que o Centro da Província de Pernambuco não era o monólito reacionário representado por autores como Evaldo Cabral de Mello. Ao que parece, a região esteve, no máximo, dividida entre morgadistas e carvalhistas, quiçá pendendo mais apara as hostes federalistas. Não é correta, portanto, a conclusão de que “o apoio rural aos movimentos insurrecionais do Recife procedeu invariavelmente da Mata Norte”.i

Em relação ao Centro da Província de Pernambuco, e notadamente ao município da Vila de Garanhuns, estou convencido de que, assim como no poema de Manuel Bandeira, tão apreciado por Cabral de Mello, a clássica historiografia sobre a Confederação do Equador é, sobretudo, aquilo “que poderia ter sido e que não foi”.


Versão resumida de: ALBUQUERQUE, Samuel. O Centro da Província de Pernambuco na Confederação do Equador. In: CÂMARA, Bruno Augusto Dornelas; MOURA, Carlos André Silva de (Orgs.). Confederação do Equador: instituições, ideias e sociedade. Recife: CEPE, 2025. p. 241-277.
Itinerário foi publicado pela primeira vez em 1875, por iniciativa do comendador Antônio Joaquim de Mello, em obra que reúne, além dos escritos políticos, os escritos literários de frei Caneca. Para a transcrição de trechos do documento, farei uso dessa edição, que manteve a grafia original do manuscrito (CANECA, Frei. Itinerario que fez Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, sahindo de Pernambuco a 16 de setembro de 1824, para a provincia do Ceara Grande. In MELLO, Antonio Joaquim de. (Org.). Obras politicas e litterarias de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Tomo I. Recife: Typographia Mercantil, 1875. p. 110-136). A edição mais recente do Itinerário é a de 2024, levada a cabo pela CEPE Editora, do Recife.
Atual Museu Poço Comprido, no distrito de Murupé, em Vicência, Mata Norte de Pernambuco.
CANECA, Frei. Itinerario que fez Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, sahindo de Pernambuco a 16 de setembro de 1824, para a provincia do Ceara Grande. In MELLO, Antonio Joaquim de. (Org.). Obras politicas e litterarias de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Tomo I. Recife: Typographia Mercantil, 1875. p. 115, grifos nossos.
Ibidem, ibidem.
CAVALCANTI, Orlando [Marques]. Gente de Pernambuco. Recife: Editora Universitária da UFPE/Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, 1994 (Nossa terra, nossa gente); _____. Gente de Pernambuco
. V. 2. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2000 (Resgate); _____. Gente de Pernambuco. V. 3. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2000 (Resgate).

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Caminhos dos Matos, Escravidão, Fuga e Eiberdade: a presença de escravizados africanos e mestiços nos sertões de Pernambuco durante o período colonial https://caminhosdarevolta.com.br/caminhos-dos-matos-escravidao-fuga-e-eiberdade-a-presenca-de-escravizados-africanos-e-mesticos-nos-sertoes-de-pernambuco-durante-o-periodo-colonial/ https://caminhosdarevolta.com.br/caminhos-dos-matos-escravidao-fuga-e-eiberdade-a-presenca-de-escravizados-africanos-e-mesticos-nos-sertoes-de-pernambuco-durante-o-periodo-colonial/#respond Thu, 04 Dec 2025 18:36:29 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=989
Alexandre Bittencourt Leite Marques
Doutor em História pela Universidade de Évora. Mestre em História pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Católica de Pernambuco.

Olá! Pronto para realizar uma viagem no tempo? Iremos percorrer um triste momento da nossa história: o período da escravidão no Brasil Colônia, especificamente nos sertões da Capitania de Pernambuco. Durante muito tempo, os estudos históricos praticamente se dedicaram a analisar a escravidão nas áreas do litoral e seu entorno, onde estavam erigidos os principais núcleos urbanos da capitania, como Recife, Olinda e demais vilas açucareiras. Nesse sentido, pouco se pesquisou sobre a escravidão nas áreas mais ao interior, os chamados sertões. Contudo, isso está mudando! Nas últimas décadas, tem crescido o número de estudos sobre a presença de escravizados africanos e mestiços nas regiões interioranas de Pernambuco durante o período colonial e imperial.

Antes de trilharmos os caminhos que adentravam o interior pernambucano, é importante sabermos que a palavra “sertão” (plural “sertões”) possuía significados e usos diferentes dos de hoje. Entre os séculos XVI e XIX, um dos significados, por exemplo, era o de apartado da costa, ou seja, distante do litoral, o interior. Além dessa conotação, existiam outras para a referida palavra: espaço bárbaro, selvagem, inculto. Porém, essa história fica para outro dia, pois agora é o momento de entendermos um pouco sobre a presença de escravizados africanos e mestiços nesses lugares distantes da costa de Pernambuco.

De grandes distâncias, desfiladeiros, densos, retorcidos e espinhosos matos, e com falta de água em determinadas épocas, os caminhos pelo interior de Pernambuco eram longos, difíceis e perigosos. Sem dúvida, a travessia por esses espaços não deveria ter sido fácil para os escravizados recém-chegados a esses sertões. Porém, é bem verdade que, com o passar do tempo, essas pessoas acabavam por adquirir afinidade com esses lugares. Como veremos mais adiante, alguns empreenderam fugas em busca de sua liberdade. Fugidos para os matos, passaram a fazer uso desse ambiente para se esconder e sobreviver. Nesse sentido, muitas vezes, era nos matos que havia os caminhos para a fuga e a liberdade.

Tudo começou com a organização do tráfico atlântico de escravos na África a partir do século XVI. De acordo com o historiador Luiz Felipe de Alencastro (2018), basicamente os africanos transportados ao Brasil vieram de duas áreas principais: uma formada pela Baía de Benim e pelo Golfo de Biafra, na África Ocidental, e a outra localizada na África Centro-Ocidental, sobretudo em Angola. Ainda segundo Alencastro (2018), do século XVI até 1850, o Brasil foi o maior importador de escravos africanos das Américas. Estima-se que mais de 4 milhões de escravos africanos deram entrada no Brasil ao longo desse período. Em relação especificamente à ida de escravos africanos para Pernambuco, segundo as historiadoras Suely Almeida e Jéssica de Souza (2013), os cativos partiam da Costa da Mina, na África Ocidental, assim como de Angola, na África Centro-Ocidental. Contudo, em meados do século XVIII, houve um aumento significativo de escravos provenientes de Angola e uma redução considerável de escravos emanados da Costa da Mina.

Capturados nos sertões da África, os escravizados eram conduzidos até o litoral daquele continente. Essa travessia terrestre era cansativa, tortuosa, violenta e perigosa para esses cativos. Uma vez chegados dos sertões africanos à costa marítima, os escravizados eram embarcados em navios, também chamados de tumbeiros, em uma perigosa e mortífera travessia oceânica em direção à América portuguesa. O militar cronista Elias Alexandre da Silva Corrêa, que viveu em Angola na segunda metade do século XVIII, afirmou que havia três portos no Brasil que mais importavam esses escravos procedentes da África Centro-Ocidental: os do Rio de Janeiro, da Bahia e de Pernambuco. Ainda segundo o cronista, desembarcados nesses três lugares, essas pessoas cativas se espalhavam para os diversos sertões e demais capitanias da América portuguesa.

Em relação a Pernambuco, desembarcada nos portos da costa, a maior parte da escravatura acabava sendo utilizada nas propriedades agrícolas de plantação de cana e fabrico de açúcar, como também em diversos afazeres nos principais núcleos urbanos da capitania, tanto um quanto outro situados nas áreas litorâneas e no entorno. No entanto, a partir do século XVIII, cada vez mais escravizados passaram a ser conduzidos para os sertões, devido à consolidação do processo de conquista e ocupação do interior do território, que proporcionou um aumento de propriedades rurais, assim como de povoados e vilas. Nesses casos, para muitos escravizados, além da travessia transatlântica, havia uma viagem complementar em direção ao interior de Pernambuco, que se caracterizava como uma continuação das rotas dos escravos saídos de Angola e outras regiões da África.

Nos sertões de Pernambuco, enquanto alguns escravizados eram introduzidos para realizar trabalhos rurais e domésticos, outros eram conduzidos através dessas veredas para trabalhar nas minas mais distantes do interior do Brasil. Infelizmente, ainda são escassas as informações detalhadas sobre o trânsito dessas pessoas nos sertões pernambucanos. Porém, ainda assim, alguns vestígios de informações foram encontrados nos manuscritos do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU).

Por exemplo, em meados do século XVIII, as autoridades da capitania e da Coroa portuguesa tinham preocupação com o abastecimento de escravos nos sertões. Havia o risco de muitos escravos serem deslocados dos afazeres agrícolas para o trabalho nas minas, causando, assim, prejuízo para o comércio de gêneros agrícolas e o abastecimento de alimentos. Por outro lado, havia casos de condutores que deveriam levar os escravizados até as distantes minas do interior do Brasil, mas não completavam seu trajeto, pois, no meio do caminho, iam vendendo aquelas pessoas para serem utilizadas em outros trabalhos, que não o da mineração. Em consequência dessa instabilidade, na tentativa de melhor equilibrar a entrada e fixação de escravizados nos sertões, as autoridades de Pernambuco e da Coroa portuguesa procuravam instituir medidas de controle. O uso de passaportes por escravos era uma delas. (AHU_ACL_CU_015, cx. 82, D. 6880).

Os escravizados que vieram da África exerceram influência cultural nos lugares para onde foram destinados. Acostumados a trabalhar nas minas, na criação de gado, na plantação de mandioca e milho nos antigos territórios que habitavam no continente africano, muitas vezes os escravos angolas eram adquiridos por senhores dos sertões de Pernambuco e adjacências. Uma vez ali inseridos, aplicavam diversas práticas e costumes vindos da África Centro-Ocidental, bem como se miscigenavam biológica e culturalmente com a população local, composta por luso-brasileiros, grupos indígenas e escravizados de outras partes da África. Consequentemente, a miscigenação de angolas com brancos, angolas com indígenas, angolas com angolas, angolas com outros africanos gerou toda uma leva de mulatos, pardos, cabras e crioulos.

Os escravizados africanos que adentravam os sertões de Pernambuco deveriam sentir um misto de estranheza e semelhança em relação aos espaços por onde passavam. Pernambuco e Angola estão na mesma latitude e têm praticamente o mesmo clima, que varia entre quente e úmido, e quente e seco, a depender da região. Apesar desses fatores propiciarem um ambiente, de certa forma, semelhante entre os dois territórios, há também grandes diferenças na formação do relevo, da flora e da fauna.

Porém, gradativamente, uma vez conhecida a região, alguns desses cativos adaptavam-se aos relevos e à vegetação. Isso para não falar nos descendentes dessas pessoas (crioulos ou mestiços), que já nasciam imersos nos sertões de Pernambuco e, desde cedo, passavam a se aventurar pelos matos que circundavam as vilas, povoados e propriedades rurais. Aliás, é importante frisar: os matos eram o grande aliado das fugas empreendidas por escravos, tanto em Pernambuco quanto em Angola. Não tardaria muito para os escravos africanos e seus descendentes compreenderem que aqueles matos, tão semelhantes e ao mesmo tempo diferentes de sua terra natal, eram também seus aliados mais seguros contra a escravização por parte dos colonizadores.

Da mesma maneira que em Angola, em Pernambuco e em outras partes do Brasil, os escravizados também procuravam resistir às condições penosas do cativeiro. Em busca da liberdade e do fim dos maus-tratos, muitos deles empreenderam fugas para os matos, alguns chegando a formar quilombos. Existiram diversos quilombos espalhados pelo Brasil, dentre eles o de Palmares. Muito se fala nas terras dos Palmares, que ficavam na parte leste e ao sul da Capitania de Pernambuco, ou seja, mais próximas da costa. Porém, pouco se aborda a respeito de seus limites mais a oeste, que chegavam a adentrar parte das caatingas, dos sertões secos, semiáridos e espinhosos, no que hoje é a atual região chamada de Agreste pernambucano. Ainda assim, em documentos dos séculos XVII e XVIII, é possível perceber que a vegetação da caatinga dos sertões de Ararobá e Garanhuns, ou seja, nas terras mais ao oeste, foi usada pelos negros para fuga e esconderijo, anos após a destruição de Palmares.

Contudo, é importante salientar que as matas dos sertões mais ao interior de Pernambuco não abrigavam somente remanescentes de negros fugidos do antigo quilombo dos Palmares ou seus descendentes. Conforme pode ser visto na documentação da época (como inventários e testamentos), diversos sítios, fazendas, povoados e vilas existentes nos sertões possuíam dezenas ou centenas de trabalhadores africanos e mestiços escravizados. Portanto, nesses locais, não seria difícil imaginar que alguns desses cativos conseguissem fugir e se embrenhar pela caatinga à procura de abrigo. Esses escravizados fugidos viam nos lugares mais afastados a oportunidade de se esconder de seus proprietários e das autoridades locais. Alguns desses fugitivos possivelmente formaram pequenos quilombos nas caatingas ásperas; já outros empreenderam as fugas com o intuito de tentar negociar melhores condições com seus donos ou com outros senhores.

Desde o Rio São Francisco até o Maranhão, passando por Pernambuco, as fugas de escravizados nas vastidões territoriais eram constantes. Nos anos de 1750, a existência de um Juízo dos Ausentes tinha, dentre suas finalidades, a de devolver ou arrematar escravizados fugidos. Os senhores que mandassem resgatar seus cativos fugitivos, recolhidos pelo Juízo, deveriam pagar todas as despesas feitas pelo dito órgão. (AHU_ACL_CU_015, cx. 84, D. 6978). Exemplos de registros de fugas de escravizados podem ser encontrados em alguns dos inventários e testamentos dos moradores dos sertões de Pernambuco. No ano de 1785, na Fazenda das Almas, julgado do Pajeú, o crioulo Luiz foi descrito como “acostumado a fugir”. (IAHGP. Fundo Orlando Cavalcanti, cx. 71. Inventário de Alexandre da Silva de Carvalho, 1785). Já no ano de 1788, o mulato João havia fugido de seu senhor, um português chamado Luiz Ferreira Maciel, proprietário da Fazenda da Barra e da Alagoa, ribeira do Pajeú, tendo sido encontrado em outra propriedade, em casa e poder de um capitão chamado Aleixo Feliz de Andrade, morador em seu engenho junto de Limoeiro. (MJPE. BR PEMJ FLOR, cx. 961. Testamento Comendador Luiz Ferreira Maciel, 1788).

Apesar da diversidade de escravizados nos sertões de Pernambuco (angolas, crioulos, pardos, mulatos, cabras, entre outros), todos tinham em comum o fato de estarem na mesma condição de cativos. É bem verdade que alguns conseguiram sua liberdade, seja por meio da resistência, empreendendo fugas, seja por alforria negociada com seus senhores. Infelizmente, a maioria deles morreu escravizada e silenciada no cativeiro. Porém, nem toda desumanização é capaz de silenciar por completo suas histórias, suas individualidades. Nos próprios documentos da sociedade escravista aparecem vestígios sobre esses indivíduos: eram os Luizes, as Marias, os Joãos e tantos outros, com seus nomes, idades, condições e qualidades. Essas pessoas não devem ser consideradas meros números, mas indivíduos de diversas origens, que tinham identidade, que sofriam com doenças, casavam-se, tinham filhos, empreendiam luta, fuga e resistência e, por vezes, adquiriam a liberdade.

Comarca do Rio de São Francisco da Provincia de Pernambuco [Material Cartográfico] / Archivo Militar, Gama. In
BIBLIOTECA NACIONAL (Brasil). Catálogo da exposição de história do Brasil. Anais da Biblioteca Nacional. Volume IX, Rio de Janeiro, 1882. V.1. P. 226, Ref.2.257. Disponível em http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart524404/cart524404.html.

Sendo assim, como vimos, definitivamente havia presença de africanos e mestiços no interior de Pernambuco ao longo do período colonial, seja de grupos oriundos do antigo quilombo dos Palmares, seja de pessoas escravizadas que foram deslocadas para lá para trabalharem nos sítios, fazendas, povoados e vilas dos sertões. Antes de encerrarmos nossa viagem no tempo, vale salientar que vestígios da presença marcante dessas pessoas são percebidos até os dias de hoje, na medida em que existem, por exemplo, comunidades quilombolas no interior de Pernambuco, localizadas em áreas de diversos municípios como, por exemplo, Alagoinha, Caruaru, Garanhuns, Panelas, Pesqueira, Custódia, Flores, Salgueiro, Petrolina, entre tantos outros. A configuração territorial de muitos desses municípios se originaram a partir dos sítios e outras propriedades que, no passado, fizeram uso do trabalho escravo.

FONTES

Manuscritos avulsos do Fundo do Conselho Ultramarino da Série Pernambuco, localizados no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU).

Inventários post-mortem e testamentos localizados no Instituto Arqueológico Histórico Geográfico de Pernambuco (IAHGP) e no Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE).

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Suely Cordeiro de; SOUZA, Jéssica Rocha de. O comércio de almas: as rotas entre Pernambuco e a costa da África, 1774-1787. Revista Ultramares Dossiê, n. 3, jan./jul., 2013. p. 39.

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. África, números do tráfico atlântico. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz; GOMES, Flávio (Org.). Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. pp. 57-63.

CORRÊA, Elias Alexandre da Silva. História de Angola. Lisboa: Editorial Ática, 1937. Colecção dos Clássicos da Expansão Portuguesa. Série E, Império Africano).

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

CARVALHO, Marcus; FRANÇA, Anna Laura Teixeira de. Palmares, a cabanada, a “gente das matas”. In: GOMES, Flávio (Org.). Mocambos de Palmares: histórias e fontes, séc. XVI XIX. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2010. p. 131-148.

CEZAR, Iasmim de Oliveira. A caminho dos sertões: o tráfico interno movimentando o interior baiano, 1778-1798. 2016. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História) − Departamento de Ciências Humanas, Campus-Jacobina, Universidade do Estado da Bahia, Jacobina, 2016.

DE CARLI, Caetano. O escravismo e o sertão de Pernambuco. Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, Recife, n. 68, p. 77-122, 2015.

FERREIRA, Roquinaldo. África durante o comércio negreiro. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz; GOMES, Flávio (Org.). Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

GOMES, Flávio (Org.). Mocambos de Palmares: histórias e fontes, séc. XVI XIX. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2010. p. 7-20.

LARA, S. H. O território de Palmares: representações cartográficas e dimensões territoriais. Afro-Ásia, Salvador, n. 64, p. 12–50, 2021. DOI: 10.9771/aa.v0i64.43622. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/43622. Acesso em: 15 jul. 2024.

LIENHARD, Martin. O mar e mato: histórias da escravidão. Luanda: Kilombelombe, 2005.

MARQUES, Alexandre Bittencourt Leite. No “coração das terras”: os sertões da capitania de Pernambuco e do reino de Angola: representações, conexões e trânsitos culturais no império português (1750-1808). Évora, Tese (Doutorado), Universidade de Évora, 2019. Disponível em: https://dspace.uevora.pt/rdpc/handle/10174/25748. Acesso em: 14/07/2024.

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VERSIANI, Flávio Rabelo; VERGOLINO, José Raimundo Oliveira. Posse de escravos e estrutura da riqueza no agreste e sertão de Pernambuco, 1777-1887. Estudos Econômicos, São Paulo, v. 33, n. 2, p. 353-393, abr./jun. 2003.

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Lugares de Memórias da Escravidão e da Liberdade no Sertão de Pernambuco https://caminhosdarevolta.com.br/lugares-de-memorias-da-escravidao-e-da-liberdade-no-sertao-de-pernambuco/ https://caminhosdarevolta.com.br/lugares-de-memorias-da-escravidao-e-da-liberdade-no-sertao-de-pernambuco/#respond Mon, 01 Dec 2025 15:01:03 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=979 Por que lembrar? Em um tempo em que a história parece se acelerar e o passado é frequentemente apagado pela modernidade voraz, voltar o olhar para o chão que pisamos não é apenas um ato de nostalgia, mas um ato político de resistência.

Quando o historiador Pierre Nora cunhou o termo “Lugares de Memória”, ele nos alertou que a memória viva, aquela transmitida organicamente de geração em geração, estava desaparecendo, dando lugar a uma “história reconstruída”. No entanto, ao adentrarmos o interior de Pernambuco e o Sertão do São Francisco, descobrimos que a memória da escravidão e, sobretudo, da resistência negra, não é apenas um monumento de pedra ou um arquivo empoeirado. Ela pulsa. Ela é território, reza e corpo.

Neste texto, vamos mapear e discutir esses lugares sagrados e de luta. Mas, diferentemente da visão clássica que busca a memória em estátuas oficiais, nós a buscamos onde ela foi forçada a se esconder e onde ela escolheu resistir: nas comunidades quilombolas que compraram sua própria liberdade e nos terreiros que preservam a África no coração da caatinga.

O Tempo da Escravidão Não Passou

Dialogando com a pensadora Saidiya Hartman, entendemos que o “tempo da escravidão” não é um capítulo encerrado nos livros de história. As rupturas causadas pelo tráfico transatlântico e a “vida póstuma da escravidão” ainda ecoam nas desigualdades do presente. Contudo, como Hartman nos lembra, a dor da perda também gerou uma capacidade criativa de reinventar a vida.

No Sertão, essa reinvenção se manifesta de formas surpreendentes:

  1. A Terra como Lugar de Memória: Como revelado na obra Sertão Quilombola, os quilombos desta região não são apenas refúgios de fuga. São territórios conquistados através da compra de terras, de alianças estratégicas com povos indígenas e de uma relação profunda com o ambiente, criando os “Quilombos-Lugar”, “Quilombos-Árvore” e “Quilombos-Bicho”. Aqui, a memória está na escritura da terra comprada do antigo senhor e na árvore sagrada que demarca o território.
  2. O Terreiro como Arquivo Vivo: Na Cartografia Social dos Terreiros, vemos que em cidades como Petrolina e Juazeiro (Bahia), a memória ancestral não se perdeu; ela se metamorfoseou. Os terreiros de Candomblé e Umbanda funcionam como guardiões de uma filosofia ecológica e comunitária. Eles são lugares de memória onde o corpo dança a história que a boca muitas vezes foi proibida de contar.

Se a teoria de Pierre Nora nos alerta para a fragilidade da memória e Saidiya Hartman nos aponta a continuidade do tempo da escravidão, os dados do Censo 2022 materializam esses conceitos em vidas reais. Aquela ‘memória que pulsa’, descrita anteriormente, tem agora um rosto e um número: são quase 80 mil pernambucanos que, ao se autodeclararem quilombolas, transformam a estatística em um ato político de afirmação identitária. Não estamos falando apenas de ruínas ou documentos antigos, mas da 5ª maior população quilombola do país, que resiste exatamente naqueles territórios do Sertão onde a liberdade foi historicamente negociada e conquistada.

Censo 2022: Pernambuco é o 5º Estado com Maior População Quilombola do Brasil

O Censo Demográfico de 2022 trouxe um marco histórico para a visibilidade das comunidades tradicionais no Brasil: pela primeira vez, o IBGE investigou especificamente o pertencimento étnico quilombola. Os dados revelam que Pernambuco ocupa a 5ª posição no ranking nacional, consolidando-se como um dos maiores territórios de resistência e identidade quilombola do país.

Aqui estão os principais destaques desse levantamento inédito:

A Força dos Números: Quase 80 Mil Quilombolas

Em Pernambuco, 78.827 pessoas se autodeclararam quilombolas. Esse número coloca o estado atrás apenas da Bahia (líder absoluta), Maranhão, Minas Gerais e Pará.

Essa contagem oficial é fundamental, pois tira essas populações da invisibilidade estatística e fornece a base necessária para a criação de políticas públicas de saúde, educação e regularização fundiária.

Onde Estão os Quilombolas em Pernambuco?

A presença quilombola é capilarizada: 113 dos 184 municípios pernambucanos (cerca de 61,4%) registraram a presença de ao menos uma pessoa autodeclarada quilombola. No entanto, algumas cidades se destacam como grandes redutos dessa ancestralidade, especialmente no Sertão e no Agreste.

Cidades com maior população absoluta (número total de pessoas):

  1. Custódia: 7.744 pessoas
  2. Bom Conselho: 6.473 pessoas
  3. Garanhuns: 5.938 pessoas
  4. Santa Maria da Boa Vista: 3.622 pessoas
  5. Mirandiba: 3.363 pessoas

A Densidade da Identidade: Mirandiba em Destaque

Quando olhamos para a proporção (a porcentagem da população da cidade que é quilombola), o cenário muda e revela onde a identidade é mais concentrada em relação ao total de habitantes:

  • Mirandiba: Lidera o ranking proporcional, com 23,74% de sua população total se declarando quilombola.
  • Betânia: 21,8%.
  • Custódia: 20,54%.
  • Brejão: 17,51%.
  • Itacuruba: 16,6%.

Raízes de Pedra e Rio: A Formação e Resistência dos Quilombos no Sertão

Para entender a força dessa identidade que hoje se afirma nas estatísticas, precisamos voltar ao chão batido da caatinga e ouvir as histórias de fundação que desafiam o senso comum, especialmente porque nem todo quilombo nasceu da fuga. No Sertão, a resistência assumiu múltiplas formas: nasceu de migrações pós-Canudos, da organização de negros libertos e de profundas alianças com povos indígenas. Essas comunidades não são apenas refúgios do passado; são territórios vivos, batizados com nomes de animais, árvores e gente — como os ‘Quilombos-Árvore’ (Gameleira, Jatobá) ou ‘Quilombos-Gente’ (Conceição das Crioulas, Negros de Gilú) — que revelam uma relação íntima e sagrada com o lugar.

Quando pensamos em quilombos, a imaginação nos leva quase que imediatamente à Serra da Barriga e ao grande Quilombo de Palmares: um refúgio de guerreiros em matas densas, isolados do sistema escravocrata. No entanto, ao voltarmos o olhar para a Caatinga e para as margens do Rio São Francisco, descobrimos uma história diferente.

A formação quilombola no Sertão de Pernambuco e na Bahia é mais complexa, surpreendente e, muitas vezes, contraintuitiva. Não se trata apenas de fuga, mas de negociação, compra de terras e alianças interétnicas. O estudo Sertão Quilombola revelou como essas comunidades não apenas ocuparam o espaço, mas criaram uma “territorialidade” única, moldando suas identidades entre a seca e o rio.

Muito Além da Fuga: As Múltiplas Origens

Embora os quilombos mais antigos tenham, sim, nascido da fuga da escravidão, a dinâmica mudou drasticamente no final do século XIX. As comunidades formadas a partir desse período são fruto de três movimentos principais:

  • Migrações Internas: Comunidades quilombolas já estabelecidas que se deslocaram em busca de melhores terras ou segurança.
  • Negros “Libertos”: Trabalhadores que deixaram fazendas de regime (semi)escravo para fundar seus próprios roçados.
  • A Diáspora de Canudos: A dispersão populacional após o fim da Guerra de Canudos (1897) levou grupos a migrarem para as margens do São Francisco, fundando novas comunidades baseadas na resistência e na fé.

O Fator Pluriétnico: O isolamento geográfico do Sertão favoreceu uma mistura única. Esses novos grupos não eram exclusivamente negros; eram frequentemente uma “configuração pluriétnica” que acolhia negros, brancos pobres e, fundamentalmente, indígenas.

A Terra Comprada: A Revolução Econômica Silenciosa

Uma das revelações mais fascinantes sobre o Sertão é que a liberdade, muitas vezes, não foi tomada pela força das armas, mas pela força do trabalho. Em uma realidade de resistência econômica monumental, diversos quilombos surgiram em territórios comprados — às vezes das mãos dos próprios ex-senhores — e registrados em cartório.

  • O Caso de Araçá e Buenos Aires: Homens como Seu Severino da Berruga (Buenos Aires) e João Balbino (Araçá) não esperaram por doações. Trabalharam arduamente para acumular capital e comprar suas terras, garantindo a posse legal para suas famílias.
  • O Sacrifício do Feijão: No quilombo do Feijão, a história conta que Jiboião precisou se desfazer de toda a sua criação de animais e vender inúmeros sacos de feijão para conseguir pagar por seus 42 hectares de terra.

A gente trabalha nessa terra há muitos anos. Já vem de 100 anos, meu avô morreu com a idade de 100 anos, eu acho que nós já pagamos essa terra! Já tá mais do que paga, a gente desde criança trabalhando nessa terra!” (Relato em Sertão Quilombola).

A Geografia da Identidade: O Nome é o Lugar

A conexão com o bioma Caatinga é tão profunda que ela define o “batismo” das comunidades. Os nomes não são aleatórios; eles refletem o que o estudo chama de territorialidade — o vínculo afetivo e prático com os recursos naturais que garantiram a sobrevivência do grupo.

  • Quilombos-Lugar (A Geografia): Brejo de Dentro, Serra do Talhado, Riacho do Meio.
  • Quilombos-Árvore (A Flora): Gameleira, Juazeiro Grande, Ingazeira, Jatobá.
  • Quilombos-Bicho (A Fauna): Abelha, Leitão, Gia, Poço dos Cavalos, Cachoeira da Onça.
  • Quilombos-Gente (A Ancestralidade): Conceição das Crioulas, Negros de Gilú.

Essa taxonomia revela que o território não era apenas um chão para morar, mas um espaço sagrado de caça, coleta, cura e refúgio.

Sede da AQCC. Fonte: acervo do INCRA. In: CARVALHO, Maria Letícia de Alvarenga. Quilombo de Conceição das Crioulas. Belo Horizonte: FAFICH, 2016, p. 11.

Mapeando a Resistência: Onde Estão?

MunicípioComunidades Quilombolas
SalgueiroConceição das Crioulas
MirandibaJuazeiro Grande, Araçá
CustódiaRiacho do Meio, Cachoeira da Onça, Serra da Torre, Buenos Aires
CarnaíbaBrejo de Dentro, Gameleira, Abelha
ItacurubaIngazeira, Poço dos Cavalos, Negros de Gilú
QuixabaGia
Afogados da IngazeiraLeitão (Leitão da Carapuça)
Santa TerezinhaSerra do Talhado

4. Alianças de Sangue: Negros e Indígenas

No Vale do São Francisco, a fuga das fazendas (como as de Floresta) não levou ao isolamento total, mas ao encontro. As rotas de fuga dos negros cruzavam territórios indígenas, gerando o que os historiadores chamam de “redes de sociabilidade intercomunitária”.

O acolhimento de negros em aldeias indígenas (temporário ou permanente) criou laços de parentesco indissolúveis. Essa fusão é visível hoje nos rituais, na medicina das rezadeiras e na própria fisionomia das populações sertanejas. A resistência à opressão colonial no Brasil foi, e continua sendo, uma luta interétnica.

O Progresso que Afoga a Memória

A água — elemento vital no semiárido — tornou-se um agente de apagamento da memória negra e indígena no século XX e XXI. Grandes projetos hídricos trouxeram o “desenvolvimento”, mas cobraram um preço alto das comunidades tradicionais.

  • Negros de Gilú (A Cidade como Exílio): Esta comunidade viveu o trauma do deslocamento compulsório pela CHESF para a construção da Hidrelétrica de Luiz Gonzaga. A inundação da velha Itacuruba forçou a comunidade a migrar para a periferia urbana (bairro Caixa D’água), rompendo o vínculo com a terra e o rio. Como lamentam os mais velhos: “perder a identidade é perder as brincadeiras, os rituais”.
  • Carvalho (O Risco da Transposição): Em Custódia, a comunidade de Carvalho viu sua igreja secular, construída pelas mãos de seus antepassados ex-escravizados, ameaçada de demolição pelas obras da Transposição do Rio São Francisco.

Filhos de Canudos: O Caso de Barrinha da Conceição

Um exemplo fascinante dessa resistência móvel é a comunidade de Barrinha da Conceição, em Juazeiro (BA). Sua origem não remonta à fuga de uma senzala colonial, mas à fuga da Guerra de Canudos (1896-1897).

Seus antepassados, sobreviventes do massacre de Belo Monte, migraram trazendo consigo a imagem de Nossa Senhora da Conceição e a tradição do “Samba de Veio”. Hoje, enquanto lutam por saneamento básico e educação, eles provam que a identidade quilombola é dinâmica: ela se refaz na luta diária pela cidadania, mantendo viva a memória de que seus avós não aceitaram a opressão da República Velha.

Uma História de Luta do Povo Negro: Vida, Fé e Memória nos Terreiros do Sertão

Se nos quilombos a resistência se deu historicamente através da conquista da terra e da produção agrícola, existe outro espaço no Sertão onde a memória africana não apenas sobreviveu, mas floresceu com uma força impressionante: os terreiros de Candomblé e Umbanda. Enquanto as comunidades quilombolas garantiam o sustento do corpo, os terreiros preservaram a “tecnologia” ancestral de cura e conexão com a natureza.

O estudo de Cartografia Social dos Terreiros, realizado por volta de 2015, revelou uma realidade que desafiava o senso comum. Longe da invisibilidade ou da presença discreta imaginada pela história oficial, pesquisadores mapearam uma rede vibrante e densa: quase cinco centenas de casas de culto espalhadas entre Petrolina (PE) e Juazeiro (BA).

Ao adentrarmos nesses territórios sagrados através dos registros dessa pesquisa, encontramos um caldeirão de resistência, onde a fé era definida como uma “religião ecológica” e a luta contra o preconceito se fazia no toque do tambor.

A “Pele” do Orixá e a Ecologia do Sagrado

A densidade religiosa identificada na época, liderada por figuras como Pai Gildo, Pai Jorge e Mãe Socorro, demonstrava que a fé de matriz africana era um pilar fundamental da organização social da região. Mais do que locais de culto, os terreiros funcionavam como guardiões de uma filosofia intrinsecamente ecológica.

Para essas comunidades, os Orixás são energias que atuam nas forças naturais – tempestades, rios, sol, plantas e metais. A máxima recorrente kosí ewe, kosí òrìsà (“sem folha não há orixá”) sintetizava essa relação onde a pessoa não apenas se sentia parte da natureza, mas entendia que “ela é a natureza”.

Essa sabedoria era transmitida através do que o Ogan Ricardo Nery definiu como uma “educação de pele”. O conhecimento não estava apenas nos livros, mas na vivência oral e corporal: aprendia-se olhando os rituais, escutando os mais velhos e vestindo a religião. A entrada nos cargos e funções, muitas vezes, era compreendida não como uma escolha pessoal, mas como uma designação ancestral.

A “Mãe África”: Metáfora e Identidade

Nos discursos recolhidos pela pesquisa, a figura da “Mãe África” aparecia como uma metáfora mítica necessária. Embora os entrevistados reconhecessem que o Candomblé “puro” pertencia ao continente africano, a idealização de uma “África ancestral” funcionava como uma estratégia política e discursiva para conferir legitimidade ao Candomblé, diferenciando-o da Umbanda.

Nesse contexto, a Umbanda era caracterizada como a “verdadeira religião brasileira” devido ao seu sincretismo de elementos africanos, indígenas e cristãos, enquanto o Candomblé se posicionava como guardião de uma proximidade maior com as raízes negras. Contudo, a prática sertaneja mostrava que tais fronteiras eram fluidas: inúmeros terreiros operavam com práticas “cruzadas”, transitando entre as nações e as linhas de caboclo.

Essa fluidez foi personificada em lideranças registradas na época:

  • Pai Gildo: Considerado então o Babalorixá mais antigo da região, transitava entre as vertentes, ensinando que “o importante é zelar pelos orixás”, independentemente do rótulo.
  • Mãe Maria de Tempo: Liderança da Nação Angola em Juazeiro, cujos relatos ajudaram a compreender como a realidade sertaneja forjou o “Candomblé de Caboclo”, uma fusão que honrava tanto a ancestralidade africana quanto a indígena local.

Conflitos e a “Ecologia de Sangue”

A pesquisa também documentou as tensões enfrentadas por essas comunidades, especialmente no que tange ao sacrifício animal, ou imolação. Para os povos de terreiro, essa prática não era crueldade, mas uma “Ecologia de Sangue”. O sangue (ou axé) era visto como veículo de energia vital circulando entre seres, divindades e terra.

Um caso emblemático registrado foi o de Mãe Renilda, em 2012. Seu terreiro, a Tenda de Umbanda Estrela da Guia, em Petrolina, sofreu uma invasão da Vigilância Sanitária que tratou o espaço sagrado como um “abatedouro clandestino”. O episódio evidenciou o racismo institucional e desencadeou uma batalha jurídica pelo reconhecimento de que a visão de mundo africana sobre a natureza e a vida é válida e deve ser protegida constitucionalmente.

As Rezadeiras: A Medicina da Fé nas Margens

Nas franjas dos terreiros e das igrejas, a cartografia também identificou a presença fundamental de rezadeiras e rezadores. Eles atuavam como guardiões de um saber medicinal que a ciência oficial muitas vezes ignorava, utilizando plantas da caatinga e orações.

Figuras como Seu Zé do Vira Beijú (entrevistado aos 84 anos) e Dona Maria dos Santos exemplificavam a sobrevivência desses métodos. Seja curando “espinhela caída” com pinhão-roxo ou retirando “quebranto” com galhos de mussambé, essas práticas misturavam fé católica e pajelança indígena, provando que a cura no Sertão sempre foi plural.

Considerações Finais: Caminhos da Revolta e a Memória Viva do Sertão

O site Caminhos da Revolta nasceu com a missão de trazer luzes sobre as histórias de resistência que moldaram a identidade do Sertão de Pernambuco, muitas vezes silenciadas ou simplificadas pela historiografia tradicional. Ao percorrermos as trilhas dos Quilombos e Terreiros, desde a compra da terra no século XIX até a luta contra o racismo institucional no século XXI, confirmamos que a memória não é um arquivo estático, mas uma força viva e transformadora.

Os registros aqui reunidos, fixados no tempo pelas pesquisas de Sertão Quilombola e da Cartografia Social dos Povos de Terreiro de Petrolina e Juazeiro, servem hoje como prova documental de uma resistência histórica. Eles revelam que o Sertão de Pernambuco, como também o da Bahia, nunca foi um vazio espiritual ou cultural. Pelo contrário, foi e continua sendo um palco onde a memória africana e indígena se reinventou para sobreviver à seca, à escravidão e ao esquecimento.

Seja na luta pela terra nos quilombos de Araçá e Conceição das Crioulas, seja na defesa do sagrado nos terreiros de Juazeiro e Petrolina, a história desse povo confirma que a memória cura, educa e, acima de tudo, resiste. Estes são os verdadeiros caminhos da revolta: trilhas que nos levam do passado traumático ao presente de luta, provando que, enquanto houver quem conte a história e quem bata o tambor, a chama da liberdade no Sertão jamais se apagará.

Referências

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CENSO 2022: Pernambuco é o quinto estado do Brasil com maior população quilombola, com 78.827 pessoas. G1, Pernambuco, 27 jul. 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2023/07/27/censo-2022-pernambuco-e-o-quinto-estado-do-brasil-com-maior-populacao-quilombola-com-78827-pessoas.ghtml. Acesso em: 28 nov. 2025.

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Ecos da revolução de 1817 no interior de Pernambuco https://caminhosdarevolta.com.br/ecos-da-revolucao-de-1817-no-interior-de-pernambuco/ https://caminhosdarevolta.com.br/ecos-da-revolucao-de-1817-no-interior-de-pernambuco/#respond Mon, 01 Dec 2025 14:48:03 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=968 Ígor Anderson Cardoso Gonçalves
Mestre em História pela Universidade Católica de Pernambuco

Legenda: Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva. Ouvidor de Olinda que se encontrava em correição na Vila de Limoeiro ao eclodir o movimento, sendo acusado posteriormente de articular a adesão local. Fonte: Acervo do Museu Paulista (Domínio Público). Paulista (Domínio Público).

Quem quer que, tencionando compreender os caminhos da revolta, inadvertidamente se lance à análise de boa parte da documentação disponível acerca dos eventos de 1817, poderá chegar à precipitada conclusão de que o “vapor” revolucionário pernambucanoi não teria logrado galgar o planalto da Borborema, ou vencer a cachoeira de Paulo Afonso, alastrando-se pelos confins da capitania.

A correspondência que se conservou, por exemplo, entre as câmaras municipais e o governo restaurado, esforça-se, em regra, por isentar os povos de Flores, Garanhuns, Limoeiro etc., de vínculos com os “patriotas”ii; sugerindo, tanto às autoridades vencedoras quanto à posteridade, que as iniciativas rebeldes nem repercutiram, nem lograriam repercutir por ali, senão pela via da coaçãoiii.

Essa primeira impressão, porém, não resiste a uma interpretação mais judiciosa, a contrapelo do discurso oficialiv. É o que se procurará demonstrar, panoramicamente, no presente artigo: que, a despeito da elusiva retórica assumida pelos vencidos, os ideais revolucionários não apenas reverberaram para além da franja litorânea, e da zona de mata adjacente, como encontraram ambiente favorável para produzir resultados os mais variados no interior.

Preliminarmente, cumpre esclarecer que, por aqueles idos, os atuais Agreste e Sertão pernambucanos se repartiam entre os dilatados termos das vilasv de Limoeiro e Cimbres, no norte agrestino; Garanhuns, no sul; e Flores, no setentrião sertanejo; achando-se submetidos à jurisdição municipal do Pajeú também os meridionais julgados de Cabrobó e Tacaratuvi.

À exceção de Limoeiro, todas essas localidades constituíam, desde 1810, a nova Comarca do Sertão, com outras povoações e vilas que, posteriormente, acabariam desligadas de Pernambucovii. Ademais, a agrestina Freguesia dos Bezerros integrava o Termo de Santo Antão da Mata; e, no São Francisco, ainda havia as insulares vilas de índios de Assunção e Santa Mariaviii.

Em Cimbres, por informação do capitão-mor Antônio dos Santos Coelho da Silva, que confessaria haver oferecido ao Governo Provisórioix “a quantia de 2:000 réis”, para demonstrar-lhe que “deveria ser reconhecido por bom patriota”x; consta que, já em fins de 1816, o padre Francisco Muniz Tavares, futuro historiador da revoltaxi, introduzido no distrito por Joaquim Almeida Catanho, ao pretexto de dizer as missas de Natal, ocupara-se mais “em abater as tropas e segurar que, breve, havia uma grande revolução em Pernambuco”xii.

De acordo com o capitão-mor, logo que sucedeu o 06 de março, Almeida Catanho mobilizou o sogro, João Alves Leite, e o irmão e o cunhado deste, o capitão Francisco Leite da Silva e Manoel José Monteiro, a apresentarem-se ao novo governo, no Recife, para onde seguiram a “jurar bandeiras”. De regresso, “é público que, por todos os lugares que passaram, Santo Antão, Bezerros e Caruaru”, “gritavam ‘viva a pátria’”, “prometendo matar aos que lhe dissessem ‘viva El Rei’”xiii.

Catanho ainda procuraria fazer “proezas de língua a favor do provisório”, influindo “ser pesado o Governo Real, e falava em desabono da Real Família”; no que, aliás, não se encontrava sozinho em Cimbres, pois ali, segundo Santos Coelho, o europeu José Porfírio de Freitas, perfilado com o “maldito governo”, constantemente imprecava “contra Sua Majestade Fidelíssima”, admoestando até que “o tratassem por Pai João da Ilha”xiv.

Tamanho era o ardor patriótico de alguns Freitas, que, certa feita, no sítio do coronel José de Matos Girão, a senhora Maria White, “fazendo uma saúda” de “viva a religião cristã, viva El Rei, Nosso Senhor!”, fora acaloradamente repreendida por José Porfírio: “não me fale nesse…, nome intolerável entre os portugueses casados”; e até ameaçada por um filho dele, que, “lançando mão a duas pistolas”, “quisera dispará-las na dita moça, do que acudiram os circunstantes”xv.

No Termo de Cimbres, Dias Martins ainda destacaria a atuação revolucionária do capitão José Caetano de Medeiros, morador no Brejo da Madre de Deus, que “fez distintos serviços para que suas bandeiras fossem arvoradas por aqueles remotos distritos”, vindo a responder por isso perante a Alçadaxvi. Por sinal, Santos Coelho já registrava que Medeiros, instado a acudir à contrarrevolução no Limoeiro, fez voltar parte da tropa, cuidando, em vez de acompanhá-la, de amotinar o povo do Brejo por motivações pessoaisxvii.

Em Garanhuns, por sua vez, e como contradita às futuras atestações da Câmara de que, quanto aos “papéis organizados do desgraçado dia 06 de março em diante nesta Vila, os não há”, “e menos consta que haja um só particular que possua cartas de relações com aqueles infames extintos traidores”xviii; basta o cotejo com o teor da proclamação dirigida, a 11 de abrilxix, por João Tenório de Albuquerque ao capitão-mor da Vila de Anadia, da ainda pernambucana Comarca das Alagoas.

Nesse documento, o arrebatado sargento-mor da Vila de Garanhuns, reagindo à recusa alagoana em obedecer ao Governo Provisório, deixa ver o alcance das notícias que então circulavam: que as capitanias “de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande, Ceará, Maranhão, Pará, Parnaíba, Mato Grosso, fazem um só corpo, e também se julga já Minas levantada pelos avisos de Mato Grosso”xx.

Exortando ao engajamento, ante o risco de se ver “subir os malvados europeus, nossos comuns inimigos, ao mais elevado auge da sua vanglória, submetendo-nos, e à nossa descendência, ao abismo do cativeiro”; adverte o bem-informado “amigo Patriota” aos “míseros distritos” das vilas de Alagoasxxi, Anadia e Atalaia: “lembrai-vos do que sucedeu em 1815, na América Peruciana [sic], quando uma parte dela duvidou, negando a obediência à capital, cuja causa foi bastante para ser punida a fogo e ferro”xxii.

Em Flores, não menos entusiástica foi a adesão do “patriota Joaquim Nunes de Magalhães”, capitão-mor da vila, que, sem embargo da firme resistência deparada, por exemplo, em Tacaratuxxiii; logo mandou publicar, nos amplos domínios de sua jurisdição, “a cópia da proclamação dos chefes que estão governando a praça” do Recife, “convocando quem se quisesse voluntariamente alistar” para defender a República, “que ficariam isentos de tantos tributos e pensões”xxiv.

Da lavra desse capitão-mor, também remanesceram sugestivas normas “às autoridades e mais povos” de sua vila e termo, datadas de 23 de abril, prescrevendo “que ninguém fale do governo atual, nem dos que estão empregados, tanto no Civil como no Militar, e nem fomentem cizânias, nem confusões e conversações”; sob pena de terem “confiscados os seus bens”, e serem “presos e recolhidos à cadeia” local, às suas ordens, executadas pelo “patriota capitão Manoel Félix de Veras”xxv.

Foi em Limoeiro, todavia, que a revolução ecoou com maior estrépito, conforme atesta o extenso rol dos implicados na ulterior devassa da Alçada: cerca de duas dezenas; desde populares, como “cabras” e músicos; até autoridades civis, militares e religiosas: escrivães, juízes, oficial de justiça, procurador, vereadores; alferes, capitães, sargento; o vigário da freguesiaxxvi. Dos extratos de suas culpas, e do teor de algumas declarações, é possível reconstituir os episódios locais.

Consoante o relato do padre Francisco de Sales, o desembargador Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, irmão de José Bonifácio e um dos próceres de 1817, “estava de correição na vila”, “quando, no dia 07 de março”, “ao escurecer”, chegou ali “a notícia” “da praça de Pernambuco”. “Nessa noite”, ausentou-se o ouvidor de Olinda para a contígua Vila de Paudalho, “publicando que ia aproximar-se” do Recife, “para examinar o sucesso e dar as providências que pudesse”, e não mais voltouxxvii.

Em todo caso, Manuel Atanásio da Silva Cucharra, “um dos ajudantes” do corregedor, “que o tinha acompanhado para o Pau do Alho”, regressou como “emissário dos rebeldes”; chegando “no dia 15, com cartas ao chefe da vila e ao juiz”xxviii. De fato, Antônio Carlos seria acoimado “de ter, no Limoeiro, aviso da rebelião e vir logo”, e “de escrever ofícios à Câmara, para vassalagem” ao novo governo; e Cucharra, “de ir fazer a revolução no Limoeiro, que efetivamente fez”, e “de a fazer também no Pau do Alho”xxix.

Ainda segundo o vigário, em lugar do capitão-mor, porque “estava demente” ou “por óbito”, “comandava o sargento-mor Pedro Clemente de Melo”, “que residia 05 léguas distante”, e, por isso, “tinha encarregado o seu sobrinho, o capitão comandante João Ribeiro Pessoa de Lacerda, que residia dentro da vila, para cumprir qualquer ordem que pedisse pronta execução”xxx.

Sem demora, João Ribeiro teria convocado “o povo da feira, e habitantes da mesma vila, para a Casa do Senado, onde devia apresentar certas ordens”; ensejo em que o escrivão “leu uma carta do dito corregedor dirigida ao juiz”, prosseguindo “a ler outras, entregues pelo comandante”, a começar pela “capitulação, ou cópia dela, em que o capitão-general de Pernambuco e mais oficiais tinham feito entrega da capital”, pelo que “os lugares pertencentes à capitania não deviam exitar [sic], porque estavam sujeitos” ao atoxxxi.

Em sua defesa, o padre Francisco adotaria a estratégia de comprometer Clemente de Melo e Pessoa de Lacerda, alegando que, à continuação, também teria sido lida uma carta “em que o sargento-mor comandante, desde o dia antecedente 14 de março, ordenava aos capitães e mais oficiais para prestar obediência aos rebeldes”; e ao escrivão que, “de tudo, fizesse lançamento”; “e disse que seu tio, sargento-mor”, sujeitava-se “à capitulação, e não devia opor-se, uma vez que não podia defender-se”xxxii.

Ocorre que, para furtar-se à responsabilização, os chefes militares pretextariam que as autoridades civis e o vigário, “sem terem inteligências as milícias e ordenanças, declararam na vila a revolução”; embora Muniz Tavares registre que, “de Igarassu, Paudalho e Limoeiro, marchou imediatamente avultado número de ordenanças”, debaixo do comando de seus superiores, “ansiosos por participar da glória, combatendo”xxxiii.

A versão dos comandantes seria a de que Cucharra, munido dos papeis revolucionários, mostrara-os logo aos escrivães Manuel Caetano de Almeida e Matias José da Silva, e ao vigário, que então “se vestira e pusera os sobrepelos, e estola”, indo “todos os quatro à Câmara”, que “estava junta”, a deliberar, e só então mandando “avisar ao sargento-mor e aos mais”; ou seja, tudo teriam feito “sem primeiro lhes dar parte, tomando assim o governo da terra”xxxiv.

O padre, a seu turno, embora confessando que “obedeceu às ordens dos rebeldes”, alegava estar sendo supostamente “acusado de crimes, pelos seus inimigos, que nem de pensamento cometeu”: de dizer “que só à Pátria se deve servir, e não às testas coroadas”; “que tinha os seus escravos armados e quatro filhos” prontos para a luta, e que “Pernambuco era inconquistável”; que o monarca, “a quem dava o nome de Pai João, não tinha senão uma fragata velha”, oferecendo-se a dar-lhe “100 mil réis”, para “começar sua vida como começaram todos os marinheiros, entendendo por essas palavras os europeus quando chegaram ao Brasil”xxxv.

O fato é que, a 15 de março, um “sábado de grande feira”, a gente do Limoeiro, reunida em “congresso”, fez solene profissão de fé revolucionária: “lida a carta” de Andrada “e mais papéis”, a Câmara persuadiu o povo a “fazer termo de obediência”, mandando “arvorar a bandeira branca” da República, “lançar um bandoxxxvi para que todos obedecessem aos rebeldes”, e “pôr luminárias por três dias”; do que se lavrou a respectiva ata, registrada no competente livro, consistindo em “dez folhas”, nas quais igualmente “se achavam inscritas” as “proclamações e ordens” do Governo Provisório dirigidas à vilaxxxvii.

As culpas dos oficiais camarários e do vigário põem a descoberto outras circunstâncias desse momento, quais as do vereador João Francisco de Araújo, acusado de, “influído e declamador”, “mandar dar salvas, vivas, publicar bandos, soltar presos”; “ordenar as remessas dos dinheiros reais para o Recife”; e “mandar chamar ao sargento-mor” “para levar os europeus que se queriam levantar a favor de El Rei”xxxviii.

“Declamadores” seriam também os escrivães Manuel Caetano, “falador”, “ledor de versos”; e Matias José, incriminado por “ser sócio na execução do levantamento” da bandeira rebeldexxxix. Ao padre Francisco, ainda lhe seria imputado: “repicar os sinos e botar luminárias”; “quebrar as armas reais do frontispício da igreja”; e cantar “o Te Deum Laudamus em ação de graças pela rebelião”xl.

Limoeiro sustentaria a causa revolucionária até fins de abril, quando a contrarrevolução, projetada, dois dias antes, no “lugar das Bengalas”xli, triunfou, a 29 daquele mês, na sede municipal; “onde, nesta Câmara, foi colocado o real retrato com vivas e júbilo”, com direito a um “beija-mão” em presença da efígie, “presidido pelo sargento-mor”, que, adiantando-se como “fiel vassalo”, “quis que, nesta vila, fosse logo restaurado o poder representativo de Sua Majestade”xlii.

Em seguida, a 21 de maio, ante a queda da República, convocou-se nova reunião na Câmara, “com o comparecimento da principal gente da vila”, para tomar-se uma segunda resolução, em desagravo da anterior, um “ato de protesto e reprovação”; concertando-se que as comprometedoras dez folhas fossem, então, “demolidas e queimadas”, “para que delas não houvesse memória no presente e em futuro tempo”xliii.

Na ocasião, Joaquim Ferreira de Moura teria divergido, parecendo-lhe “mais acertado ficar o livro intato [sic] até supra ordem”; entretanto, prevaleceu o entendimento de que “era pública a notícia de um bando” do governo restaurado, “publicado na praça, para se extraírem dos livros todos os escritos infames, e que parecia antes criminosa a conservação de semelhantes insultos”. Então “os senadores não vacilaram mais; e o escrivão prontamente passou a extraí-las”; e o vigário “as pediu para as queimar”, “o que logo se executou”xliv.

Semelhante destinação teriam os “papeis dos rebeldes” nas demais localidades, o que ajuda a explicar a aparente apatia do interior, quando não pusilanimidade. Nada obstante, baldados seriam os esforços dos vencedores em fazer desaparecer “todo e qualquer testemunho que possa transmitir à posteridade fatos autorizados por uma rebelião tão desacordada, injusta e sacrílega”xlv. A memória revolucionária persistiria, como resistiriam seus ideais por todo o Pernambuco.

FONTES E REFERÊNCIAS

Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), AHU_ACL_CU_015, Cx. 100, Doc. 7810, Anexo.

Arquivo Nacional (AN). AUTO de perguntas ao padre Francisco de Sales. Disponível em: https://historialuso.an.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3491:autos-das-perguntas-ao-padre-francisco-de-sales&catid=151&Itemid=215. Acesso em: 15 out. 2025.

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TAVARES, Francisco Muniz. História da Revolução de Pernambuco em 1817. 5ª ed. Recife: CEPE, 2017.

i Ao “maligno vapor pernambucano” se referia o anônimo autor do manuscrito “Revoluções do Brasil”, a fim de oferecer uma “Ideia Geral de Pernambuco em 1817”. In: Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano. Recife: Tip. Industrial, 1884, vol. 04, nº. 29, 2º sem. 1883, p. 48.

ii Os partidários da revolução se identificavam por “patriotas”.

iii A propósito, cf.: COSTA, Evaldo; ROSA, Hildo Leal da; e MOURA, Débora Cavalcantes de (Orgs.). Memorial do Dia Seguinte: a Revolução de 1817 em documentos da época. Recife: APEJE/CEPE, 2018, pp. 115-120.

iv Para a proposta benjaminiana de se “escovar a história a contrapelo”, com vistas a reconstituir as perspectivas dos vencidos, silenciadas pelas narrativas oficiais dos vencedores, cf.: BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1996, pp. 222 e ss.

v Por “Termo de Vila, ou Cidade”, compreendia-se, segundo Bluteau, “o distrito, ou espaço de terra, aonde chega a jurisdição dos juízes ordinários, ou de fora, ou outras justiças”. Em outras palavras, era o território sob a jurisdição municipal. BLUTEAU, Raphael. Vocabulário Português & Latino etc. Lisboa Ocidental: Of. de Pascoal da Silva, 1721, vol. 08, p. 114.

vi A Vila Real de Cimbres, de índios, depois município de Pesqueira, fora ereta em 1762; e as vilas de Garanhuns e Limoeiro, em 1811. Em 1815, os antigos julgados de Cabrobó e Tacaratu, porquanto compreendidos na nova Comarca do Sertão, seriam interinamente anexados à Vila de Flores do Pajeú pelo governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro. Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (APEJE), Ofícios do Governo (OG), L. 15, fl. 140v.

vii A Vila de São Francisco das Chagas, vulgarmente chamada da Barra, a de Pilão Arcado, e as povoações de Campo Largo e Carinhanha, passariam a compor, a partir de 1820, a Comarca do Rio de São Francisco; desligada de Pernambuco e incorporada a Minas Gerais, em 1824, e, em seguida, à Bahia, em 1827, em retaliação à Confederação do Equador. COSTA, F. A. Pereira da. Em Prol da Integridade do Território de Pernambuco. Recife: Tip. do Jornal do Recife, 1896, pp. 33-36.

viii As vilas reais de Assunção e Santa Maria foram eretas em 1761, e posteriormente extintas; e a Vila de Santo Antão, mais tarde Vitória, em 1811. Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), AHU_ACL_CU_015, Cx. 100, Doc. 7810, Anexo; e BOTELHO, Carla (Org.). Calendário Oficial de Datas Históricas dos Municípios de Pernambuco. Recife: CEHM, 2006, p. 170.

ix O Governo Provisório era a junta governamental da República de 1817, composto por cinco membros.

x Em derrotada a revolução, Santos Coelho procuraria fazer crer que assim procedera para dar-lhe “alguma melhor prova de condescendência”, e que “não só pretendi não dar àquele maldito governo a dita doação, como evitei toda a ocasião” de fazê-lo. COSTA, Evaldo et al. Memorial do Dia Seguinte, pp. 174-175.

xi Muniz Tavares publicaria a primeira edição de sua “História” em 1840, impressa na Tip. Imparcial do Recife. TAVARES, Francisco Muniz. História da Revolução de Pernambuco em 1817. 5ª ed. Recife: CEPE, 2017, pp. 07 e ss.

xii COSTA, Evaldo et al. Op. cit., p. 187.

xiii Id., ibid., pp. 178 e 188.

xiv Id., ibid., pp. 178 e 185-186.

xv Id., ibid., p. 185.

xvi A Alçada seria “enviada do Rio de Janeiro para sindicar e julgar os intitulados criminosos de lesa-majestade” envolvidos na revolução, em substituição à precedente Comissão Militar. MARTINS, José Dias. Os Mártires Pernambucanos: vítimas da liberdade nas duas revoluções ensaiadas de 1710 e 1817. 2ª ed. Recife: CEPE, 2022, p. 177; e TAVARES, Francisco Muniz. História da Revolução de Pernambuco em 1817, 5ª ed., p. 433.

xvii COSTA, Evaldo et al. Op. cit., pp. 179-180.

xviii Id., ibid., p. 119.

xix A revolução medrou de 06 de março a 20 de maio de 1817.

xx DOCUMENTOS Históricos (DH). Revolução de 1817. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1954, vol. CIV, p. 93.

xxi Atual município de Marechal Deodoro-AL.

xxii Provável alusão à Rebelião de Cusco, no Peru, onde, “em 1814, eclodiu um movimento contrário à Audiência local, reverberando descontentamentos contra o governo central de Lima”, que seria violentamente reprimido, no ano seguinte, pelas forças realistas. PIMENTA, João Paulo. A Independência do Brasil e a Experiência Hispano-Americana (1808-1822). São Paulo: HUCITEC, 2015, p. 195.

xxiii COSTA, Evaldo et al. Op. cit., pp. 167-172.

xxiv Id., ibid., p. 171

xxv Id., ibid., pp. 168-169.

xxvi No Apêndice à “História” de Muniz Tavares, constam, entre implicados e perdoados, os seguintes indivíduos: Antônio [Alves] Carneiro, cabra; Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, desembargador; Carlos Leitão [Cavalcanti] de Albuquerque, juiz ordinário; Cipriano [Antônio de Lima], sargento; Francisco, músico; Francisco de Sales Coelho [da Silva], vigário; João Carlos, oficial de justiça; João Francisco de Araújo, vereador; José da Silva Monteiro, vereador; José Francisco de Arruda, juiz ordinário; José Joaquim de Aragão, procurador da Câmara; Manuel, músico; Manuel Atanásio da Silva Cucharra; Manuel Caetano de Almeida, escrivão das Capelas e Resíduos; Manuel da Costa, cabra; Manuel de Cristo, músico; Matias José da Silva, escrivão da Correição; Miguel Justo, cabra. Dias Martins ainda cita Luís Carlos Coelho da Silva, sacerdote auxiliar do vigário. TAVARES, Francisco Muniz. Op. cit., pp. 485-529; e MARTINS, José Dias. Os Mártires Pernambucanos,2ª ed., p. 211.

xxvii DH, vol. CV, p. 127.

xxviii DH, vol. CV, pp. 10 e 127.

xxix DH, vol. CVI, pp. 134 e 171.

xxx DH, vol. CV, p. 127; e vol. CVII, p. 03.

xxxi DH, vol. CV, pp. 127-128; e vol. CVII, p. 04.

xxxii DH, vol. CV, p. 128.

xxxiii DH, vol. CV, p. 128; e TAVARES, Francisco Muniz. Op. cit., p. 207.

xxxiv Arquivo Nacional (AN). AUTO de perguntas ao padre Francisco de Sales. Disponível em: https://historialuso.an.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3491:autos-das-perguntas-ao-padre-francisco-de-sales&catid=151&Itemid=215. Acesso em: 15 out. 2025.

xxxv DH, vol. CV, p. 130; e AN, AUTO de perguntas ao padre Francisco de Sales.

xxxvi Bluteau anota que “publicar por bando” significava declarar-se “publicamente um decreto, uma lei”; e que, “entre nós, Bando é pregão de guerra, a som de caixa, com pena imposta aos transgressores de uma lei militar”. Cf. BLUTEAU, Raphael. Vocabulário Português & Latino etc. Coimbra: Colégio das Artes da Companhia de Jesus, 1712, vol. 02, p. 31.

xxxvii DH, vol. CV, p. 133; AN, AUTO de perguntas ao padre Francisco de Sales; e COSTA, F. A. Pereira da. Anais Pernambucanos. 2ª ed. Recife: FUNDARPE, 1983, vol. 07, pp. 469-470.

xxxviii DH, vol. CVI, p. 157.

xxxix DH, vol. CVI, pp. 169-170.

xl Buscando esquivar-se de todas as acusações, o vigário negaria haver entoado o Te Deum, antigo hino católico em louvor a Deus. Quanto às armas reais “que estavam sobre a porta principal da sua igreja”, argumentaria que “pediu que as não quebrassem, por serem de madeira muito antiga”; e, “dizendo a alguns que brevemente havia de carecer delas, guardou-as, escondendo debaixo das banquetas do trono da igreja, e as restituiu ao seu lugar” oportunamente. DH, vol. CVI, p. 144; vol. CIII, pp. 126-127; e AN, AUTO de perguntas ao padre Francisco de Sales.

xli Atualmente, distrito do município de Passira.

xlii COSTA, Evaldo et al. Op. cit., p. 116.

xliii COSTA, F. A. Pereira da. Anais Pernambucanos, 2ª ed., vol. 07, pp. 469-470.

xliv DH, vol. CV, p. 136.

xlv COSTA, Evaldo et al. Op. cit., pp. 220-223.

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O Despertar da República: A Gênese do Debate e Suas Contradições https://caminhosdarevolta.com.br/o-despertar-da-republica-a-genese-do-debate-e-suas-contradicoes/ https://caminhosdarevolta.com.br/o-despertar-da-republica-a-genese-do-debate-e-suas-contradicoes/#respond Mon, 01 Dec 2025 14:22:17 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=959 O debate republicano no Brasil não nasceu de um evento ocorrido do dia para a noite. Ele foi lentamente discutido sobre os escombros de uma monarquia que, a partir de meados do século XIX, começou a perder sua capacidade de acomodar as transformações sociais e econômicas do Brasil. Longe de ser um movimento homogêneo, a “ideia republicana” foi um conjunto de interesses diferentes, unindo cafeicultores, militares descontentes e intelectuais urbanos sob uma mesma bandeira de contestação

1870: o marco da ruptura institucional

Embora o descontentamento existisse de muitas formas, o debate ganhou corpo e doutrina com a publicação do Manifesto Republicano em dezembro de 1870, em São Paulo. Este documento transformou críticas em um programa político organizado.

Os republicanos históricos atacavam as estruturas centrais da monarquia, focando em quatro pilares de descontentamento:

  • O Poder Moderador: Visto como uma ferramenta de arbítrio pessoal do Imperador e fonte de corrupção.
  • A Centralização: O desejo por um federalismo real que desse autonomia às províncias (futuros estados).
  • O Senado Vitalício: Um símbolo de privilégio aristocrático que impedia a renovação política.
  • A Exclusão Política: A crítica a um sistema representativo que ignorava a vasta maioria da população.

Duas Repúblicas em disputa: o agrarismo paulista vs. o urbanismo pernambucano

Um dos aspectos mais fascinantes do início desse debate é a profunda diferença de base social entre as províncias. Em São Paulo, por exemplo, o republicanismo foi impulsionado pela potência econômica do Oeste Paulista. Ali, a modernização do café e a expansão ferroviária criaram uma elite que via a Monarquia como um entrave ao seu poder econômico. Estatisticamente, 58,6% do movimento republicano paulista era composto por grandes lavradores. Para eles, a República era uma questão de federalismo e autonomia econômica.

Já em Pernambuco, havia um contraste radical. Embora tenha sido o berço histórico de revoluções, o republicanismo teve um caráter marcadamente urbano. Apenas 2,6% dos republicanos pernambucanos eram agricultores. O movimento era composto por advogados, estudantes, jornalistas e artesãos do Recife.

Isso gerou pautas distintas: enquanto o Sul priorizava o federalismo, em Pernambuco o debate foi moldado pelas urgências do trabalhador urbano. A carestia, o desemprego e os impostos abusivos fizeram com que a República fosse idealizada como uma ‘tábua de salvação’ para as mazelas cotidianas, criando uma expectativa de melhoria material imediata que, inevitavelmente, resultaria em frustração.

É fundamental ressaltar que o debate republicano não se limitou aos interesses econômicos, sendo travado também no campo das ideias políticas e filosóficas. Estudantes e intelectuais, especialmente das escolas militares do Rio de Janeiro, apropriaram-se do Positivismo de Auguste Comte e do Evolucionismo de Herbert Spencer para conferir um verniz ‘científico’ à oposição que faziam à coroa imperial. Para essa geração, a Monarquia não era apenas politicamente injusta; ela era ‘cientificamente’ obsoleta, uma etapa a ser inevitavelmente superada na evolução social.

O fator militar: da guerra à política

Esse debate transbordou dos jornais para a caserna, penetrando nas escolas militares e nas Forças Armadas após a Guerra do Paraguai (1864-1870). O Exército retornou do conflito com uma nova identidade corporativa e um profundo ressentimento contra a elite civil imperial, a quem acusava de negligência e corrupção. Cristalizava-se ali o conflito entre a ‘Casaca’ (os políticos civis) e a ‘Farda’ (os militares), com estes últimos passando a reivindicar um papel de protagonismo na condução do Estado.

Liderados por figuras como Benjamin Constant, que doutrinava a “mocidade militar” na Escola Militar do Rio de Janeiro, e pelo Marechal Deodoro da Fonseca no Clube Militar, as Forças Armadas passaram a se ver como um “Poder Moderador” alternativo. O debate, para eles, era sobre moralidade, ordem e progresso técnico, culminando na convicção de que a mudança de regime era uma missão patriótica de “salvação nacional”.

O debate republicano também foi impulsionado pela Questão Abolicionista. Inicialmente, muitos republicanos (especialmente em SP) evitaram o tema para não alienar os fazendeiros escravocratas. Mas com a inevitabilidade do fim da escravidão, o movimento republicano soube capitalizar o ressentimento da elite agrária tradicional pós-Lei Áurea (1888). Republicanos atraíram os “escravocratas feridos”, que aderiram à causa não por convicção democrática, mas por vingança contra a Coroa que lhes retirou a “propriedade” sem indenização, os chamados “republicanos do dia seguinte”.

O 15 de Novembro: um golpe, não uma festa popular

Ao contrário do imaginário popular, a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, não brotou da vontade do povo nas ruas. Tratou-se, na prática, de um golpe militar. A manobra foi orquestrada por uma facção específica do Exército, articulada sob dois pilares: a liderança de prestígio do Marechal Deodoro da Fonseca, essencial para mobilizar a tropa nas ruas, e a influência intelectual de Benjamin Constant, o grande ideólogo que doutrinou a “mocidade militar” com os ideais republicanos. Esse núcleo fardado agiu em diálogo com as elites civis – políticos e cafeicultores insatisfeitos – que deram o suporte político necessário para a derrubada do trono.

O Povo Ficou de Fora. A população comum não participou da decisão. No dia do golpe, as pessoas assistiram à movimentação das tropas sem entender o que estava acontecendo. Um jornalista da época, Aristides Lobo, descreveu a cena de forma célebre: o povo assistiu a tudo “bestializado”, ou seja, surpreso e confuso, achando que aquilo era apenas um desfile militar, sem saber que o governo imperial estava sendo derrubado.

Mas o que motivou a ruptura? Longe de ser fruto apenas de idealismo cívico, o movimento foi impulsionado por interesses pragmáticos e corporativos. De um lado, o Exército, fortalecido após a Guerra do Paraguai, ressentia-se do tratamento recebido pelo Império e exigia protagonismo político, vendo-se como o verdadeiro tutor da nação. Do outro, a elite agrária tradicional rompeu com o trono por uma questão de bolso: a assinatura da Lei Áurea (1888). Sentindo-se traídos pela Coroa, que aboliu a escravidão sem oferecer indenização, esses fazendeiros tornaram-se os chamados “republicanos de última hora”, apoiando a queda da Monarquia não por convicção democrática, mas por retaliação.

Benjamin Constant – Arquivo Nacional, Domínio público
Benjamin Constant – Arquivo Nacional, Domínio público

Manuel Deodoro da Fonseca, presidente do Brasil de 1889 a 1891 – Galeria dos Presidentes da República. Domínio Público
Manuel Deodoro da Fonseca, presidente do Brasil de 1889 a 1891 – Galeria dos Presidentes da República. Domínio Público

Pernambuco em ebulição (1889-1892)

A queda do Império, em 15 de novembro de 1889, não inaugurou uma era de paz em Pernambuco. Pelo contrário: quando a notícia da Proclamação chegou ao estado no dia seguinte, 16 de novembro, o súbito vácuo de poder transformou o território em um campo de batalha político. Instalou-se uma disputa acirrada pela hegemonia da nascente República, fragmentando o cenário local em três forças principais, cada qual com uma visão distinta de poder:

  • Os Marianistas (Democratas): Liderados pelo ídolo popular José Mariano. Eram abolicionistas, tinham o apoio do povo nas ruas e defendiam que Pernambuco tivesse muita autonomia (federalismo). Eram vistos com desconfiança pelos outros grupos por serem ex-liberais do Império.
  • Os Lucenistas (Conservadores): A elite tradicional, ligada aos grandes latifundiários. Seus líderes, como o Barão de Lucena e Rosa e Silva, eram políticos experientes que tentavam se adaptar ao novo regime para não perder prestígio.
  • Os Republicanos Históricos: Liderados por Martins Júnior. Eram os “puristas” ideológicos. Acreditavam que só eles, que eram republicanos antes de 1889, tinham legitimidade moral para governar. Odiavam os “adesistas” (gente que mudou de lado na última hora).

O primeiro governador, Marechal José Simeão de Oliveira, tentou uma política de moderação que desagradou profundamente os martinistas. Inconformado com a aproximação entre o governador e o grupo de José Mariano, Martins Júnior viajou ao Rio de Janeiro para intrigar pessoalmente contra Simeão, conseguindo sua queda em abril de 1890. Em seu lugar assumiu Albino Meira, um aliado dos martinistas que prontamente aparelhou a administração pública pernambucana.

Contudo, essa hegemonia durou pouco. A influência pessoal do Barão de Lucena sobre o Marechal Deodoro da Fonseca reverteu o jogo, derrubando Meira e colocando o próprio Lucena no poder em agosto de 1890. Lucena tentou uma “política de conciliação”. Mas, vencendo as eleições para a Constituinte, logo partiu para o Rio de Janeiro para ser ministro, deixando o desembargador José Antonio Correia da Silva em seu lugar para promulgar a primeira Constituição do Estado de Pernambuco em junho de 1891.

A situação sofreu uma reviravolta violenta com a renúncia de Deodoro da Fonseca em 23 de novembro de 1891. Sem seu protetor na capital federal, o governo apoio pelo Barão de Lucena em Pernambuco ficou isolado e vulnerável. Os republicanos históricos, vendo a oportunidade de retomar o poder, aliaram-se ao Exército e, na noite de 18 de dezembro de 1891, protagonizaram um combate sangrento no centro do Recife. Tropas federais comandadas pelo General Ourique Jacques enfrentaram a polícia estadual na Praça da República; o tiroteio resultou na deposição do governo e em um número incerto de mortos e feridos, levando uma Junta Governativa martinista ao poder.

No entanto, a vitória militar não garantiu a estabilidade política. O novo presidente, Floriano Peixoto, recusou-se a apoiar a Junta e impôs um nome de sua confiança, Alexandre José Barbosa Lima. Embora pernambucano, Barbosa Lima era visto como um forasteiro, pois fizera sua carreira no Ceará. Eleito formalmente em abril de 1892 pelo Congresso Estadual (então dominado pelos martinistas), ele logo rompeu com seus eleitores ao prometer a “verdade eleitoral” e recusar o uso da máquina pública para favorecer o partido. O conflito escalou quando o governador demitiu o Questor Policial, homem de confiança de Martins Júnior, e adiou as eleições federais. O que se seguiu foi uma guerra institucional:

  • O Legislativo tentou suspender o governador.
  • Barbosa Lima ignorou o Legislativo e governou com mão de ferro.
  • Para sobreviver politicamente, ele fez alianças impensáveis, unindo-se brevemente até aos seus inimigos, os Marianistas.

Os conflitos da República no interior de Pernambuco.

Enquanto as disputas políticas se desenrolavam nos salões e jornais do Recife, uma série de conflitos armados eclodiu no interior do estado, revelando que a nova ordem estava longe de ser um consenso. A luta central se deu entre o projeto centralizador do governador Alexandre José Barbosa Lima e o poder local dos chefes políticos — os coronéis — ligados à oposição dos “republicanos históricos”, liderados por Martins Júnior. Mais do que uma mera disputa pelo poder, o conflito colocava em questão a própria natureza da autoridade no novo regime.

O cenário que levou ao conflito começou a se formar durante o governo da Junta Governativa, período em que os “republicanos históricos” de Martins Júnior venceram as eleições municipais, um pleito boicotado por seus adversários “lucenistas“. Com isso, conseguiram instalar seus aliados no poder local, garantindo uma importante base de poder político e administrativo no interior de Pernambuco.

Em 15 de agosto de 1892, o governador Barbosa Lima lançou uma declaração de guerra a essa estrutura de poder. Em um ato de força, decretou a dissolução de todas as municipalidades do estado, desferindo um golpe fatal contra a base de seus rivais. A justificativa oficial foi dupla: que os conselhos haviam sido eleitos em um pleito sem oposição, o que questionava sua legitimidade, e que a nova Lei Orgânica Municipal ainda não havia sido devidamente implementada. No entanto, a natureza do ato era inequivocamente política, um desafio direto ao poder dos coronéis.

A resposta ao decreto foi imediata e violenta. Os conselhos municipais depostos, muitos diretamente ligados a Martins Júnior, recusaram-se a abandonar seus postos. O que começou como resistência passiva rapidamente se converteu em insurgência armada, dando início a uma onda de levantes que se espalhou por todo o interior, desafiando a autoridade do governo central no Recife.

Logo após o decreto do governador, diversas localidades se levantaram em armas, demonstrando a amplitude e a organização da resistência ao poder de Barbosa Lima.

• Goiana: A revolta foi liderada pelo ex-comandante da guarda local, Antonio dos Santos Medeiros de Aguiar. Sob seu comando, “matutos” armados inutilizaram a linha telegráfica e tomaram a cadeia da cidade. A insurgência forçou uma resposta imediata do governo estadual, que enviou uma força de 40 praças para reprimir o movimento.

• Canhotinho: A cidade foi assaltada por um grupo liderado pelo deputado estadual e capitão Manoel Câmara. Os revoltosos roubaram armamentos e, após o confronto, fugiram para a propriedade do capitão no município de Água Branca.

• Garanhuns: A cidade também foi palco de um ataque, com a particularidade de a insurreição ter sido liderada pelo próprio subcomissário de polícia local, demonstrando a divisão de lealdades dentro do próprio aparelho estatal.

• Outras Localidades: Para evidenciar a extensão da reação, insurreições semelhantes, embora rapidamente controladas, também ocorreram em Salgueiro, Ingazeira e Vila Bela (atual Serra Talhada).

A natureza geograficamente dispersa e quase simultânea desses levantes demonstrou a existência de uma lógica e organizada rede de oposição, provando que o decreto de Barbosa Lima havia atingido um nervo que se estendia por todo o estado, e não apenas em focos isolados de descontentamento.

O Sertão em chamas: a Rebelião de Triunfo

O conflito mais duradouro, organizado e violento desse período ocorreu no Sertão do Pajeú, centralizado no município de Triunfo. Este episódio não foi um evento isolado, mas sim parte integrante das tramas políticas estaduais, demonstrando a profunda conexão entre o interior e a capital nos primeiros anos da República.

O principal líder da rebelião foi o coronel e deputado estadual Antônio Gomes Correia da Cruz. Com forte ligação política com Martins Júnior, ele se recusou a aceitar a posse da nova intendência nomeada pelo governador para Triunfo. A revolta contou também com o apoio popular e a liderança religiosa do padre Laurindo Douettes, que mobilizou os sertanejos para a luta contra o governo do estado.

As forças de Correia da Cruz, compostas por mais de cem homens, adotaram táticas de guerrilha, transformando o conhecimento da caatinga em vantagem militar. As tropas não lutavam como unidade única, mas dispersas em pequenos grupos, dificultando a perseguição.

A logística do conflito, contudo, revela a dureza da vida no front. O diário de campanha do Coronel Correia da Cruz expõe uma “contabilidade de guerra” rigorosa, onde ele registrava cuidadosamente cada boi, novilho ou saca de farinha fornecidos por aliados — de grandes coronéis a sertanejos humildes — sugerindo uma rede de solidariedade e promessas futuras de pagamento. Apesar dessa rede, a escassez era constante. Em momentos de penúria, os combatentes chegaram a recorrer à caça de tatus-bola e outros animais de pequeno porte para não morrerem de fome.

A rebelião em Triunfo foi diretamente financiada e instruída pela oposição no Recife, desmentindo a ideia de um levante espontâneo ou isolado. Cartas apreendidas e publicadas posteriormente comprovam que Martins Júnior atuava como o estrategista intelectual do movimento.

Em uma carta confidencial datada de 4 de setembro de 1892, Martins Júnior não apenas incentivava o conflito, mas ditava táticas militares, sugerindo ao Coronel que procurasse “inutilizar a força” governista antes que chegasse ao destino ou realizasse uma “retirada falsa” caso a luta fosse desvantajosa. O apoio material era explícito: o líder republicano colocou à disposição dos revoltosos “até um conto de réis”, que poderiam ser sacados contra a Casa Tavares de Melo, uma firma comercial do Recife, evidenciando o fluxo financeiro que sustentava a pólvora no sertão.

Contrainsurgência e Violência Simbólica

A resposta do governador Barbosa Lima configurou-se como uma autêntica operação de contrainsurgência. As forças estaduais, reforçadas e sob o comando do Tenente Florêncio de Carvalho, descrito nas cartas de Martins Júnior como um homem “capaz de tudo”, focaram não apenas no combate direto, mas no desmantelamento das redes de apoio familiar e logístico dos rebeldes.

A violência repressiva adquiriu contornos de crueldade simbólica e ataque à honra pessoal. Relatos da época denunciam que as tropas governistas invadiam residências, destruíam currais e espancavam civis. Um episódio emblemático do “furor satânico” descrito pelas fontes foi o suplício imposto ao revoltoso João Cosme: após ser capturado, teve suas barbas cortadas pelos soldados e foi forçado a engoli-las — uma humilhação suprema no código de conduta masculino do sertão — além de sofrer outras torturas físicas.

A combinação de superioridade bélica e terror sistemático contra a população civil minou a resistência. Com a ocupação de Triunfo e Flores e a posse das novas autoridades, a rebelião foi oficialmente encerrada em meados de 1893, consolidando, através da força, a autoridade de Barbosa Lima sobre o Alto Sertão.

Considerações Finais: a República forjada a ferro e fogo

A transição do Império para a República, longe de representar uma ruptura mágica ou a instauração imediata da cidadania, revelou-se no interior de Pernambuco como a continuidade — e muitas vezes o agravamento — das velhas práticas de mando e violência. Os eventos descritos, especialmente a Revolta de Triunfo, desmistificam a narrativa de um interior passivo ou alienado politicamente. O Sertão não foi apenas um espectador distante das disputas do Recife, foi o palco sangrento onde a hegemonia política do estado foi decidida.

A análise dos conflitos em Goiana, Garanhuns e, sobretudo, no Sertão do Pajeú, expõe a umbilical conexão entre a “alta política” da capital e a guerrilha na caatinga. A revolta liderada pelo Coronel Correia da Cruz e pelo Padre Douettes não foi um surto isolado de “matutos”, mas uma guerra por procuração, financiada e estrategicamente orientada pela oposição urbana de Martins Júnior. A “contabilidade de guerra” encontrada nos diários e a brutalidade da repressão — com seus requintes de violência simbólica, como a humilhação imposta a João Cosme — demonstram que a disputa não era apenas por cargos, mas pela honra e pela sobrevivência de redes de clientelismo e poder local.

Em última análise, a vitória militar de Barbosa Lima sobre as insurgências do interior não inaugurou a democracia federativa sonhada pelos idealistas de 1870. Pelo contrário, ela consolidou um federalismo autoritário, onde a autonomia municipal foi sacrificada no altar da governabilidade estadual. A pacificação de Triunfo e a submissão dos coronéis rebeldes foram os atos fundadores de uma nova ordem oligárquica, provando que, para o sertanejo, a República não chegou com o hino da liberdade, mas com o estrondo da repressão e a centralização da força.

Referências

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DOLHNIKOFF, Miriam. História do Brasil Império. São Paulo: Contexto, 2017.

HOFFNAGEL, Marc Jay. O Movimento Republicano em Pernambuco (1870-1889). Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, Recife, v. 49, p. 31-56, 1977.

HOFFNAGEL, Marc Jay. Tensões e conflitos na consolidação da República em Pernambuco: a Revolta de Triunfo. Revista CLIO: Revista de Pesquisa Histórica, Recife, v. 28, n. 2, p. 01-12, 2010.

LEMOS, Renato. A alternativa republicana e o fim da monarquia. In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo. (Org.). O Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, v. 3, p. 401-444.

MELO, Mário. O Movimento Patriótico do Município do Triunfo. Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, Recife, v. 39, p. 189-203, 1944.

ZACARIAS, Audenice Alves dos Santos. Legalidade e autoridade: a implantação da república no Estado de Pernambuco (1889-1893). 2009. 154 f. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2009.

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A Confederação do Equador e os Sertões: rebeldia, esperança e resistência https://caminhosdarevolta.com.br/a-confederacao-do-equador-e-os-sertoes-rebeldia-esperanca-e-resistencia/ https://caminhosdarevolta.com.br/a-confederacao-do-equador-e-os-sertoes-rebeldia-esperanca-e-resistencia/#respond Tue, 26 Aug 2025 01:08:46 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=411 A Confederação do Equador foi uma das maiores revoltas ocorridas no Brasil no início do século XIX. O movimento teve início em Pernambuco, mas logo ganhou força na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte, chegando a inspirar movimentos no Maranhão e em outras províncias. Seu objetivo principal era claro: lutar contra o autoritarismo de Dom Pedro I e o sistema centralizador da monarquia recém-criada. A alternativa proposta era a de um Brasil republicano e federalista, no qual cada província teria mais autonomia para tomar decisões administrativas e políticas.

Logo após a Independência do Brasil, Pernambuco e outras províncias do norte viveram um período de grande tensão. Inicialmente, grande parte das elites locais apoiou a independência, mas sob certas condições: exigiam uma monarquia constitucional — ou seja, com limites ao poder do imperador — e a manutenção de certa autonomia política, a exemplo das Juntas Provinciais de Governo, criadas entre 1820 e 1821. Essas juntas permitiam que as províncias escolhessem seus próprios dirigentes.

Contudo, em 1823, o governo de Dom Pedro I adotou medidas que desagradaram a muitos, principalmente no Norte do país:

  • Criou os cargos de Presidentes de Província, que eram escolhidos diretamente pelo imperador, retirando dos grupos locais o direito de decidir sobre seus próprios governos.
  • Fechou a Assembleia Constituinte, que deveria discutir a Constituição do Brasil, em um ato considerado autoritário.

Foi nesse clima que Frei Caneca, importante líder religioso e intelectual, começou a publicar o jornal Typhis Pernambucano, no qual denunciava os abusos do governo e defendia ideias federalistas e liberais.

As disputas internas em Pernambuco

Em Pernambuco, o cenário político também estava dividido. Desde setembro de 1822, o poder provincial era controlado pela chamada “Junta dos Matutos”, formada por grandes senhores de engenho da Mata Sul. Em dezembro de 1823, porém, devido as insatisfações com o governo e falta de autoridade dos “Matutos”, outra junta foi eleita, liderada por Manoel de Carvalho Paes de Andrade e com nomes de peso como Frei Caneca e José da Natividade Saldanha, todos participantes da Revolução Pernambucana de 1817.

Os “Matutos” não aceitaram o resultado e recorreram ao imperador para manter sua influência. 15Em resposta, Dom Pedro I nomeou Francisco Paes Barreto — o “Morgado do Cabo” e seu aliado — para a presidência da província, que até então presidia a Junta dos Matutos. No entanto, quando o nome foi apresentado em fevereiro de 1824, a maior parte da elite pernambucana se recusou a aceitar a decisão do imperador.

Isso gerou a existência de dois governos rivais na província:

  • A junta de Manoel de Carvalho Paes de Andrade, apoiada pelos setores federalistas e liberais de Recife e Olinda.
  • O governo de Francisco Paes Barreto, sediado na vila do Cabo, com apoio direto do imperador.

O caminho para a revolta

Em abril de 1824, Frei Caneca escreveu que aceitar a nomeação de Paes Barreto seria o mesmo que legitimar a política autoritária e centralizadora de Dom Pedro I. Nos meses seguintes, a tensão apenas aumentou. Enquanto o imperador enviava sua nova Constituição de 1824 — outorgada por ele mesmo e vista como um “projeto pérfido” por seus críticos — para ser aceita pelas câmaras municipais, os líderes pernambucanos se recusavam a abrir mão do governo local.

Entre maio e junho, as tropas de Paes de Andrade começaram a agir contra o governo rival, que se retirou para Alagoas, aguardando reforços do imperador. Já era claro que o conflito não se restringiria a disputas políticas. Em 2 de julho de 1824, foi proclamada a Confederação do Equador. O nome fazia referência à linha do Equador, próxima ao território nordestino, e simbolizava a tentativa de criar uma união de províncias autônomas.

Inspirados pela experiência de 1817, os confederados defenderam um regime republicano e federalista, em oposição ao modelo centralizador de Dom Pedro I. A revolta rapidamente recebeu a adesão das províncias da Paraíba, do Ceará e do Rio Grande do Norte, contando com o apoio de militares, políticos e religiosos que buscavam um Brasil mais descentralizado.

O imperador reagiu sem demora, enviando tropas que, com a ajuda de aliados locais, estabeleceram uma forte repressão. A rebelião na Paraíba e no Rio Grande do Norte foi rapidamente sufocada. O Ceará resistiu um pouco mais, mas, em 12 de setembro de 1824, a revolta foi militarmente derrotada. 

A fuga foi a solução encontrada por alguns. Manoel de Carvalho Paes de Andrade conseguiu escapar para a Inglaterra com sua família. Já Frei Caneca, considerado o símbolo intelectual e político da Confederação, foi preso e executado, tornando-se o mártir mais lembrado da causa.

O que os confederados realmente queriam?

Segundo o historiador Luiz Geraldo Silva, os confederados não buscavam “esquartejar o império” e fundar novos países. Seu objetivo principal era garantir o pacto constitucional firmado na Independência e propor um modelo alternativo de organização para o Brasil, mais descentralizado e diferente do projeto autoritário imposto pelas elites do Sul e pela corte do Rio de Janeiro.

A Confederação do Equador foi uma das mais fortes contestações ao poder de Dom Pedro I. Embora tenha sido breve e violentamente derrotada, deixou lições fundamentais ao expor as profundas divisões do Brasil recém-independente e a força das províncias do Norte na defesa de projetos federalistas. A Confederação foi, em suma, uma tentativa frustrada de construir um projeto alternativo de Estado Imperial.

Por que Pernambuco se revoltava tanto?

Pernambuco tem uma longa história de lutas e contestações, o que ajuda a entender o clima de insatisfação que eclodiu em 1824.

  • Durante o domínio holandês (1630-1654), sob o governo de Maurício de Nassau, a região experimentou certa liberdade e organização autônoma, o que marcou a memória da província.
  • A Restauração Pernambucana, quando os pernambucanos expulsaram os invasores, reforçou a ideia de que poderiam se governar sozinhos.
  • Com a Guerra dos Mascates (1710), já surgiam os primeiros debates sobre a criação de uma república em Pernambuco.
  • A Revolução Pernambucana de 1817, embora fracassada, foi muito lembrada e consolidou ideias de republicanismo, resistência à dominação portuguesa e crítica à monarquia.

Esses antecedentes formaram o que Ulysses de Carvalho Brandão chamou de “gênio pernambucano” de autonomia. Além disso, após a Independência em 1822, muitos pernambucanos sentiram-se prejudicados: o dinheiro da província era enviado para o Rio de Janeiro, mas pouco retornava em benefícios. A dissolução da Assembleia Constituinte por Dom Pedro I em 1823 foi a gota d’água, deixando claro que o imperador desejava governar sem dividir o poder com as províncias.

A Proclamação da Confederação do Equador

Em 2 de julho de 1824, lideranças de Pernambuco proclamaram oficialmente a Confederação do Equador. Eles defendiam:

  • uma república, em vez da monarquia;
  • um sistema federalista, no qual cada província teria autonomia;
  • medidas ousadas, como a abolição do tráfico de escravos.

O movimento se espalhou rapidamente, com levantes na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte. Até regiões mais distantes, como o Maranhão, sentiram os ecos da revolução.

O Sertão entra em cena

É possível afirmar que foi nos sertões e nas áreas rurais que o movimento mostrou sua força real. Na Paraíba, a participação popular foi intensa, especialmente na vila do Brejo, enquanto a vila de Areia liderou importantes levantes contra o presidente nomeado pelo imperador. O maior momento de luta ocorreu na Batalha de Riacho das Pedras, em 24 de maio de 1824, perto de Itabaiana, com quase 2 mil combatentes e 113 mortos. Após a derrota, os rebeldes recuaram em direção ao Ceará, tentando reorganizar a resistência. 

No Agreste pernambucano, os indígenas de Cimbres também se mobilizaram. Eles não se uniram diretamente aos confederados, mas tomaram uma posição política em favor de Dom João VI, pois acreditavam que, assim, protegeriam suas terras coletivas. Isso demonstra como os povos indígenas interpretaram a crise segundo seus próprios interesses, exercendo sua autonomia.

No Ceará, o movimento teve um caráter ainda mais popular. No Crato, em 1823, muitos “cabras” (mestiços e trabalhadores pobres) se revoltaram contra o recrutamento para o Exército. Segundo historiadores, essas camadas mais baixas não obedeciam simplesmente aos líderes da elite; agiam com autonomia e sonhavam com transformações sociais mais profundas, evocando até mesmo lembranças da Revolução Haitiana.

No Maranhão, as ideias confederadas ressurgiram em 1828, com a chamada República de Pastos Bons. Esse eco tardio mostra como os ideais republicanos não morreram com a derrota de 1824, mas continuaram a circular, especialmente no sertão.

A Retirada e a criação da Divisão Constitucional

Quando Recife caiu em setembro de 1824, parecia que tudo estava perdido, mas a resistência continuou no interior. Foi criada a Divisão Constitucional da Confederação do Equador, formada por soldados, milícias populares, camponeses e até famílias que acompanhavam os revoltosos na fuga. Alguns líderes importantes, como Pedro Ivo e Frei Caneca, uniram-se a esse grupo.

Eles marcharam em direção ao Ceará, improvisando trilhas e abrindo caminho na mata com foices e machados, muitas vezes sobrevivendo de cana-de-açúcar. No percurso, enfrentaram batalhas duras, como em Couro d’Anta, onde o jornalista revolucionário João Soares Lisboa foi gravemente ferido. A odisseia terminou em 29 de novembro de 1824, já em território cearense, quando os rebeldes foram cercados e enganados com falsas promessas de paz. Os últimos sobreviventes, entre eles Frei Caneca, foram presos. Frei Caneca acabaria se tornando o mártir mais lembrado da Confederação, sendo executado no Recife.

O Significado da Confederação e seus ecos no Sertão

A Confederação do Equador foi muito mais do que uma rebelião regional; ela colocou em confronto dois projetos de país. Mesmo derrotada, a Confederação deixou um legado republicano e federalista que seria retomado ao longo do século XIX.

E aqui reside o ponto essencial: o sertão não foi apenas um cenário de apoio ou refúgio. Foi um espaço de mobilização, confronto e resistência, onde ocorreram as batalhas mais longas, onde os ideais ganharam capilaridade popular e onde se deu a última luta armada do movimento. O sertão, nesse sentido, ajudou a manter vivo o projeto revolucionário. Ele mostrou como, para além das elites urbanas, camadas populares — mestiços, camponeses e indígenas — também tiveram um papel ativo na construção do debate sobre que tipo de Brasil estava nascendo. 

Considerações Finais

A Confederação do Equador (1824) foi um dos momentos mais intensos da história brasileira no século XIX. Seu fim teve um custo alto: mortes, prisões e uma repressão violenta. Mas sua memória perdurou. O sertão nordestino, longe de ser periférico, foi protagonista: alimentou a luta, sustentou a resistência e tornou-se um símbolo de coragem diante do poder imperial.

Assim, ao olharmos para a Confederação do Equador, não vemos apenas uma revolta pernambucana ou um episódio isolado. Vemos uma batalha entre projetos para o Brasil: um centralizado e monárquico, outro descentralizado e republicano.

Referências

BRANDÃO, Ulisses de Carvalho Soares. A Confederação do Equador. Pernambuco: Officinas Gráficas da Repartição de Publicações Oficiais, 1924.

CÂNDIDO, Tyrone Apolo Pontes. “A anarquia das classes baixas”: radicalismo popular nas lutas da independência no Ceará, 1821-1824. In: SOUZA, George F. Cabral de; CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel de (Orgs.). Confederação do Equador: a luta pela cidadania na construção do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2025. p. 531.

CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel. Cavalcantis e Cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco, 1817-1824. Revista Brasileira de História (ANPUH), São Paulo, v. 18, n. 36, p. 331-365, jan./jul. 1998. 

DANTAS, Mariana Albuquerque. Políticas indígenas e enfrentamentos armados na Confederação do Equador (Pernambuco e Alagoas). In: SOUZA, George F. Cabral de; CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel de (Orgs.). Confederação do Equador: a luta pela cidadania na construção do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2025. p. 96.

GALVES, Marcelo Cheche; ARAÚJO, Roni César Andrade de. Repercussões do republicanismo de 1824 no Maranhão de 1828: a República de Pastos Bons. In: SOUZA, George F. Cabral de; CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel de (Orgs.). Confederação do Equador: a luta pela cidadania na construção do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2025. p. 637.

LEITE, Glacyra Lazzari. Pernambuco 1824: A Confederação do Equador. Recife: FUNDAJ, Editora Massangana, 1989.

MELLO, Evaldo Cabral. A outra independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824. São Paulo: Editora 34, 2014.

MELO, Josemir Camilo de. “A Paraíba é tão vizinha de Pernambuco, os hábitos e costumes de seus habitantes são tão semelhantes”: a Confederação do Equador em Pernambuco e Paraíba. In: SOUZA, George F. Cabral de; 

SILVA, Luiz Geraldo. Um projeto para a nação. Tensões e intenções políticas nas “Províncias do Norte”. Revista de História (USP), São Paulo, n. 158, p. 199-216, jan./jul. 2008. SOUZA, George F. Cabral de CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel de (Orgs.). Confederação do Equador: a luta pela cidadania na construção do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2025. p. 573.

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Ainda sobre Outras Independências: conflitos e mobilização política no Sertão de Pernambuco https://caminhosdarevolta.com.br/ainda-sobre-outras-independencias-conflitos-e-mobilizacao-politica-no-sertao-de-pernambuco/ https://caminhosdarevolta.com.br/ainda-sobre-outras-independencias-conflitos-e-mobilizacao-politica-no-sertao-de-pernambuco/#respond Tue, 26 Aug 2025 01:07:48 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=407 A história da Independência do Brasil que aprendemos na escola muitas vezes parece um caminho reto, que levaria inevitavelmente ao 7 de setembro de 1822. Mas a realidade foi bem mais complicada e cheia de reviravoltas. A Independência não foi um evento único, e sim o resultado de um verdadeiro cabo de guerra entre diferentes grupos com ideias muito distintas para o futuro do país.

O projeto que venceu — um Brasil unificado sob a monarquia de Dom Pedro I, com poder centralizado no Rio de Janeiro — não era a única opção na mesa. Havia alternativas que acabaram derrotadas e até mesmo o receio, entre os donos de escravos, de que acontecesse aqui uma grande rebelião de escravizados, como a vitoriosa revolução que libertou o Haiti (então Saint-Domingue) do domínio francês. O objetivo aqui é contar essa história sem heróis idealizados, mostrando as disputas e contradições daquele momento.

Podemos entender um pouco desse processo observando o que ocorreu na província de Pernambuco. Desde que a família real portuguesa se instalou no Rio de Janeiro em 1808, todas as ordens vinham de lá. Muitas elites locais não estavam satisfeitas com isso e ficaram animadas quando uma revolução liberal em Portugal, em 1820, permitiu que as províncias brasileiras elegessem seus próprios governantes por meio de Juntas de Governo — um movimento do qual Bahia e Pará foram pioneiras.

Essa ideia, conhecida como federalismo, ganhava cada vez mais espaço e popularidade no debate público, inspirada pela independência dos Estados Unidos e pelo início dos processos de emancipação das colônias espanholas na América. Significava que cada província teria mais autonomia para tomar as próprias decisões e, principalmente, para controlar o dinheiro arrecadado em seu território, em vez de enviá-lo para o Rio. Era um primeiro passo para um autogoverno que agradava a muitos.

Contudo, essa proposta de autonomia não agradava a todos, especialmente a D. Pedro e seus aliados, liderados por José Bonifácio de Andrada e Silva. Ambos enviaram emissários às províncias para convencer a população, focando nas elites políticas e econômicas das vilas. Esse grupo era formado por grandes proprietários de terras e de escravos, comerciantes e homens que ocupavam postos importantes em instituições administrativas e militares, além de ostentarem títulos que lhes conferiam nobreza e poder local. Por isso, a adesão de Pernambuco ao projeto do Rio de Janeiro não foi voluntária nem pacífica. Inclusive, diferente do que muita gente pensa, o Brasil teve guerras de independência, com mobilizações militares e focos de resistência em províncias como Bahia, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Cisplatina (hoje Uruguai).

O historiador Evaldo Cabral de Mello, em sua análise sobre o processo em Pernambuco, relata um episódio ilustrativo. Ele argumenta que o emissário enviado para negociar com a Junta pernambucana — comandada pelo comerciante Gervásio Pires Ferreira e outras famílias influentes — chegou a prometer quase tudo que o grupo reivindicava. O objetivo era garantir a adesão ao projeto do Rio de Janeiro, liderado por D. Pedro e organizado por seu ministro José Bonifácio, mesmo que para isso fosse preciso fazer promessas conflitantes entre si.

Como afirmamos no início, havia outros projetos de independência em disputa. Seria impensável que, em um território tão vasto e diverso, todos tivessem a mesma ideia de nação. Havia uma pluralidade de grupos políticos e sociais, homens e mulheres trazidos à força de diferentes regiões da África e seus descendentes (livres ou libertos), além de inúmeras etnias indígenas que resistiam em suas terras. Justamente por essa complexidade, foi necessário que o príncipe D. Pedro e Bonifácio enviassem seus agentes para negociar, persuadir e, quando preciso, impor o seu projeto de Brasil.

Contudo, isso não significa que todos os grupos sociais foram ouvidos e participaram de forma igualitária no debate da independência e da formação do Estado Imperial. A historiografia recente tem apontado que, embora grupos como escravizados, libertos, pessoas de cor livres, homens e mulheres das classes baixas e indígenas tenham participado ativamente do processo, lutando e reivindicando suas pautas, eles foram, na maioria das vezes, deixados de lado nas decisões políticas das vilas e províncias.

Houve exceções, claro. Em algumas províncias, esses grupos tiveram mais autonomia e possibilidade de diálogo do que em outras. Mas Pernambuco é um exemplo claro de um lugar onde a participação desses grupos no processo de decisão foi severamente limitada pela atuação das elites locais.

A participação das vilas e regiões do sertão de Pernambuco no processo de independência do Brasil insere-se precisamente nessa questão. Nas principais obras sobre o tema em Pernambuco, são raras as análises que abordam a atuação da população do interior da província nesse momento. É uma história que precisa ser construída. Aqui, buscaremos apresentar um recorte desse processo, a partir da proposta do nosso projeto e em diálogo com textos de outros colegas.

Com certeza. O material que você reuniu é riquíssimo, mas está fragmentado como notas de pesquisa. Meu trabalho aqui será o de um tecelão: vou entrelaçar esses fios de informação em uma narrativa coesa, que flui diretamente do que já estabelecemos.

A ideia é transformar essa coleção de eventos, nomes e datas em uma história viva que demonstre, com provas documentais, como a Independência foi um processo construído ativamente no sertão, com suas próprias tensões, projetos e protagonistas.

Enquanto isso, no Sertão: A Independência em Carne e Osso

Se a história da Independência costuma ser contada a partir dos salões do Rio de Janeiro ou dos campos de batalha na Bahia, os documentos empoeirados da antiga Comarca do Rio São Francisco, no sertão de Pernambuco, nos oferecem uma perspectiva diferente e fundamental. Eles revelam como a construção de um país se dava na prática, no cotidiano de pequenas vilas distantes centenas de quilômetros do poder central. Longe de serem meros espectadores, os habitantes do sertão foram agentes ativos, negociando, conflitando e, finalmente, elaborando seu próprio projeto de futuro em meio à crise do Império português.

1. As Bases da Crise: Ordem, Justiça e Autonomia (1820-1821)

Antes mesmo que o grito do Ipiranga ecoasse pelo país, o sertão já fervilhava com as tensões da formação do Estado. A criação da Comarca do Rio São Francisco em 1820 foi o ponto de partida. Imediatamente, surgiram os desafios práticos: como governar um território tão vasto? A primeira medida do governador Luís do Rego Barreto foi ordenar a criação de um serviço de correios, passo essencial para a comunicação e o controle administrativo.

Ao mesmo tempo, a população local pressionava por seus interesses. Moradores reclamavam da ausência de juízes letrados, o que os forçava a longas e perigosas viagens para resolver disputas e garantia a impunidade de crimes graves. Em vilas como Pilão Arcado, a nomeação de oficiais e os conflitos entre potentados locais, como o Capitão-mor e seus desafetos, exigiam a intervenção constante do governo provincial.

Nesse cenário, a maior reivindicação era por autonomia. Povoados como Campo Largo e Carinhanha lutavam para serem elevados à categoria de vila, o que lhes daria uma Câmara Municipal e mais controle sobre seus próprios assuntos. A luta não era apenas por status, mas por sobrevivência e desenvolvimento, como argumentavam os moradores de Carinhanha ao citar sua importância comercial e a enorme distância da sede, a Vila da Barra.

2. A Ruptura: Brasileiros vs. Portugueses no Coração do Sertão (1822)

A crise política nacional chegou ao sertão e ganhou um rosto: o do ouvidor português João Carlos Leitão. Nomeado no final de 1821, ele inicialmente pareceu um administrador dedicado, apoiando a criação da vila de Carinhanha e mediando disputas de terra. Contudo, à medida que a tensão entre Brasil e Portugal crescia, sua lealdade foi posta em xeque.

Em junho de 1822, as Câmaras foram ordenadas a realizar o juramento às Cortes de Lisboa, mas o sentimento de separação já era forte. Em novembro, a situação explodiu. A Câmara da Vila da Barra, suspeitando que o ouvidor, por ser europeu, pudesse fugir e se unir às tropas portuguesas na Bahia, o intimou a aclamar Dom Pedro e jurar obediência às novas Cortes brasileiras. Pressionado e acuado, Leitão teria respondido com desdém: “Jurarei quando quizerem”. O juramento ocorreu sob coação e, logo depois, o ouvidor fugiu da Comarca, personificando a ruptura definitiva com a autoridade portuguesa na região.

3. A Adesão à Causa: Guerra, Política e um Projeto para o Futuro (1823)

Com a ruptura consolidada, o sertão abraçou a causa da Independência com fervor. Em 1º de janeiro de 1823, mesmo sem uma ordem direta do governo, a Câmara da Vila da Barra aclamou solenemente Dom Pedro I como Imperador do Brasil.

Mas a adesão não foi apenas simbólica. A região se mobilizou para a guerra. Discutiu-se o envio de armas para apoiar a luta contra as forças portuguesas em Oeiras (Piauí). O padre José Lúcio do Bomfim fez uma proclamação inflamada, convocando a população a formar o “Batalhão do Rio de São Francisco” para socorrer o exército na Bahia, bradando com orgulho: “porque também somos Pernambucanos“.

Foi nesse momento de efervescência que surgiu o mais audacioso projeto político local. Em 21 de julho de 1823, em uma reunião na Vila da Barra para preparar as reivindicações aos deputados eleitos para a Assembleia Constituinte, uma proposta revolucionária foi formalizada: a criação da Província do Rio São Francisco.

A justificativa era a mesma que por anos alimentara as queixas locais: a enorme distância da capital, Recife, que dificultava o acesso à justiça e aos recursos. A proposta era a expressão máxima do ideal federalista no sertão, um desejo de autogoverno que ecoava as disputas políticas de todo o Brasil. Eles não queriam apenas pertencer ao novo Império; queriam moldá-lo segundo seus próprios interesses, transformando sua remota comarca em uma província autônoma.

Mesmo que a proposta não tenha vingado, ela revela o vigor político de uma região frequentemente vista como periférica. Os fragmentos de documentos, embora incompletos, pintam um quadro claro: a Independência no sertão foi um processo de intensa negociação, conflitos violentos e, acima de tudo, de uma clara consciência política, onde homens e mulheres comuns, longe dos centros de poder, ajudaram a dar forma e sentido à nação que nascia.

Considerações Finais

Ao percorrer os caminhos sinuosos que levaram à Independência do Brasil, torna-se evidente que estamos diante de um processo histórico vivo e contraditório, e não de uma data cívica engessada no tempo. A narrativa aqui construída buscou deliberadamente se afastar da imagem de um evento monolítico, fruto da vontade de poucos heróis, para revelá-lo como um campo de disputas, um mosaico de projetos concorrentes e de realidades locais distintas que, juntas, deram forma à nação que nascia.

É nesse sentido que o mergulho na documentação do sertão pernambucano se revela tão fundamental. Longe das grandes narrativas, são as miudezas do cotidiano administrativo que nos mostram as verdadeiras engrenagens da formação do Estado. A criação de um serviço de correios, a anulação de uma eleição local, a queixa contra um ouvidor corrupto ou a mobilização para construir uma igreja não são meros detalhes pitorescos; são a materialização da política no nível mais elementar e, talvez por isso, mais autêntico.

O sertão, frequentemente visto como um espaço periférico e passivo, surge nesta análise como um palco de intensa atividade política. A proposta de criação da Província do Rio São Francisco, nascida no calor dos debates de 1823, não foi uma utopia local, mas a mais clara expressão regional de um anseio por autonomia que percorria todo o Brasil e que definiria os grandes conflitos políticos do Império e da República.

Portanto, revisitar a Independência sob esta ótica é mais do que um exercício de correção histórica. É compreender as origens de tensões que marcam o Brasil até hoje: a luta perene entre um poder centralizador e as autonomias regionais; o abismo entre os projetos formulados pelas elites e as demandas concretas das populações locais; e a persistente invisibilidade de um Brasil profundo, distante dos centros de decisão.

A Independência, afinal, não terminou em 1822. Ela deixou em aberto questões fundamentais sobre o país que queríamos ser, e cujas respostas ainda buscamos construir no presente.

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