Textos de Colaboradores – Caminhos da Revolta https://caminhosdarevolta.com.br Wed, 11 Mar 2026 00:46:49 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://caminhosdarevolta.com.br/wp-content/uploads/2025/07/faficon_Prancheta-1-copia.png Textos de Colaboradores – Caminhos da Revolta https://caminhosdarevolta.com.br 32 32 A ditadura civil-militar no interior Pernambucano: experiências e singularidades do Agreste ao Sertão https://caminhosdarevolta.com.br/a-ditadura-civil-militar-no-interior-pernambucano-experiencias-e-singularidades-do-agreste-ao-sertao/ https://caminhosdarevolta.com.br/a-ditadura-civil-militar-no-interior-pernambucano-experiencias-e-singularidades-do-agreste-ao-sertao/#respond Wed, 11 Mar 2026 00:45:36 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=1073
Adauto Guedes Neto
Professor de História do Tempo Presente da Universidade de Pernambuco (Campus Petrolina)

A ditadura civil-militar brasileira (1964–1985) produziu experiências múltiplas e heterogêneas em diferentes regiões do país. Embora a historiografia tenha privilegiado, por muito tempo, os grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro, São Paulo e Recife, estudos mais recentes têm demonstrado que o regime autoritário assumiu feições próprias no interior nordestino. No caso de Pernambuco, particularmente no Agreste e no Sertão, a compreensão desse período exige atenção às dinâmicas locais de poder, às relações entre Igreja, Estado e elites agrárias, bem como às formas específicas de vigilância e repressão que nem sempre se expressavam por meio de prisões espetaculares ou confrontos abertos. Nesse contexto, a experiência da chamada Teologia da Enxada, desenvolvida na cidade de Tacaimbó entre 1969 e 1971, constitui um caso singular para compreender a presença e a atuação da ditadura no interior pernambucano.

A Teologia da Enxada foi um projeto de formação presbiteral que rompeu, em muitos aspectos, com o modelo tradicional dos seminários. Inspirada pelas orientações pastorais e teológicas do Concílio Vaticano II, essa experiência buscava construir um “novo jeito de ser Igreja”, profundamente comprometido com os pobres e com a realidade social do campo. Em vez de uma formação isolada em instituições clericais distantes do cotidiano das comunidades, os seminaristas passaram a viver e trabalhar junto às populações rurais, participando das atividades agrícolas e inserindo-se na vida comunitária. A enxada, símbolo do trabalho camponês, tornou-se também um elemento pedagógico e espiritual, articulando fé, prática social e reflexão pastoral.

Nesse sentido, a formação realizada em Tacaimbó dialogava diretamente com as transformações que ocorriam na Igreja latino-americana no final da década de 1960, sobretudo após a Conferência de Medellín, que enfatizou a opção preferencial pelos pobres e a necessidade de uma presença eclesial comprometida com a justiça social. A Teologia da Enxada procurava formar padres preparados para atuar no meio rural, atentos às experiências de vida das comunidades camponesas e às expressões da religiosidade popular. A fé era compreendida não apenas como doutrina, mas como prática vivida no cotidiano, marcada por romarias, devoções, celebrações comunitárias e formas próprias de organização social.

Entretanto, essa proposta pastoral e formativa ocorreu em um momento de forte endurecimento do regime autoritário brasileiro. O final da década de 1960 foi marcado pela intensificação da repressão política, especialmente após a promulgação do AI – 5, em 1968. Nesse contexto, qualquer iniciativa que envolvesse organização popular, crítica social ou atuação junto aos pobres poderia ser interpretada pelos órgãos de segurança como potencial ameaça à ordem estabelecida. Foi exatamente o que ocorreu com a experiência da Teologia da Enxada.

Documentos produzidos por órgãos de informação da ditadura demonstram que seminaristas, padres e agentes pastorais ligados a essa iniciativa foram monitorados e investigados. A vigilância se dava por meio de relatórios, infiltrações e acompanhamento de atividades religiosas e comunitárias. Missas, reuniões pastorais e encontros de formação eram

observados por agentes que buscavam identificar possíveis vínculos com organizações consideradas subversivas. Nos registros produzidos por esses órgãos, a formação realizada em Tacaimbó passou a ser associada a ideias consideradas perigosas, e seus participantes foram rotulados como “comunistas” “Subversivos” ou “agitadores”.

A presença dessa vigilância evidencia uma característica importante da ditadura no interior: a repressão frequentemente se manifestava de maneira silenciosa e difusa. Diferentemente do que ocorreu em grandes cidades, onde prisões políticas e confrontos ganharam visibilidade pública, no interior pernambucano o controle social era exercido por meio de redes locais de poder, articulações entre autoridades políticas, elites agrárias e agentes do Estado. Informações circulavam entre delegacias, quartéis, prefeituras e setores conservadores da sociedade, produzindo um ambiente de suspeita e intimidação.

Assim, compreender a ditadura no interior não significa apenas identificar episódios de resistência organizada, mas também analisar as formas sutis de vigilância e controle que permeavam o cotidiano das comunidades. No caso da Teologia da Enxada, a espionagem sobre seminaristas e lideranças religiosas revela como o regime buscava acompanhar e neutralizar experiências que pudessem fortalecer a organização popular no campo.

Outro aspecto fundamental para entender as singularidades da ditadura no interior pernambucano diz respeito ao papel das elites locais e de setores políticos que apoiavam o regime. Prefeitos, fazendeiros e lideranças regionais frequentemente atuavam como mediadores entre o poder central e as realidades locais, contribuindo para consolidar a autoridade do regime. Em muitas regiões do Agreste e do Sertão, essas elites estavam diretamente interessadas na manutenção da ordem social e na repressão de iniciativas que pudessem questionar a estrutura fundiária ou fortalecer a organização dos trabalhadores rurais.

Nesse cenário, grandes projetos de desenvolvimento implementados pelo governo militar tiveram impactos profundos sobre as populações do interior. Um dos exemplos mais significativos foi a construção da Usina Hidrelétrica de Itaparica, no rio São Francisco, conduzida pela CHESF, empresa subsidiária da Eletrobras e vinculada ao Ministério de Minas e Energia do regime. Apresentado como símbolo do progresso e da modernização nacional, o empreendimento resultou no deslocamento de milhares de pessoas e na transformação radical do território sertanejo.

Militares inaugurando obras públicas no interior a partir de recursos do projeto Aliança para o progresso, financiado com recursos dos EUA para conter o avanço do comunismo no Brasil. Fonte: Arquivo Pessoal de Carlos Leite Barros, ex-prefeito de Tacaimbó.

As populações atingidas pela barragem enfrentaram processos de desapropriação marcados por conflitos, ausência de diálogo e desrespeito aos direitos humanos. Comunidades inteiras foram removidas de suas terras, muitas vezes sem garantias adequadas de reassentamento ou condições dignas de vida. O discurso do desenvolvimento, amplamente difundido pela propaganda oficial do regime, contrastava com a experiência concreta de agricultores, pescadores e moradores das áreas inundadas pelo lago de Itaparica.

A análise desse processo permite compreender como a ditadura civil-militar também se expressou por meio de políticas econômicas e projetos de infraestrutura que reforçaram desigualdades e produziram novas formas de violência social. No interior de Pernambuco, o autoritarismo não se limitava aos aparelhos repressivos tradicionais; ele se materializava também na imposição de grandes obras, na redefinição do uso do território e na marginalização de populações consideradas obstáculos ao progresso.

Sendo assim, a experiência da Teologia da Enxada e o processo de construção da barragem de Itaparica revelam dimensões complementares da ditadura no interior pernambucano. De um lado, a formação pastoral inspirada pelo Concílio Vaticano II expressava uma tentativa de construir práticas religiosas comprometidas com os pobres e com a transformação social. De outro, os projetos desenvolvimentistas do regime evidenciavam a força de um modelo autoritário de modernização, que subordinava territórios e populações aos interesses do Estado e de grandes empresas.

A articulação entre essas duas experiências permite ampliar a compreensão historiográfica sobre o período. Ao analisar a atuação da Igreja progressista em regiões rurais e os impactos de grandes empreendimentos estatais, torna-se possível perceber que o interior foi também um espaço central de disputa política durante a ditadura. Ali se confrontavam diferentes projetos de sociedade: de um lado, iniciativas que buscavam fortalecer a organização popular e a dignidade das comunidades; de outro, políticas que priorizavam a expansão econômica e o controle social.

A historiografia recente sobre o tema, tem demonstrado que o estudo da ditadura fora dos grandes centros urbanos contribui para revelar novas perspectivas sobre o período. Pesquisas sobre a Igreja no Nordeste, sobre a atuação pastoral em áreas rurais e sobre os conflitos decorrentes de grandes obras públicas evidenciam que o regime autoritário se manifestou de formas variadas, muitas vezes invisibilizadas pela narrativa tradicional.

No caso de Tacaimbó, a documentação produzida por órgãos de segurança e pelos próprios participantes da experiência pastoral constitui um acervo fundamental para compreender as tensões entre Igreja, Estado e sociedade no contexto da ditadura. Esses registros permitem reconstruir não apenas a trajetória da Teologia da Enxada, mas também as estratégias de vigilância e controle utilizadas pelo regime no interior. Ao mesmo tempo, os estudos sobre a construção da barragem de Itaparica e os impactos sociais desse empreendimento evidenciam a centralidade do Nordeste nos projetos de desenvolvimento do governo militar. A análise dessas experiências revela como a lógica autoritária se articulava com interesses econômicos e com a atuação de empresas estatais, produzindo efeitos duradouros sobre as populações locais. Portanto, compreender as singularidades da ditadura civil-militar no interior de

Pernambuco implica reconhecer a complexidade das relações entre religião, política e economia no período. A Teologia da Enxada, ao propor uma formação presbiteral enraizada na vida dos pobres e nas práticas da fé popular, representou uma experiência inovadora e, ao mesmo tempo, alvo de suspeita e repressão. Já a construção da barragem de Itaparica simboliza a face desenvolvimentista e autoritária do regime, marcada pela imposição de grandes projetos e pela marginalização das comunidades atingidas. O estudo dessas experiências não apenas amplia o conhecimento sobre o passado autoritário do país, mas também permite refletir sobre os legados desse período nas dinâmicas sociais e territoriais do presente. A memória da Teologia da Enxada e das populações atingidas por Itaparica continua a desafiar a historiografia e a convidar a novas investigações sobre a ditadura no interior brasileiro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADILSON FILHO, José (Org.). Ecos da ditadura militar no Brasil profundo (1964- 1985). João Pessoa: Editora do CCTA, 2025.

Militares inaugurando obras públicas no interior a partir de recursos do projeto Aliança para o progresso, financiado com recursos dos EUA para conter o avanço do comunismo no Brasil. Fonte: Arquivo Pessoal de Carlos Leite Barros, ex-prefeito de Tacaimbó.

BAUER, Caroline Silveira; GERTZ, René E. Fontes sensíveis da história recente. IN: PINSKY, Carla Bassanezi; LUCA, Tania Regina de (Org.). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2012.

FICO, Carlos. Como eles agiam. Os subterrâneos da ditadura militar: espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001.

GOMES, Paulo César. OsBisposCatólicoseaDitaduraMilitarBrasileira: a visão da espionagem. Rio de Janeiro: Record, 2014.

GUEDES NETO, Adauto. TeologiadaEnxadaeDitaduraMilitar: relações de poder e fé no agreste pernambucano entre 1964 e 1985. Jundiaí-SP: Paco Editorial, 2014.

SCOTT, Parry. Negociações e resistências persistentes: agricultores e a barragem de Itaparica num contexto de descaso planejado. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2009.

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Homens e mulheres pobres e o mito do retorno de D. Sebastião na Serra do Rodeador https://caminhosdarevolta.com.br/homens-e-mulheres-pobres-e-o-mito-do-retorno-de-d-sebastiao-na-serra-do-rodeador/ https://caminhosdarevolta.com.br/homens-e-mulheres-pobres-e-o-mito-do-retorno-de-d-sebastiao-na-serra-do-rodeador/#respond Tue, 03 Feb 2026 20:10:27 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=1040 Flávio José Gomes Cabral
Professor de História na Universidade Católica de Pernambuco

Em 1820, o governo pernambucano, capitaneado pelo general Luís do Rego Barreto, foi cientificado de que, nos sertões de Bonito, trabalhadores rurais haviam se arranchado no sopé da Serra do Rodeador para ouvir pregações que falavam sobre o desencantamento de el-rei D. Sebastião, soberano português conhecido como o Rei Desejado, morto em 1578 em combate com os mouros nos areais marroquinos de Alcácer-Quibir. O desafortunado monarca, que desde seu nascimento foi aguardado, ou melhor, “desejado”, como aquele que continuaria a dinastia e evitaria uma possível anexação de Portugal pela Espanha, desaparecera sem deixar herdeiros, deixando a nação desolada. No Sítio do Rodeador, ou Cidade ou Reino do Paraíso Terreal, como passou a ser conhecido um arraial ali organizado, o rei estava prestes a desencantar, quando então distribuía venturas aos crédulos. Nessa ocasião, as injustiças sociais acabariam inaugurando tempos miraculosos. Essas histórias eram transmitidas por Silvestre José dos Santos, um desertor das milícias locais, que, desde princípios do oitocentos, havia se arranchado naquele sítio, nas terras do sesmeiro João Francisco da Silva.

Em um primeiro momento, Silvestre se apresentou como trabalhador braçal ou como meeiro e, após realizar alguns acertos com o senhor daquelas terras, logrou algum sucesso, quando então convidou a parentela para ali se instalar. Ele provavelmente conhecia as histórias de D. Sebastião e do seu retorno, tanto que começou a pregar sobre os milagres do rei, atraindo para o local uma chusma de pessoas pobres e desempregadas, de origem afrodescendente, que ali ergueram cabanas, vivendo do amanho da terra. Os habitantes do Rodeador acalentavam sonhos de melhoria de vida; contudo, dificilmente seriam concretizados, porque o país, no tempo da sua independência, excluiu toda sorte de gente pobre em detrimento das famílias patriarcais que, desde tempos pretéritos, foram agraciadas com a posse de terras e comandavam a política.

A situação do povo pobre que vivia do trabalho rural em nada mudou com a chegada da família real ao país, em 1808; pelo contrário, tendeu a piorar. Os métodos de recrutamento militar afligiam esse povo, que se via privado de seus filhos, os quais eram desenraizados à força dos lares para servir a Coroa em diversos quartéis. Os gêneros alimentícios encareceram, e ampliou-se a carga tributária para cobrir os gastos da nova interiorizada nos trópicos. A gritaria era grande. O povo pobre, afrodescendente, que se arrebanhou para o Rodeador era proveniente de vários lugares, principalmente do Povoado de Bonito, dos Cariris Velhos, das regiões do Capibaribe, de Garanhuns e de Tracunhaém, com idades que variavam entre 20 e 60 anos. As mulheres eram maioria; contudo, pouco se sabe sobre o seu cotidiano. Todavia, cinco delas – Feliciana Maria da Conceição, Francisca Maria de Santana, Isabel Maria, Joana Evangelista e Manoela Maria – exerciam atividades importantes junto a uma irmandade ali organizada, o que consistia em novidade para uma época que excluiu as mulheres do exercício de atividades de destaque na sociedade.

As massas excluídas constantemente vagavam de lugar em lugar em busca de colocação, e, na Cidade do Paraíso Terreal, aparentemente encontraram a felicidade. Para aquela cidade convergiram centenas de pessoas que se abrigaram em diversas cabanas cobertas de palhas de catolé. O trabalho no Rodeador era coletivo, e o fruto da labuta agrícola era comercializado nas feiras da redondeza. Pela manhã, grande parte do povo cultivava a terra, e, à noite, rezava em uma pequena capela que abrigava as imagens de Nossa Senhora e do Senhor Bom Jesus. As rezas eram comandadas pelo próprio Silvestre e pelo cunhado Manoel Gomes das Virgens, também desertor, que o secundava em diversos ofícios. Findos os atos religiosos, os homens manejavam armas. Dizia-se que essas hostes um dia se reuniriam com as do Rei Desejado e, em marcha, lutariam contra os exércitos de D. João VI. Os exércitos sebastianistas seriam vitoriosos, quando então se inaugurariam tempos de felicidade com o desencanto de D. Sebastião.

Os habitantes da Cidade do Paraíso Terreal reclamavam das injustiças sociais, da falta de trabalho e da carestia. Esse quadro de penúria cresceu a partir do início dos Oitocentos e se agravou durante as fortes estiagens que se prolongaram ao longo dos anos de 1815 e 1818. Por ocasião desses infortúnios, muitos atravessadores, desejosos de ganhar dinheiro, aumentavam os preços das mercadorias, gerando desespero. Diante do exposto, havia, na capitania, desesperanças generalizadas que desaguaram na Revolução de 1817. A soldadesca há muito se encontrava desesperada com o atraso do soldo e com o recrutamento forçado, tanto que constantemente fugia das casernas. Não foi à toa que grande parte dos homens que viviam no Rodeador era desertora, inclusive o próprio Silvestre e seu cunhado. Para os habitantes daquele sítio, essas desventuras acabariam com a chegada do rei D. Sebastião.

À primeira vista, as primeiras informações sobre o ajuntamento do Rodeador chegaram até o governador Luís do Rego Barreto por intermédio das autoridades bonitenses. Posteriormente, foram infiltrados espiões na comunidade, que se passaram por conversos e colheram importantes informações sobre o cotidiano e o modus vivendi da Cidade do Paraíso Terreal, principalmente sobre o comportamento de seu povo, procedência, sexo, idade, profissão e aspirações. O governador acreditava que ali se maquinava um movimento contrarrevolucionário com o intuito de restaurar a Revolução de 1817.

Diante dessas desconfianças, Barreto ordenou que as autoridades redobrassem sua vigilância sobre o arraial, a fim de conhecer seus objetivos, pensamentos e com quem mantinham diálogos. Mesmo tomando ciência de que o povo arrebanhado naquele local era constituído por gente simples e seguidora do sebastianismo, ele não se convenceu, tanto que preparou exércitos para dissolver a citada comunidade. As estratégias de guerra foram cuidadosamente planejadas, tanto que o governador desejou comandá-las in loco; contudo, desistiu da ideia após tomar conhecimento da notícia da eclosão da Revolução do Porto, trazida pelo paquete inglês Chresterfield, que aportou em Recife no dia 22 de outubro de 1820.

Surpreso com as novidades, Luís do Rego resolveu permanecer em Recife, porque temeu que se organizasse algum movimento em solidariedade àquela revolução. Diante do exposto, delegou ao general Madureira Lobo que o substituísse no comando das tropas que se dirigiram para Bonito, a fim de desmontar a comunidade do Rodeador, que foi invadida em plena madrugada do dia 26 de agosto de 1820. A escolha dessa data não se tratou de obra do acaso, porque tinha-se conhecimento prévio de que, naquele dia, muita gente iria se reunir, atraída pelas histórias do desencantamento de D. Sebastião e pelo aparecimento de Nossa Senhora. Durante o cerco, registrou-se tremenda carnificina. A Cidade do Paraíso Terreal foi incendiada, e os que escaparam do cerco foram presos e remetidos para o Recife para responderem a inquérito; contudo, foram soltos por não se encontrar culpa alguma. A trajetória de vida das mulheres e dos homens do Rodeador abre janelas para que possamos conhecer a história de um Brasil rural e real do tempo de sua independência.

Para saber mais:

CABRAL, Flavio José Gomes. Paraíso Terreal: a Rebelião Sebastianista na Serra do Rodeador. Pernambuco, 1820. São Paulo, Annablume, 2004.

CABRAL, Flavio José Gomes. Sonhar e morrer por Dom Sebastião: História e cotidiano dos trabalhadores pobres e rebeldes do Rodeador (Pernambuco – 1820. In RÜCKERT, Fabiano et al (org.) Histórias da pobreza no Brasil. Rio Grande: Ed da FURG, 2019, p. 11-31. Disponível em: https://ppghistoria.furg.br/images/Cardozo2019_Pobreza.pdf Acesso: 31/01/2026.

HERMANN, Jacqueline. O movimento sebastianista da serra do Rodeador, Pernambuco na primeira metade do século XIX. In: ALMEIDA, Ângela Mendes et all. De sertões e espaços incivilizados. Rio de Janeiro: FAPERJ/MAUAD, 2001.

PALACIOS, Guilhermo. Messianismo e expropriação camponesa: uma nova expedição ao Reino da Pedra encantada do Rodeador. Pernambuco, 1820. Revista de História, v. 147, p. 71-108, 2002.

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Os sertões e suas conexões: comércio e ilegalidade entre Bahia e Pernambuco (1759-1780) https://caminhosdarevolta.com.br/os-sertoes-e-suas-conexoes-comercio-e-ilegalidade-entre-bahia-e-pernambuco-1759-1780/ https://caminhosdarevolta.com.br/os-sertoes-e-suas-conexoes-comercio-e-ilegalidade-entre-bahia-e-pernambuco-1759-1780/#respond Thu, 04 Dec 2025 19:13:30 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=1020 Jéssica Rocha de Sousa
Mestra em história pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

As grandes porções de terra que compunham a Colônia brasileira possuíam ainda no século XVIII, vastas áreas despovoadas e desconhecidas pelo Reino, os chamados “sertões”. O termo foi utilizado durante um bom tempo para designar terrenos que se encontravam fora do eixo litorâneo e que eram ilustres desconhecidas da maior parte dos habitantes da colônia brasileira e de seus ministros reais, sendo utilizado para referenciar tudo aquilo que fosse vago, estranho e afastado dos centros. Além disso, dado o modo como se desenvolveu a ocupação do território brasileiro – fixando-se primeiramente no litoral – e dos desafios impostos pela própria geografia nacional, os sertões eram compreendidos como espaços que não estavam totalmente submetidos administrativa e juridicamente à monarquia portuguesa.

Esse cenário só se modificou de modo definitivo com o descobrimento das minas de ouro nas Gerais. A descoberta foi sucedida de um vertiginoso adensamento populacional nas regiões interioranas, sobretudo entre as primeiras décadas do século XVIII. Dessa forma, foi necessário criar naqueles novos centros, aparatos administrativos e fiscais para regular e garantir os direitos régios sobre os recursos minerais ali encontrados. A ocupação dos territórios que margeavam as minas auríferas foi responsável por conectar uma grande malha espacial por meio de seus circuitos de comércio que movimentaram, principalmente as regiões interioranas das capitanias do Norte, incluindo as paragens sertanejas de Pernambuco e Bahia.

Em Pernambuco, desde fins do século XVII, as margens do Rio de São Francisco se desenvolveram como importante zona de criação de bovinos, sendo a área responsável pela distribuição de carnes e couros para as feiras da Bahia e de Pernambuco. No século XVIII, a região do Aracati, no Siara Grande, destacou-se como porto fornecedor de carnes salgadas e de couros, tornando-se um local muito visitado por comerciantes recifenses e baianos nos “tempos de carnes”, quando iam até a região fazer negócios. Nesse momento, – meados do século XVIII – já era possível penetrar no interior pernambucano seguindo o fluxo do São Francisco e seus afluentes por duas rotas, eram elas: o caminho do “Ipojuca” e o caminho do “Capibaribe”, que tinham no Rio Cariranha – região limítrofe entre as capitanias de Pernambuco, Bahia e Minas Gerais – seu ponto final. Ao longo desses caminhos, existiam diversos portos de pequeno porte por onde circulavam uma sortida gama de gêneros.

Os sertões setecentistas possuíam vitalidade e energia e são descritos nos documentos de época como locais propícios ao desenvolvimento de práticas mercantis. Para o período tratado nesse texto, estas relações assumiram contornos especiais. Afinal de contas, entre 1759 e 1780 o comércio em Pernambuco era monopolizado pela Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba. Paralelamente a um mercado legal e reconhecido, surgiu naqueles espaços uma série de atividades extralegais.

As redes comerciais estabelecidas entre Bahia e Pernambuco no período foram comumente associadas ao comércio clandestino. O contrabando de produtos e pessoas trazidos pelos portos da Bahia para Pernambuco e vice-versa foram uma constante durante o período de existência da Companhia monopolizadora.

A política econômica pombalina e o controle comercial: a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba

Sob influência do iluminismo que se disseminou por toda a Europa ao longo do século XVIII, o Estado português, sob liderança do Marquês de Pombal, desenvolveu um conjunto de reformas políticas e fiscais que buscavam combater o atraso econômico do Reino. Dentro desse contexto, foram postas em ação políticas com o intuito de revitalizar o comércio português.

Na capitania de Pernambuco, importante polo econômico da Conquista, essas ações foram colocadas em prática com a criação de organismos reguladores da economia local, a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba foi um deles. A empresa foi instituída com o propósito de fomentar a agricultura e o comércio na região, garantir o fornecimento de escravizados e transportar mercadorias entre a colônia e o reino. No entanto, a Companhia funcionava sob regime de monopólio, o que significava que apenas ela podia comercializar determinados produtos nas capitanias de Pernambuco e Paraíba.

Apesar das intenções oficiais, a Companhia logo se tornou alvo de críticas. A maior parte de seu capital pertencia a acionistas – homens de negócio – em Lisboa, e suas práticas comerciais, que envolviam venda de produtos por preços abusivos e pagamentos aos produtores por meio de crédito e não em moeda corrente (dinheiro), desagradavam os locais. Além disso, a instalação da empresa acabou por modificar toda uma lógica comercial baseada no livre comércio que já estava bem consolidada em Pernambuco. Diante do descontentamento geral, muitos senhores de engenho e lavradores passaram a buscar alternativas para escoar sua produção, recorrendo ao comércio com a capitania da Bahia, que não possuía uma companhia monopolista.

O Sertão como espaço de comércio extralegal

Fonte: ANDRADE, Manoel Correia de. A terra e o Homem no Nordeste. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas Ltda, 1980. P. 169.

Diante das restrições impostas pela Companhia Geral, os sertões que uniam Pernambuco e Bahia passaram a desempenhar um papel central nas práticas comercias extralegais. A região, caracterizada por vastas áreas repletas de rios navegáveis — sobretudo, o Rio São Francisco e seus afluentes —, serviu de rota para o contrabandode mercadorias entre as capitanias. Embarcações leves, como jangadas e sumacas, circulavam entre os pequenos portos sertanejos transportando toda uma variedade de produtos. Os contraventores, atuavam preferencialmente no período noturno o que dificultava ainda mais a fiscalização dessas transações ilegais por parte das autoridades coloniais, que no geral concentravam-se no porto de Recife.

Esse comércio ilegal não era esporádico ou improvisado: ele estava organizado em verdadeiras redes compostas por senhores de engenho, lavradores, comerciantes, mestres de embarcação e até mesmo comissários especializados nas práticas ilícitas. A documentação histórica revela que autoridades régias e membros da própria Companhia também se envolveram nessas atividades, permitindo a continuidade do contrabando ao longo de todo o período de vigência do monopólio.

Os sertões funcionavam como corredores de transporte alternativos onde circulavam uma grande variedade de produtos: açúcar, tabaco, madeira, couro, tecidos, mercadorias da Europa e da Índia, mel e até escravizados. As transações aconteciam de forma recorrente e bem estruturada. Em 1770, Manoel da Cunha Meneses, governador de Pernambuco a época, relatou ao rei como o sertão Pernambucano era “um dos mais povoados” daquele tempo, afirmando na mesma ocasião que as rotas fluviais nele existente eram amplamente utilizadas para a circulação de mercadorias entre Bahia e Pernambuco. Anos depois, em 1779, o ouvidor da comarca de Alagoas também dirigindo-se a Coroa, afirmava que o açúcar produzido nos engenhos pernambucanos já estava todo vendido a comerciantes baianos que transportavam a mercadoria através dos portos sertanejos durante a noite em pequenas e rápidas embarcações, que saíam daquelas regiões recorrentemente. As alegações contidas nos relatos acima, reforçam a existência de um comércio ilícito consolidado.

Essas atividades contavam com canais de comunicação, logística e distribuição bem definidos. Os produtos contrabandeados chegavam aos mercados de Olinda e Recife a preços mais baixos que os oferecidos pela Companhia, prejudicando seu monopólio e fomentando ainda mais a prática ilegal. Além disso, existia também, uma preocupação no sentido contrário, ou seja, com as mercadorias que saiam de Pernambuco e iam para Bahia sem passar pelas mãos da empresa, ou seja, sem pagar os tributos necessários.

Limitações de atuação da Companhia Geral

Merece destaque nessa discussão, a constatação de que o monopólio da Companhia não se aplicava a região dos sertões, como consta no próprio documento de sua fundação. A inexistência de uma legislação que precisasse até onde se estendia o poder de atuação da Companhia, quais portos eram considerados livres e quais mercadorias poderiam circular livremente sem ferir o privilégio mercantil da empresa, acabou permitindo que esses contrabandos e extravios continuassem a ser praticados de modo sistemático.

Essa falta de precisão geográfica e consequentemente jurisdicional é sintomática do profundo desconhecimento das autoridades reais a respeito dos “sertões” Pernambucanos e Baianos e de sua pulsante mercancia. Como definir limites e fronteiras de um território desconhecido? Se a Coroa portuguesa não estava atenta a importância dessa zona, o mesmo não pode ser dito dos homens de negócio pernambucanos, que anos antes da fundação da Companhia Geral, já haviam solicitado ao rei a criação de uma empresa mercante que explorasse de maneira legal as rotas sertanejas. Isso demonstra que o comércio naquela região era forte e estratégico, mesmo antes das medidas oficiais de controle ganharem força em Pernambuco.

Com a limitação do monopólio as áreas litorâneas e a fiscalização concentrada no porto de Recife, o crescimento da insatisfação local, fizeram com que os sertões se fortalecessem como espaços de resistência econômica. As mercadorias saíam das plantações e chegavam às vilas e cidades que margeavam os extensos canais fluviais que permeavam os sertões, de onde eram escoadas para outras regiões sem passar pelos trâmites oficiais.

Entre 1759 e 1787, o comércio nos sertões entre Bahia e Pernambuco destacou-se como uma importante alternativa frente às restrições impostas pelo monopólio da Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba. A região sertaneja, com seus rios, portos e população ativa, tornou-se palco de uma economia paralela que se organizava por meio de redes complexas, compostas por agentes locais e até autoridades coloniais.

Essa realidade evidencia como, apesar dos esforços da Coroa portuguesa para centralizar e controlar a economia colonial, os atores locais encontraram maneiras de resistir, negociar e manter de certo modo sua autonomia comercial. O sertão, longe de ser um espaço marginal, revela-se como parte essencial da dinâmica econômica e social da época, desafiando o modelo oficial e provando a força das conexões locais dentro do Império português.

Referências

SOUSA, Jéssica Rocha de. Nas rostas dos sertões: comércio interno e contrabando entre as capitanias de Pernambuco e Bahia (1759-1780). Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2018.

Manuscritos

Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) – Avulsos de Pernambuco Cx. 108 D.8371

Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) – Avulsos de Pernambuco Cx. 133, D. 10012

Anexo

Dicionário de Conceitos

  • Sertões

Regiões afastadas do litoral e dos grandes centros urbanos. No período colonial, eram áreas pouco exploradas e de difícil acesso.

  • Direitos Régios

Direitos régios eram os direitos e benefícios pertencentes ao rei, especialmente no que diz respeito à cobrança de impostos, taxas e lucros sobre atividades econômicas nas colônias. No comércio colonial, por exemplo, uma parte do valor das mercadorias vendidas legalmente deveria ser repassada à Coroa portuguesa como forma de arrecadação. Quando um produto era vendido sem pagar os direitos régios, ele era considerado contrabandeado. Ou seja, os direitos régios representavam o que o rei ganhava com o funcionamento da economia colonial.

  • Monopolizado

Quando apenas uma pessoa, empresa ou grupo tem o controle total de uma atividade econômica, sem concorrência. Exemplo: uma companhia que é a única autorizada a vender certos produtos.

  • Extralegais

Ações que não estão dentro da lei, mas que muitas vezes são toleradas. Um exemplo comum era o contrabando de produtos no período colonial.

  • Iluminismo

Movimento do século XVIII que defendia o uso da razão, a liberdade, a educação e o fim dos privilégios injustos. Suas ideias influenciaram várias revoluções.

  • Capital (empresa)

No contexto econômico, o capital de uma empresa é o dinheiro ou os bens investidos para que ela possa funcionar. No caso da Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba, a maior parte do capital vinha de investidores portugueses que moravam em Lisboa. Esses investidores compravam ações da companhia e esperavam lucrar com o comércio de produtos coloniais.

  • Livre Comércio

Prática econômica que defende a liberdade para comprar e vender sem muitas regras do governo, como monopólios ou altos impostos.

  • Sumacas

As sumacas eram embarcações pequenas e rápidas, muito usadas no período colonial para o transporte de mercadorias ao longo da costa e pelos rios. Por serem discretas e fáceis de manobrar, as sumacas eram ideais para o comércio clandestino.

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A última trincheira da Confederação do Equador em Pernambuco https://caminhosdarevolta.com.br/a-ultima-trincheira-da-confederacao-do-equador-em-pernambuco/ https://caminhosdarevolta.com.br/a-ultima-trincheira-da-confederacao-do-equador-em-pernambuco/#respond Thu, 04 Dec 2025 19:04:51 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=995 Samuel Albuquerque
Historiador, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (DHI/UFS) e sócio do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP).

Entre 1817 e 1824, Pernambuco ousou, por duas vezes, levantar a bandeira republicana e desafiar os interesses e o cariz absolutista da Casa de Bragança. A velha capitania pagou caro por seu apego aos ideais federalistas. Além dos mártires que tiveram seu sangue derramado na Revolução Pernambucana de 1817 e na Confederação do Equador, o acuado “Leão do Norte” sentiu na própria carne os golpes do autoritarismo monárquico, vendo amputadas partes importantes do seu território, como as comarcas de Alagoas e do São Francisco.

Não irei, aqui, narrar a história da Independência a partir de Pernambuco, tarefa feita com método e arte por autores da envergadura de Evaldo Cabral de Mello. Nosso fulcro é, sem meias palavras, contribuir para refutar uma tese subjacente em obras como A outra Independência (2004): a de que o federalismo pernambucano, entre 1817 e 1824, não se ramificou para o Centro da província, zona que seria um reduto de reacionários e monarquistas, fossem absolutistas ou constitucionais.

Lastreio minha antítese em documentos coevos à Confederação do Equador. O mais conhecido deles é o Itinerario que fez Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, sahindo de Pernambuco a 16 de setembro de 1824, para a provincia do Ceara Grandei.

Frei Caneca (1779-1825), sabemos, é o mais celebrado mártir da Confederação do Equador. Seu Itinerário, publicado originalmente em 1875, constitui um documento de cunho autobiográfico em que o líder confederado narra seu calvário particular (mas não solitário), desde a queda do Recife, em setembro de 1824, até sua prisão, no Ceará, em fins de novembro daquele ano, e recondução à “sua pátria”. É a narrativa de uma renhida perseguição dos imperiais aos confederados de Pernambuco e da Paraíba que teimavam em resistir e, embrenhando-se pelos sertões, irem se juntar às forças confederadas do Ceará, no que não lograram êxito.

Principiada a infausta marcha em 16 de setembro de 1824, os confederados fizeram pouso no Engenho Poço Compridoii, onde chegaram no dia 20. Desde a passagem por Goianinha (Condado) na manhã de 19 de setembro, o grupo ao qual se integrara frei Caneca (ao final reduzido ao trio Caneca, Francisco de Souza Rangel e João Soares Lisboa) juntou-se à divisão formada pelo que restara das forças confederadas do Recife, de Goiana e da Paraíba. Integrados, portanto, à cúpula da divisão, Caneca, Lisboa e Rangel apearam no Poço Comprido.

Entre os fatos passados naquele engenho, e registrados atentamente por frei Caneca, o primeiro a revelar o lugar de destaque de Garanhuns na Confederação do Equador deu-se no grande conselho de 21 de setembro de 1824, que, entre suas deliberações, decidiu que “se levantasse o acampamento, e se procurasse outra posição vantajosa”. A almejada “posição vantajosa” tinha entre seus fitos facilitar a: “[…] communicação com os liberaes das provincias do Ceará, Rio Grande do Norte, interior da Parahiba, divisão liberal de Garanhuns, e especialmente com o general Filgueiras, afim de se combinarem os planos de ataque sobre o inimigo”.iii

Em outras palavras, conforme o registro legado por frei Caneca, quando o Recife já caíra e as forças confederadas já haviam sido desmanteladas pelos imperiais em Olinda e Goiana, a Divisão Liberal de Garanhuns resistia no Centro da província, representando a última barreira em território pernambucano aos projetos do absolutismo. Era necessário manter ativa a comunicação com ela, era preciso firmar laço entre a dita divisão sertaneja e a nova divisão surgida após os sucessos da repressão na cabeça da província e na Mata Norte.

Adiante, em seu Itinerário, frei Caneca rememora e registra fato anterior às deliberações do grande conselho. No mesmo Poço Comprido, em 20 de setembro de 1824, as autoridades confederadas ali reunidas enviaram circulares aos líderes da Divisão Liberal de Garanhuns. É muitíssimo revelador este registro:

No antecedente dia escreveram-se circulares aos commandantes das forças de Garanhuns o capitão mór Luiz Tenorio de Albuquerque, o capitão Lourenço Bezerra CavalcantiJosé de Albuquerque Cavalcanti e Antônio Cavalcanti d’Albuquerque, assignadas por João Soares Lisboa e pelo presidente temporario da Parahiba; nas quaes se dava conta do estado de Pernambuco, do fim da divisão, e se rogava que as forças dos seus respectivos commandos se conservassem estacionadas em qualquer ponto do interior, não só para defenderem os do partido liberal; mas tambem para hostilisarem o inimigo quanto podessem.iv

Para além de nomear os comandantes da Divisão Liberal de Garanhuns (importantes autoridades da vila, como veremos), os retirados do Recife, da Mata Norte e da Paraíba, através das lideranças surgidas após a debandada de figuras como a do presidente Manuel de Carvalho Pais de Andrade, rogavam que aquela trincheira liberal se mantivesse de pé, não se dispersasse, garantindo refúgio aos federalistas que, atordoados, ainda estivessem dando de pernas do Recife e da Mata Norte.

Seja pela distância do epicentro dos confrontos, o Recife, seja pelas dificuldades de penetração em zona menos conhecida e própria a escaramuças, fato é que, na esteira dos (in)sucessos da Confederação do Equador, Garanhuns representa a última trincheira federalista em território pernambucano, conforme nos confessa ninguém menos que o frei do Amor Divino, em seu triste Itinerário.

E quem eram esses líderes da Divisão Liberal de Garanhuns, citados nominalmente por Caneca? Orlando Cavalcanti, nos três volumes da sua Gente de Pernambuco, publicados entre 1994 e 2000, dá-nos algumas respostas, baseadas em documentos referidos e, muitas vezes, editados na obra.v

A Execução de Frei Caneca, 1924. Óleo sobre tela. Acervo do Museu Murillo La Greca — Recife, Pernambuco, Brasil. <a href=”https://commons.wikimedia.org/wiki/File:A_Execu%C3%A7%C3%A3o_de_Frei_Caneca.jpg”>Murillo La Greca</a>, Public domain, via Wikimedia Commons.

LUIZ TENÓRIO DE ALBUQUERQUE contava cerca de 60 anos e era capitão-mor da Vila de Garanhuns desde a sua instalação em 1813. Tinha ele ao menos 11 filhos legítimos, tidos de sua esposa, dona Rosa Felipa de Santiago. Eram cinco filhos homens e seis mulheres, todos maiores, ao que parece. Os filhos homens, possivelmente, abraçaram as lutas do pai. Entre seus genros, ao menos um combateu ao seu lado: Antônio Cavalcanti de Albuquerque Melo, sargento-mor de Garanhuns, casado com Joana Tenório de Albuquerque. Outros familiares próximos podem ter abraçado as lutas de Luiz Tenório, entre muitos sobrinhos maiores de idade, irmãos e cunhados daquele capitão-mor.

Os três outros comandantes da Divisão Liberal de Garanhuns na Confederação do Equador – Lourenço Bezerra Cavalcanti de Albuquerque, José de Albuquerque Cavalcanti e Antônio Cavalcanti de Albuquerque Melo – são irmãos e, por via paterna, são primos do capitão-mor Luiz Tenório de Albuquerque.

LOURENÇO BEZERRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, o coronel Lourenço Bezerra das Antas, fora diretor do Aldeamento do Ipanema, no distrito de Águas Belas, contava cerca de 44 anos e tinha ao menos dez filhos legítimos e uma filha natural, nascida antes do seu casamento com dona Josefa Florentina de Albuquerque Maranhão, sua prima. Entre os seus filhos, cinco meninos e três meninas eram menores. Dois meninos, todavia, eram maiores e aptos a tomarem parte nas pelejas do pai e parentes confederados. Eram eles: Apolinário Florentino de Albuquerque Maranhão, solteiro e com cerca de 21 anos, e Lourenço Cavalcanti de Albuquerque Maranhão (futuro Barão de Atalaia), solteiro e com cerca de 20 anos.

Senhor de muitas terras e gentes, o coronel Lourenço Bezerra Cavalcanti de Albuquerque era proprietário do Engenho Antas, em Águas Belas, e sobre a serra que dava nome ao seu engenho fizera erguer também o sobranceiro solar onde vivia com sua família: o conhecido casarão do Riacho Fundo. Suas fazendas de gado e algodão se espraiavam serra abaixo, bordejando, sobretudo, o rio Garanhuzinho.

Sobre os dois outros comandantes da Divisão Liberal de Garanhuns, irmãos de Lourenço Bezerra das Antas e primos de Luiz Tenório de Albuquerque, os dados são mais escassos. JOSÉ DE ALBUQUERQUE CAVALCANTI era ao menos três anos mais moço que seu irmão Lourenço e dele sabemos, somente, ter sido coronel-comandante do Ponto do Feijão. De ANTONIO CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE MELO, sargento-mor de Garanhuns, sabemos ser o mais velho entre os três irmãos, contando cerca de 47 anos em 1824. Já mencionamos que Antonio fora casado com uma filha do primo Luiz Tenório de Albuquerque, o capitão-mor de Garanhuns, chamada Joana Tenório de Albuquerque.

O cotejo dos críveis dados constantes nas obras de Alfredo Leite Cavalcanti e Orlando Marques Cavalcanti (críveis porque os autores, quase sempre, indicam e até editam as fontes de onde foram extraídos tais dados) leva-nos a concluir que a família do capitão-mor Luiz Tenório de Albuquerque e seus primos Lourenço, José e Antônio se estabeleceu na região que daria origem ao município da Vila de Santo Antônio de Garanhuns ainda em princípios do século XVIII, adquirindo terras que pertenciam a herdeiros dos primeiros sesmeiros da região. Lá deitaram raízes e firmaram um potentado que ganharia ainda mais vulto sob a Regência e o Segundo Reinado.

Reveladas as identidades dos líderes confederados sertanejos, ressalto a dívida de Garanhuns com frei Caneca, que, nas memórias de sua fuga, não desconheceu e não deixou de registrar os nomes dos patriotas que, após a queda do Recife, resistiam no Centro da província.

Tomando como referência o comportamento da mais proeminente família do município da Vila de Garanhuns, concluo que o Centro da Província de Pernambuco não era o monólito reacionário representado por autores como Evaldo Cabral de Mello. Ao que parece, a região esteve, no máximo, dividida entre morgadistas e carvalhistas, quiçá pendendo mais apara as hostes federalistas. Não é correta, portanto, a conclusão de que “o apoio rural aos movimentos insurrecionais do Recife procedeu invariavelmente da Mata Norte”.i

Em relação ao Centro da Província de Pernambuco, e notadamente ao município da Vila de Garanhuns, estou convencido de que, assim como no poema de Manuel Bandeira, tão apreciado por Cabral de Mello, a clássica historiografia sobre a Confederação do Equador é, sobretudo, aquilo “que poderia ter sido e que não foi”.


Versão resumida de: ALBUQUERQUE, Samuel. O Centro da Província de Pernambuco na Confederação do Equador. In: CÂMARA, Bruno Augusto Dornelas; MOURA, Carlos André Silva de (Orgs.). Confederação do Equador: instituições, ideias e sociedade. Recife: CEPE, 2025. p. 241-277.
Itinerário foi publicado pela primeira vez em 1875, por iniciativa do comendador Antônio Joaquim de Mello, em obra que reúne, além dos escritos políticos, os escritos literários de frei Caneca. Para a transcrição de trechos do documento, farei uso dessa edição, que manteve a grafia original do manuscrito (CANECA, Frei. Itinerario que fez Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, sahindo de Pernambuco a 16 de setembro de 1824, para a provincia do Ceara Grande. In MELLO, Antonio Joaquim de. (Org.). Obras politicas e litterarias de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Tomo I. Recife: Typographia Mercantil, 1875. p. 110-136). A edição mais recente do Itinerário é a de 2024, levada a cabo pela CEPE Editora, do Recife.
Atual Museu Poço Comprido, no distrito de Murupé, em Vicência, Mata Norte de Pernambuco.
CANECA, Frei. Itinerario que fez Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, sahindo de Pernambuco a 16 de setembro de 1824, para a provincia do Ceara Grande. In MELLO, Antonio Joaquim de. (Org.). Obras politicas e litterarias de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca. Tomo I. Recife: Typographia Mercantil, 1875. p. 115, grifos nossos.
Ibidem, ibidem.
CAVALCANTI, Orlando [Marques]. Gente de Pernambuco. Recife: Editora Universitária da UFPE/Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, 1994 (Nossa terra, nossa gente); _____. Gente de Pernambuco
. V. 2. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2000 (Resgate); _____. Gente de Pernambuco. V. 3. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2000 (Resgate).

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Caminhos dos Matos, Escravidão, Fuga e Eiberdade: a presença de escravizados africanos e mestiços nos sertões de Pernambuco durante o período colonial https://caminhosdarevolta.com.br/caminhos-dos-matos-escravidao-fuga-e-eiberdade-a-presenca-de-escravizados-africanos-e-mesticos-nos-sertoes-de-pernambuco-durante-o-periodo-colonial/ https://caminhosdarevolta.com.br/caminhos-dos-matos-escravidao-fuga-e-eiberdade-a-presenca-de-escravizados-africanos-e-mesticos-nos-sertoes-de-pernambuco-durante-o-periodo-colonial/#respond Thu, 04 Dec 2025 18:36:29 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=989
Alexandre Bittencourt Leite Marques
Doutor em História pela Universidade de Évora. Mestre em História pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Católica de Pernambuco.

Olá! Pronto para realizar uma viagem no tempo? Iremos percorrer um triste momento da nossa história: o período da escravidão no Brasil Colônia, especificamente nos sertões da Capitania de Pernambuco. Durante muito tempo, os estudos históricos praticamente se dedicaram a analisar a escravidão nas áreas do litoral e seu entorno, onde estavam erigidos os principais núcleos urbanos da capitania, como Recife, Olinda e demais vilas açucareiras. Nesse sentido, pouco se pesquisou sobre a escravidão nas áreas mais ao interior, os chamados sertões. Contudo, isso está mudando! Nas últimas décadas, tem crescido o número de estudos sobre a presença de escravizados africanos e mestiços nas regiões interioranas de Pernambuco durante o período colonial e imperial.

Antes de trilharmos os caminhos que adentravam o interior pernambucano, é importante sabermos que a palavra “sertão” (plural “sertões”) possuía significados e usos diferentes dos de hoje. Entre os séculos XVI e XIX, um dos significados, por exemplo, era o de apartado da costa, ou seja, distante do litoral, o interior. Além dessa conotação, existiam outras para a referida palavra: espaço bárbaro, selvagem, inculto. Porém, essa história fica para outro dia, pois agora é o momento de entendermos um pouco sobre a presença de escravizados africanos e mestiços nesses lugares distantes da costa de Pernambuco.

De grandes distâncias, desfiladeiros, densos, retorcidos e espinhosos matos, e com falta de água em determinadas épocas, os caminhos pelo interior de Pernambuco eram longos, difíceis e perigosos. Sem dúvida, a travessia por esses espaços não deveria ter sido fácil para os escravizados recém-chegados a esses sertões. Porém, é bem verdade que, com o passar do tempo, essas pessoas acabavam por adquirir afinidade com esses lugares. Como veremos mais adiante, alguns empreenderam fugas em busca de sua liberdade. Fugidos para os matos, passaram a fazer uso desse ambiente para se esconder e sobreviver. Nesse sentido, muitas vezes, era nos matos que havia os caminhos para a fuga e a liberdade.

Tudo começou com a organização do tráfico atlântico de escravos na África a partir do século XVI. De acordo com o historiador Luiz Felipe de Alencastro (2018), basicamente os africanos transportados ao Brasil vieram de duas áreas principais: uma formada pela Baía de Benim e pelo Golfo de Biafra, na África Ocidental, e a outra localizada na África Centro-Ocidental, sobretudo em Angola. Ainda segundo Alencastro (2018), do século XVI até 1850, o Brasil foi o maior importador de escravos africanos das Américas. Estima-se que mais de 4 milhões de escravos africanos deram entrada no Brasil ao longo desse período. Em relação especificamente à ida de escravos africanos para Pernambuco, segundo as historiadoras Suely Almeida e Jéssica de Souza (2013), os cativos partiam da Costa da Mina, na África Ocidental, assim como de Angola, na África Centro-Ocidental. Contudo, em meados do século XVIII, houve um aumento significativo de escravos provenientes de Angola e uma redução considerável de escravos emanados da Costa da Mina.

Capturados nos sertões da África, os escravizados eram conduzidos até o litoral daquele continente. Essa travessia terrestre era cansativa, tortuosa, violenta e perigosa para esses cativos. Uma vez chegados dos sertões africanos à costa marítima, os escravizados eram embarcados em navios, também chamados de tumbeiros, em uma perigosa e mortífera travessia oceânica em direção à América portuguesa. O militar cronista Elias Alexandre da Silva Corrêa, que viveu em Angola na segunda metade do século XVIII, afirmou que havia três portos no Brasil que mais importavam esses escravos procedentes da África Centro-Ocidental: os do Rio de Janeiro, da Bahia e de Pernambuco. Ainda segundo o cronista, desembarcados nesses três lugares, essas pessoas cativas se espalhavam para os diversos sertões e demais capitanias da América portuguesa.

Em relação a Pernambuco, desembarcada nos portos da costa, a maior parte da escravatura acabava sendo utilizada nas propriedades agrícolas de plantação de cana e fabrico de açúcar, como também em diversos afazeres nos principais núcleos urbanos da capitania, tanto um quanto outro situados nas áreas litorâneas e no entorno. No entanto, a partir do século XVIII, cada vez mais escravizados passaram a ser conduzidos para os sertões, devido à consolidação do processo de conquista e ocupação do interior do território, que proporcionou um aumento de propriedades rurais, assim como de povoados e vilas. Nesses casos, para muitos escravizados, além da travessia transatlântica, havia uma viagem complementar em direção ao interior de Pernambuco, que se caracterizava como uma continuação das rotas dos escravos saídos de Angola e outras regiões da África.

Nos sertões de Pernambuco, enquanto alguns escravizados eram introduzidos para realizar trabalhos rurais e domésticos, outros eram conduzidos através dessas veredas para trabalhar nas minas mais distantes do interior do Brasil. Infelizmente, ainda são escassas as informações detalhadas sobre o trânsito dessas pessoas nos sertões pernambucanos. Porém, ainda assim, alguns vestígios de informações foram encontrados nos manuscritos do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU).

Por exemplo, em meados do século XVIII, as autoridades da capitania e da Coroa portuguesa tinham preocupação com o abastecimento de escravos nos sertões. Havia o risco de muitos escravos serem deslocados dos afazeres agrícolas para o trabalho nas minas, causando, assim, prejuízo para o comércio de gêneros agrícolas e o abastecimento de alimentos. Por outro lado, havia casos de condutores que deveriam levar os escravizados até as distantes minas do interior do Brasil, mas não completavam seu trajeto, pois, no meio do caminho, iam vendendo aquelas pessoas para serem utilizadas em outros trabalhos, que não o da mineração. Em consequência dessa instabilidade, na tentativa de melhor equilibrar a entrada e fixação de escravizados nos sertões, as autoridades de Pernambuco e da Coroa portuguesa procuravam instituir medidas de controle. O uso de passaportes por escravos era uma delas. (AHU_ACL_CU_015, cx. 82, D. 6880).

Os escravizados que vieram da África exerceram influência cultural nos lugares para onde foram destinados. Acostumados a trabalhar nas minas, na criação de gado, na plantação de mandioca e milho nos antigos territórios que habitavam no continente africano, muitas vezes os escravos angolas eram adquiridos por senhores dos sertões de Pernambuco e adjacências. Uma vez ali inseridos, aplicavam diversas práticas e costumes vindos da África Centro-Ocidental, bem como se miscigenavam biológica e culturalmente com a população local, composta por luso-brasileiros, grupos indígenas e escravizados de outras partes da África. Consequentemente, a miscigenação de angolas com brancos, angolas com indígenas, angolas com angolas, angolas com outros africanos gerou toda uma leva de mulatos, pardos, cabras e crioulos.

Os escravizados africanos que adentravam os sertões de Pernambuco deveriam sentir um misto de estranheza e semelhança em relação aos espaços por onde passavam. Pernambuco e Angola estão na mesma latitude e têm praticamente o mesmo clima, que varia entre quente e úmido, e quente e seco, a depender da região. Apesar desses fatores propiciarem um ambiente, de certa forma, semelhante entre os dois territórios, há também grandes diferenças na formação do relevo, da flora e da fauna.

Porém, gradativamente, uma vez conhecida a região, alguns desses cativos adaptavam-se aos relevos e à vegetação. Isso para não falar nos descendentes dessas pessoas (crioulos ou mestiços), que já nasciam imersos nos sertões de Pernambuco e, desde cedo, passavam a se aventurar pelos matos que circundavam as vilas, povoados e propriedades rurais. Aliás, é importante frisar: os matos eram o grande aliado das fugas empreendidas por escravos, tanto em Pernambuco quanto em Angola. Não tardaria muito para os escravos africanos e seus descendentes compreenderem que aqueles matos, tão semelhantes e ao mesmo tempo diferentes de sua terra natal, eram também seus aliados mais seguros contra a escravização por parte dos colonizadores.

Da mesma maneira que em Angola, em Pernambuco e em outras partes do Brasil, os escravizados também procuravam resistir às condições penosas do cativeiro. Em busca da liberdade e do fim dos maus-tratos, muitos deles empreenderam fugas para os matos, alguns chegando a formar quilombos. Existiram diversos quilombos espalhados pelo Brasil, dentre eles o de Palmares. Muito se fala nas terras dos Palmares, que ficavam na parte leste e ao sul da Capitania de Pernambuco, ou seja, mais próximas da costa. Porém, pouco se aborda a respeito de seus limites mais a oeste, que chegavam a adentrar parte das caatingas, dos sertões secos, semiáridos e espinhosos, no que hoje é a atual região chamada de Agreste pernambucano. Ainda assim, em documentos dos séculos XVII e XVIII, é possível perceber que a vegetação da caatinga dos sertões de Ararobá e Garanhuns, ou seja, nas terras mais ao oeste, foi usada pelos negros para fuga e esconderijo, anos após a destruição de Palmares.

Contudo, é importante salientar que as matas dos sertões mais ao interior de Pernambuco não abrigavam somente remanescentes de negros fugidos do antigo quilombo dos Palmares ou seus descendentes. Conforme pode ser visto na documentação da época (como inventários e testamentos), diversos sítios, fazendas, povoados e vilas existentes nos sertões possuíam dezenas ou centenas de trabalhadores africanos e mestiços escravizados. Portanto, nesses locais, não seria difícil imaginar que alguns desses cativos conseguissem fugir e se embrenhar pela caatinga à procura de abrigo. Esses escravizados fugidos viam nos lugares mais afastados a oportunidade de se esconder de seus proprietários e das autoridades locais. Alguns desses fugitivos possivelmente formaram pequenos quilombos nas caatingas ásperas; já outros empreenderam as fugas com o intuito de tentar negociar melhores condições com seus donos ou com outros senhores.

Desde o Rio São Francisco até o Maranhão, passando por Pernambuco, as fugas de escravizados nas vastidões territoriais eram constantes. Nos anos de 1750, a existência de um Juízo dos Ausentes tinha, dentre suas finalidades, a de devolver ou arrematar escravizados fugidos. Os senhores que mandassem resgatar seus cativos fugitivos, recolhidos pelo Juízo, deveriam pagar todas as despesas feitas pelo dito órgão. (AHU_ACL_CU_015, cx. 84, D. 6978). Exemplos de registros de fugas de escravizados podem ser encontrados em alguns dos inventários e testamentos dos moradores dos sertões de Pernambuco. No ano de 1785, na Fazenda das Almas, julgado do Pajeú, o crioulo Luiz foi descrito como “acostumado a fugir”. (IAHGP. Fundo Orlando Cavalcanti, cx. 71. Inventário de Alexandre da Silva de Carvalho, 1785). Já no ano de 1788, o mulato João havia fugido de seu senhor, um português chamado Luiz Ferreira Maciel, proprietário da Fazenda da Barra e da Alagoa, ribeira do Pajeú, tendo sido encontrado em outra propriedade, em casa e poder de um capitão chamado Aleixo Feliz de Andrade, morador em seu engenho junto de Limoeiro. (MJPE. BR PEMJ FLOR, cx. 961. Testamento Comendador Luiz Ferreira Maciel, 1788).

Apesar da diversidade de escravizados nos sertões de Pernambuco (angolas, crioulos, pardos, mulatos, cabras, entre outros), todos tinham em comum o fato de estarem na mesma condição de cativos. É bem verdade que alguns conseguiram sua liberdade, seja por meio da resistência, empreendendo fugas, seja por alforria negociada com seus senhores. Infelizmente, a maioria deles morreu escravizada e silenciada no cativeiro. Porém, nem toda desumanização é capaz de silenciar por completo suas histórias, suas individualidades. Nos próprios documentos da sociedade escravista aparecem vestígios sobre esses indivíduos: eram os Luizes, as Marias, os Joãos e tantos outros, com seus nomes, idades, condições e qualidades. Essas pessoas não devem ser consideradas meros números, mas indivíduos de diversas origens, que tinham identidade, que sofriam com doenças, casavam-se, tinham filhos, empreendiam luta, fuga e resistência e, por vezes, adquiriam a liberdade.

Comarca do Rio de São Francisco da Provincia de Pernambuco [Material Cartográfico] / Archivo Militar, Gama. In
BIBLIOTECA NACIONAL (Brasil). Catálogo da exposição de história do Brasil. Anais da Biblioteca Nacional. Volume IX, Rio de Janeiro, 1882. V.1. P. 226, Ref.2.257. Disponível em http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart524404/cart524404.html.

Sendo assim, como vimos, definitivamente havia presença de africanos e mestiços no interior de Pernambuco ao longo do período colonial, seja de grupos oriundos do antigo quilombo dos Palmares, seja de pessoas escravizadas que foram deslocadas para lá para trabalharem nos sítios, fazendas, povoados e vilas dos sertões. Antes de encerrarmos nossa viagem no tempo, vale salientar que vestígios da presença marcante dessas pessoas são percebidos até os dias de hoje, na medida em que existem, por exemplo, comunidades quilombolas no interior de Pernambuco, localizadas em áreas de diversos municípios como, por exemplo, Alagoinha, Caruaru, Garanhuns, Panelas, Pesqueira, Custódia, Flores, Salgueiro, Petrolina, entre tantos outros. A configuração territorial de muitos desses municípios se originaram a partir dos sítios e outras propriedades que, no passado, fizeram uso do trabalho escravo.

FONTES

Manuscritos avulsos do Fundo do Conselho Ultramarino da Série Pernambuco, localizados no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU).

Inventários post-mortem e testamentos localizados no Instituto Arqueológico Histórico Geográfico de Pernambuco (IAHGP) e no Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE).

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Suely Cordeiro de; SOUZA, Jéssica Rocha de. O comércio de almas: as rotas entre Pernambuco e a costa da África, 1774-1787. Revista Ultramares Dossiê, n. 3, jan./jul., 2013. p. 39.

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. África, números do tráfico atlântico. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz; GOMES, Flávio (Org.). Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. pp. 57-63.

CORRÊA, Elias Alexandre da Silva. História de Angola. Lisboa: Editorial Ática, 1937. Colecção dos Clássicos da Expansão Portuguesa. Série E, Império Africano).

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

CARVALHO, Marcus; FRANÇA, Anna Laura Teixeira de. Palmares, a cabanada, a “gente das matas”. In: GOMES, Flávio (Org.). Mocambos de Palmares: histórias e fontes, séc. XVI XIX. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2010. p. 131-148.

CEZAR, Iasmim de Oliveira. A caminho dos sertões: o tráfico interno movimentando o interior baiano, 1778-1798. 2016. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História) − Departamento de Ciências Humanas, Campus-Jacobina, Universidade do Estado da Bahia, Jacobina, 2016.

DE CARLI, Caetano. O escravismo e o sertão de Pernambuco. Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, Recife, n. 68, p. 77-122, 2015.

FERREIRA, Roquinaldo. África durante o comércio negreiro. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz; GOMES, Flávio (Org.). Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

GOMES, Flávio (Org.). Mocambos de Palmares: histórias e fontes, séc. XVI XIX. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2010. p. 7-20.

LARA, S. H. O território de Palmares: representações cartográficas e dimensões territoriais. Afro-Ásia, Salvador, n. 64, p. 12–50, 2021. DOI: 10.9771/aa.v0i64.43622. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/43622. Acesso em: 15 jul. 2024.

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Ecos da revolução de 1817 no interior de Pernambuco https://caminhosdarevolta.com.br/ecos-da-revolucao-de-1817-no-interior-de-pernambuco/ https://caminhosdarevolta.com.br/ecos-da-revolucao-de-1817-no-interior-de-pernambuco/#respond Mon, 01 Dec 2025 14:48:03 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=968 Ígor Anderson Cardoso Gonçalves
Mestre em História pela Universidade Católica de Pernambuco

Legenda: Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva. Ouvidor de Olinda que se encontrava em correição na Vila de Limoeiro ao eclodir o movimento, sendo acusado posteriormente de articular a adesão local. Fonte: Acervo do Museu Paulista (Domínio Público). Paulista (Domínio Público).

Quem quer que, tencionando compreender os caminhos da revolta, inadvertidamente se lance à análise de boa parte da documentação disponível acerca dos eventos de 1817, poderá chegar à precipitada conclusão de que o “vapor” revolucionário pernambucanoi não teria logrado galgar o planalto da Borborema, ou vencer a cachoeira de Paulo Afonso, alastrando-se pelos confins da capitania.

A correspondência que se conservou, por exemplo, entre as câmaras municipais e o governo restaurado, esforça-se, em regra, por isentar os povos de Flores, Garanhuns, Limoeiro etc., de vínculos com os “patriotas”ii; sugerindo, tanto às autoridades vencedoras quanto à posteridade, que as iniciativas rebeldes nem repercutiram, nem lograriam repercutir por ali, senão pela via da coaçãoiii.

Essa primeira impressão, porém, não resiste a uma interpretação mais judiciosa, a contrapelo do discurso oficialiv. É o que se procurará demonstrar, panoramicamente, no presente artigo: que, a despeito da elusiva retórica assumida pelos vencidos, os ideais revolucionários não apenas reverberaram para além da franja litorânea, e da zona de mata adjacente, como encontraram ambiente favorável para produzir resultados os mais variados no interior.

Preliminarmente, cumpre esclarecer que, por aqueles idos, os atuais Agreste e Sertão pernambucanos se repartiam entre os dilatados termos das vilasv de Limoeiro e Cimbres, no norte agrestino; Garanhuns, no sul; e Flores, no setentrião sertanejo; achando-se submetidos à jurisdição municipal do Pajeú também os meridionais julgados de Cabrobó e Tacaratuvi.

À exceção de Limoeiro, todas essas localidades constituíam, desde 1810, a nova Comarca do Sertão, com outras povoações e vilas que, posteriormente, acabariam desligadas de Pernambucovii. Ademais, a agrestina Freguesia dos Bezerros integrava o Termo de Santo Antão da Mata; e, no São Francisco, ainda havia as insulares vilas de índios de Assunção e Santa Mariaviii.

Em Cimbres, por informação do capitão-mor Antônio dos Santos Coelho da Silva, que confessaria haver oferecido ao Governo Provisórioix “a quantia de 2:000 réis”, para demonstrar-lhe que “deveria ser reconhecido por bom patriota”x; consta que, já em fins de 1816, o padre Francisco Muniz Tavares, futuro historiador da revoltaxi, introduzido no distrito por Joaquim Almeida Catanho, ao pretexto de dizer as missas de Natal, ocupara-se mais “em abater as tropas e segurar que, breve, havia uma grande revolução em Pernambuco”xii.

De acordo com o capitão-mor, logo que sucedeu o 06 de março, Almeida Catanho mobilizou o sogro, João Alves Leite, e o irmão e o cunhado deste, o capitão Francisco Leite da Silva e Manoel José Monteiro, a apresentarem-se ao novo governo, no Recife, para onde seguiram a “jurar bandeiras”. De regresso, “é público que, por todos os lugares que passaram, Santo Antão, Bezerros e Caruaru”, “gritavam ‘viva a pátria’”, “prometendo matar aos que lhe dissessem ‘viva El Rei’”xiii.

Catanho ainda procuraria fazer “proezas de língua a favor do provisório”, influindo “ser pesado o Governo Real, e falava em desabono da Real Família”; no que, aliás, não se encontrava sozinho em Cimbres, pois ali, segundo Santos Coelho, o europeu José Porfírio de Freitas, perfilado com o “maldito governo”, constantemente imprecava “contra Sua Majestade Fidelíssima”, admoestando até que “o tratassem por Pai João da Ilha”xiv.

Tamanho era o ardor patriótico de alguns Freitas, que, certa feita, no sítio do coronel José de Matos Girão, a senhora Maria White, “fazendo uma saúda” de “viva a religião cristã, viva El Rei, Nosso Senhor!”, fora acaloradamente repreendida por José Porfírio: “não me fale nesse…, nome intolerável entre os portugueses casados”; e até ameaçada por um filho dele, que, “lançando mão a duas pistolas”, “quisera dispará-las na dita moça, do que acudiram os circunstantes”xv.

No Termo de Cimbres, Dias Martins ainda destacaria a atuação revolucionária do capitão José Caetano de Medeiros, morador no Brejo da Madre de Deus, que “fez distintos serviços para que suas bandeiras fossem arvoradas por aqueles remotos distritos”, vindo a responder por isso perante a Alçadaxvi. Por sinal, Santos Coelho já registrava que Medeiros, instado a acudir à contrarrevolução no Limoeiro, fez voltar parte da tropa, cuidando, em vez de acompanhá-la, de amotinar o povo do Brejo por motivações pessoaisxvii.

Em Garanhuns, por sua vez, e como contradita às futuras atestações da Câmara de que, quanto aos “papéis organizados do desgraçado dia 06 de março em diante nesta Vila, os não há”, “e menos consta que haja um só particular que possua cartas de relações com aqueles infames extintos traidores”xviii; basta o cotejo com o teor da proclamação dirigida, a 11 de abrilxix, por João Tenório de Albuquerque ao capitão-mor da Vila de Anadia, da ainda pernambucana Comarca das Alagoas.

Nesse documento, o arrebatado sargento-mor da Vila de Garanhuns, reagindo à recusa alagoana em obedecer ao Governo Provisório, deixa ver o alcance das notícias que então circulavam: que as capitanias “de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande, Ceará, Maranhão, Pará, Parnaíba, Mato Grosso, fazem um só corpo, e também se julga já Minas levantada pelos avisos de Mato Grosso”xx.

Exortando ao engajamento, ante o risco de se ver “subir os malvados europeus, nossos comuns inimigos, ao mais elevado auge da sua vanglória, submetendo-nos, e à nossa descendência, ao abismo do cativeiro”; adverte o bem-informado “amigo Patriota” aos “míseros distritos” das vilas de Alagoasxxi, Anadia e Atalaia: “lembrai-vos do que sucedeu em 1815, na América Peruciana [sic], quando uma parte dela duvidou, negando a obediência à capital, cuja causa foi bastante para ser punida a fogo e ferro”xxii.

Em Flores, não menos entusiástica foi a adesão do “patriota Joaquim Nunes de Magalhães”, capitão-mor da vila, que, sem embargo da firme resistência deparada, por exemplo, em Tacaratuxxiii; logo mandou publicar, nos amplos domínios de sua jurisdição, “a cópia da proclamação dos chefes que estão governando a praça” do Recife, “convocando quem se quisesse voluntariamente alistar” para defender a República, “que ficariam isentos de tantos tributos e pensões”xxiv.

Da lavra desse capitão-mor, também remanesceram sugestivas normas “às autoridades e mais povos” de sua vila e termo, datadas de 23 de abril, prescrevendo “que ninguém fale do governo atual, nem dos que estão empregados, tanto no Civil como no Militar, e nem fomentem cizânias, nem confusões e conversações”; sob pena de terem “confiscados os seus bens”, e serem “presos e recolhidos à cadeia” local, às suas ordens, executadas pelo “patriota capitão Manoel Félix de Veras”xxv.

Foi em Limoeiro, todavia, que a revolução ecoou com maior estrépito, conforme atesta o extenso rol dos implicados na ulterior devassa da Alçada: cerca de duas dezenas; desde populares, como “cabras” e músicos; até autoridades civis, militares e religiosas: escrivães, juízes, oficial de justiça, procurador, vereadores; alferes, capitães, sargento; o vigário da freguesiaxxvi. Dos extratos de suas culpas, e do teor de algumas declarações, é possível reconstituir os episódios locais.

Consoante o relato do padre Francisco de Sales, o desembargador Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, irmão de José Bonifácio e um dos próceres de 1817, “estava de correição na vila”, “quando, no dia 07 de março”, “ao escurecer”, chegou ali “a notícia” “da praça de Pernambuco”. “Nessa noite”, ausentou-se o ouvidor de Olinda para a contígua Vila de Paudalho, “publicando que ia aproximar-se” do Recife, “para examinar o sucesso e dar as providências que pudesse”, e não mais voltouxxvii.

Em todo caso, Manuel Atanásio da Silva Cucharra, “um dos ajudantes” do corregedor, “que o tinha acompanhado para o Pau do Alho”, regressou como “emissário dos rebeldes”; chegando “no dia 15, com cartas ao chefe da vila e ao juiz”xxviii. De fato, Antônio Carlos seria acoimado “de ter, no Limoeiro, aviso da rebelião e vir logo”, e “de escrever ofícios à Câmara, para vassalagem” ao novo governo; e Cucharra, “de ir fazer a revolução no Limoeiro, que efetivamente fez”, e “de a fazer também no Pau do Alho”xxix.

Ainda segundo o vigário, em lugar do capitão-mor, porque “estava demente” ou “por óbito”, “comandava o sargento-mor Pedro Clemente de Melo”, “que residia 05 léguas distante”, e, por isso, “tinha encarregado o seu sobrinho, o capitão comandante João Ribeiro Pessoa de Lacerda, que residia dentro da vila, para cumprir qualquer ordem que pedisse pronta execução”xxx.

Sem demora, João Ribeiro teria convocado “o povo da feira, e habitantes da mesma vila, para a Casa do Senado, onde devia apresentar certas ordens”; ensejo em que o escrivão “leu uma carta do dito corregedor dirigida ao juiz”, prosseguindo “a ler outras, entregues pelo comandante”, a começar pela “capitulação, ou cópia dela, em que o capitão-general de Pernambuco e mais oficiais tinham feito entrega da capital”, pelo que “os lugares pertencentes à capitania não deviam exitar [sic], porque estavam sujeitos” ao atoxxxi.

Em sua defesa, o padre Francisco adotaria a estratégia de comprometer Clemente de Melo e Pessoa de Lacerda, alegando que, à continuação, também teria sido lida uma carta “em que o sargento-mor comandante, desde o dia antecedente 14 de março, ordenava aos capitães e mais oficiais para prestar obediência aos rebeldes”; e ao escrivão que, “de tudo, fizesse lançamento”; “e disse que seu tio, sargento-mor”, sujeitava-se “à capitulação, e não devia opor-se, uma vez que não podia defender-se”xxxii.

Ocorre que, para furtar-se à responsabilização, os chefes militares pretextariam que as autoridades civis e o vigário, “sem terem inteligências as milícias e ordenanças, declararam na vila a revolução”; embora Muniz Tavares registre que, “de Igarassu, Paudalho e Limoeiro, marchou imediatamente avultado número de ordenanças”, debaixo do comando de seus superiores, “ansiosos por participar da glória, combatendo”xxxiii.

A versão dos comandantes seria a de que Cucharra, munido dos papeis revolucionários, mostrara-os logo aos escrivães Manuel Caetano de Almeida e Matias José da Silva, e ao vigário, que então “se vestira e pusera os sobrepelos, e estola”, indo “todos os quatro à Câmara”, que “estava junta”, a deliberar, e só então mandando “avisar ao sargento-mor e aos mais”; ou seja, tudo teriam feito “sem primeiro lhes dar parte, tomando assim o governo da terra”xxxiv.

O padre, a seu turno, embora confessando que “obedeceu às ordens dos rebeldes”, alegava estar sendo supostamente “acusado de crimes, pelos seus inimigos, que nem de pensamento cometeu”: de dizer “que só à Pátria se deve servir, e não às testas coroadas”; “que tinha os seus escravos armados e quatro filhos” prontos para a luta, e que “Pernambuco era inconquistável”; que o monarca, “a quem dava o nome de Pai João, não tinha senão uma fragata velha”, oferecendo-se a dar-lhe “100 mil réis”, para “começar sua vida como começaram todos os marinheiros, entendendo por essas palavras os europeus quando chegaram ao Brasil”xxxv.

O fato é que, a 15 de março, um “sábado de grande feira”, a gente do Limoeiro, reunida em “congresso”, fez solene profissão de fé revolucionária: “lida a carta” de Andrada “e mais papéis”, a Câmara persuadiu o povo a “fazer termo de obediência”, mandando “arvorar a bandeira branca” da República, “lançar um bandoxxxvi para que todos obedecessem aos rebeldes”, e “pôr luminárias por três dias”; do que se lavrou a respectiva ata, registrada no competente livro, consistindo em “dez folhas”, nas quais igualmente “se achavam inscritas” as “proclamações e ordens” do Governo Provisório dirigidas à vilaxxxvii.

As culpas dos oficiais camarários e do vigário põem a descoberto outras circunstâncias desse momento, quais as do vereador João Francisco de Araújo, acusado de, “influído e declamador”, “mandar dar salvas, vivas, publicar bandos, soltar presos”; “ordenar as remessas dos dinheiros reais para o Recife”; e “mandar chamar ao sargento-mor” “para levar os europeus que se queriam levantar a favor de El Rei”xxxviii.

“Declamadores” seriam também os escrivães Manuel Caetano, “falador”, “ledor de versos”; e Matias José, incriminado por “ser sócio na execução do levantamento” da bandeira rebeldexxxix. Ao padre Francisco, ainda lhe seria imputado: “repicar os sinos e botar luminárias”; “quebrar as armas reais do frontispício da igreja”; e cantar “o Te Deum Laudamus em ação de graças pela rebelião”xl.

Limoeiro sustentaria a causa revolucionária até fins de abril, quando a contrarrevolução, projetada, dois dias antes, no “lugar das Bengalas”xli, triunfou, a 29 daquele mês, na sede municipal; “onde, nesta Câmara, foi colocado o real retrato com vivas e júbilo”, com direito a um “beija-mão” em presença da efígie, “presidido pelo sargento-mor”, que, adiantando-se como “fiel vassalo”, “quis que, nesta vila, fosse logo restaurado o poder representativo de Sua Majestade”xlii.

Em seguida, a 21 de maio, ante a queda da República, convocou-se nova reunião na Câmara, “com o comparecimento da principal gente da vila”, para tomar-se uma segunda resolução, em desagravo da anterior, um “ato de protesto e reprovação”; concertando-se que as comprometedoras dez folhas fossem, então, “demolidas e queimadas”, “para que delas não houvesse memória no presente e em futuro tempo”xliii.

Na ocasião, Joaquim Ferreira de Moura teria divergido, parecendo-lhe “mais acertado ficar o livro intato [sic] até supra ordem”; entretanto, prevaleceu o entendimento de que “era pública a notícia de um bando” do governo restaurado, “publicado na praça, para se extraírem dos livros todos os escritos infames, e que parecia antes criminosa a conservação de semelhantes insultos”. Então “os senadores não vacilaram mais; e o escrivão prontamente passou a extraí-las”; e o vigário “as pediu para as queimar”, “o que logo se executou”xliv.

Semelhante destinação teriam os “papeis dos rebeldes” nas demais localidades, o que ajuda a explicar a aparente apatia do interior, quando não pusilanimidade. Nada obstante, baldados seriam os esforços dos vencedores em fazer desaparecer “todo e qualquer testemunho que possa transmitir à posteridade fatos autorizados por uma rebelião tão desacordada, injusta e sacrílega”xlv. A memória revolucionária persistiria, como resistiriam seus ideais por todo o Pernambuco.

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TAVARES, Francisco Muniz. História da Revolução de Pernambuco em 1817. 5ª ed. Recife: CEPE, 2017.

i Ao “maligno vapor pernambucano” se referia o anônimo autor do manuscrito “Revoluções do Brasil”, a fim de oferecer uma “Ideia Geral de Pernambuco em 1817”. In: Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano. Recife: Tip. Industrial, 1884, vol. 04, nº. 29, 2º sem. 1883, p. 48.

ii Os partidários da revolução se identificavam por “patriotas”.

iii A propósito, cf.: COSTA, Evaldo; ROSA, Hildo Leal da; e MOURA, Débora Cavalcantes de (Orgs.). Memorial do Dia Seguinte: a Revolução de 1817 em documentos da época. Recife: APEJE/CEPE, 2018, pp. 115-120.

iv Para a proposta benjaminiana de se “escovar a história a contrapelo”, com vistas a reconstituir as perspectivas dos vencidos, silenciadas pelas narrativas oficiais dos vencedores, cf.: BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1996, pp. 222 e ss.

v Por “Termo de Vila, ou Cidade”, compreendia-se, segundo Bluteau, “o distrito, ou espaço de terra, aonde chega a jurisdição dos juízes ordinários, ou de fora, ou outras justiças”. Em outras palavras, era o território sob a jurisdição municipal. BLUTEAU, Raphael. Vocabulário Português & Latino etc. Lisboa Ocidental: Of. de Pascoal da Silva, 1721, vol. 08, p. 114.

vi A Vila Real de Cimbres, de índios, depois município de Pesqueira, fora ereta em 1762; e as vilas de Garanhuns e Limoeiro, em 1811. Em 1815, os antigos julgados de Cabrobó e Tacaratu, porquanto compreendidos na nova Comarca do Sertão, seriam interinamente anexados à Vila de Flores do Pajeú pelo governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro. Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (APEJE), Ofícios do Governo (OG), L. 15, fl. 140v.

vii A Vila de São Francisco das Chagas, vulgarmente chamada da Barra, a de Pilão Arcado, e as povoações de Campo Largo e Carinhanha, passariam a compor, a partir de 1820, a Comarca do Rio de São Francisco; desligada de Pernambuco e incorporada a Minas Gerais, em 1824, e, em seguida, à Bahia, em 1827, em retaliação à Confederação do Equador. COSTA, F. A. Pereira da. Em Prol da Integridade do Território de Pernambuco. Recife: Tip. do Jornal do Recife, 1896, pp. 33-36.

viii As vilas reais de Assunção e Santa Maria foram eretas em 1761, e posteriormente extintas; e a Vila de Santo Antão, mais tarde Vitória, em 1811. Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), AHU_ACL_CU_015, Cx. 100, Doc. 7810, Anexo; e BOTELHO, Carla (Org.). Calendário Oficial de Datas Históricas dos Municípios de Pernambuco. Recife: CEHM, 2006, p. 170.

ix O Governo Provisório era a junta governamental da República de 1817, composto por cinco membros.

x Em derrotada a revolução, Santos Coelho procuraria fazer crer que assim procedera para dar-lhe “alguma melhor prova de condescendência”, e que “não só pretendi não dar àquele maldito governo a dita doação, como evitei toda a ocasião” de fazê-lo. COSTA, Evaldo et al. Memorial do Dia Seguinte, pp. 174-175.

xi Muniz Tavares publicaria a primeira edição de sua “História” em 1840, impressa na Tip. Imparcial do Recife. TAVARES, Francisco Muniz. História da Revolução de Pernambuco em 1817. 5ª ed. Recife: CEPE, 2017, pp. 07 e ss.

xii COSTA, Evaldo et al. Op. cit., p. 187.

xiii Id., ibid., pp. 178 e 188.

xiv Id., ibid., pp. 178 e 185-186.

xv Id., ibid., p. 185.

xvi A Alçada seria “enviada do Rio de Janeiro para sindicar e julgar os intitulados criminosos de lesa-majestade” envolvidos na revolução, em substituição à precedente Comissão Militar. MARTINS, José Dias. Os Mártires Pernambucanos: vítimas da liberdade nas duas revoluções ensaiadas de 1710 e 1817. 2ª ed. Recife: CEPE, 2022, p. 177; e TAVARES, Francisco Muniz. História da Revolução de Pernambuco em 1817, 5ª ed., p. 433.

xvii COSTA, Evaldo et al. Op. cit., pp. 179-180.

xviii Id., ibid., p. 119.

xix A revolução medrou de 06 de março a 20 de maio de 1817.

xx DOCUMENTOS Históricos (DH). Revolução de 1817. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1954, vol. CIV, p. 93.

xxi Atual município de Marechal Deodoro-AL.

xxii Provável alusão à Rebelião de Cusco, no Peru, onde, “em 1814, eclodiu um movimento contrário à Audiência local, reverberando descontentamentos contra o governo central de Lima”, que seria violentamente reprimido, no ano seguinte, pelas forças realistas. PIMENTA, João Paulo. A Independência do Brasil e a Experiência Hispano-Americana (1808-1822). São Paulo: HUCITEC, 2015, p. 195.

xxiii COSTA, Evaldo et al. Op. cit., pp. 167-172.

xxiv Id., ibid., p. 171

xxv Id., ibid., pp. 168-169.

xxvi No Apêndice à “História” de Muniz Tavares, constam, entre implicados e perdoados, os seguintes indivíduos: Antônio [Alves] Carneiro, cabra; Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, desembargador; Carlos Leitão [Cavalcanti] de Albuquerque, juiz ordinário; Cipriano [Antônio de Lima], sargento; Francisco, músico; Francisco de Sales Coelho [da Silva], vigário; João Carlos, oficial de justiça; João Francisco de Araújo, vereador; José da Silva Monteiro, vereador; José Francisco de Arruda, juiz ordinário; José Joaquim de Aragão, procurador da Câmara; Manuel, músico; Manuel Atanásio da Silva Cucharra; Manuel Caetano de Almeida, escrivão das Capelas e Resíduos; Manuel da Costa, cabra; Manuel de Cristo, músico; Matias José da Silva, escrivão da Correição; Miguel Justo, cabra. Dias Martins ainda cita Luís Carlos Coelho da Silva, sacerdote auxiliar do vigário. TAVARES, Francisco Muniz. Op. cit., pp. 485-529; e MARTINS, José Dias. Os Mártires Pernambucanos,2ª ed., p. 211.

xxvii DH, vol. CV, p. 127.

xxviii DH, vol. CV, pp. 10 e 127.

xxix DH, vol. CVI, pp. 134 e 171.

xxx DH, vol. CV, p. 127; e vol. CVII, p. 03.

xxxi DH, vol. CV, pp. 127-128; e vol. CVII, p. 04.

xxxii DH, vol. CV, p. 128.

xxxiii DH, vol. CV, p. 128; e TAVARES, Francisco Muniz. Op. cit., p. 207.

xxxiv Arquivo Nacional (AN). AUTO de perguntas ao padre Francisco de Sales. Disponível em: https://historialuso.an.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3491:autos-das-perguntas-ao-padre-francisco-de-sales&catid=151&Itemid=215. Acesso em: 15 out. 2025.

xxxv DH, vol. CV, p. 130; e AN, AUTO de perguntas ao padre Francisco de Sales.

xxxvi Bluteau anota que “publicar por bando” significava declarar-se “publicamente um decreto, uma lei”; e que, “entre nós, Bando é pregão de guerra, a som de caixa, com pena imposta aos transgressores de uma lei militar”. Cf. BLUTEAU, Raphael. Vocabulário Português & Latino etc. Coimbra: Colégio das Artes da Companhia de Jesus, 1712, vol. 02, p. 31.

xxxvii DH, vol. CV, p. 133; AN, AUTO de perguntas ao padre Francisco de Sales; e COSTA, F. A. Pereira da. Anais Pernambucanos. 2ª ed. Recife: FUNDARPE, 1983, vol. 07, pp. 469-470.

xxxviii DH, vol. CVI, p. 157.

xxxix DH, vol. CVI, pp. 169-170.

xl Buscando esquivar-se de todas as acusações, o vigário negaria haver entoado o Te Deum, antigo hino católico em louvor a Deus. Quanto às armas reais “que estavam sobre a porta principal da sua igreja”, argumentaria que “pediu que as não quebrassem, por serem de madeira muito antiga”; e, “dizendo a alguns que brevemente havia de carecer delas, guardou-as, escondendo debaixo das banquetas do trono da igreja, e as restituiu ao seu lugar” oportunamente. DH, vol. CVI, p. 144; vol. CIII, pp. 126-127; e AN, AUTO de perguntas ao padre Francisco de Sales.

xli Atualmente, distrito do município de Passira.

xlii COSTA, Evaldo et al. Op. cit., p. 116.

xliii COSTA, F. A. Pereira da. Anais Pernambucanos, 2ª ed., vol. 07, pp. 469-470.

xliv DH, vol. CV, p. 136.

xlv COSTA, Evaldo et al. Op. cit., pp. 220-223.

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