Nossas Produções – Caminhos da Revolta https://caminhosdarevolta.com.br Thu, 04 Dec 2025 19:15:47 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://caminhosdarevolta.com.br/wp-content/uploads/2025/07/faficon_Prancheta-1-copia.png Nossas Produções – Caminhos da Revolta https://caminhosdarevolta.com.br 32 32 Lugares de Memórias da Escravidão e da Liberdade no Sertão de Pernambuco https://caminhosdarevolta.com.br/lugares-de-memorias-da-escravidao-e-da-liberdade-no-sertao-de-pernambuco/ https://caminhosdarevolta.com.br/lugares-de-memorias-da-escravidao-e-da-liberdade-no-sertao-de-pernambuco/#respond Mon, 01 Dec 2025 15:01:03 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=979 Por que lembrar? Em um tempo em que a história parece se acelerar e o passado é frequentemente apagado pela modernidade voraz, voltar o olhar para o chão que pisamos não é apenas um ato de nostalgia, mas um ato político de resistência.

Quando o historiador Pierre Nora cunhou o termo “Lugares de Memória”, ele nos alertou que a memória viva, aquela transmitida organicamente de geração em geração, estava desaparecendo, dando lugar a uma “história reconstruída”. No entanto, ao adentrarmos o interior de Pernambuco e o Sertão do São Francisco, descobrimos que a memória da escravidão e, sobretudo, da resistência negra, não é apenas um monumento de pedra ou um arquivo empoeirado. Ela pulsa. Ela é território, reza e corpo.

Neste texto, vamos mapear e discutir esses lugares sagrados e de luta. Mas, diferentemente da visão clássica que busca a memória em estátuas oficiais, nós a buscamos onde ela foi forçada a se esconder e onde ela escolheu resistir: nas comunidades quilombolas que compraram sua própria liberdade e nos terreiros que preservam a África no coração da caatinga.

O Tempo da Escravidão Não Passou

Dialogando com a pensadora Saidiya Hartman, entendemos que o “tempo da escravidão” não é um capítulo encerrado nos livros de história. As rupturas causadas pelo tráfico transatlântico e a “vida póstuma da escravidão” ainda ecoam nas desigualdades do presente. Contudo, como Hartman nos lembra, a dor da perda também gerou uma capacidade criativa de reinventar a vida.

No Sertão, essa reinvenção se manifesta de formas surpreendentes:

  1. A Terra como Lugar de Memória: Como revelado na obra Sertão Quilombola, os quilombos desta região não são apenas refúgios de fuga. São territórios conquistados através da compra de terras, de alianças estratégicas com povos indígenas e de uma relação profunda com o ambiente, criando os “Quilombos-Lugar”, “Quilombos-Árvore” e “Quilombos-Bicho”. Aqui, a memória está na escritura da terra comprada do antigo senhor e na árvore sagrada que demarca o território.
  2. O Terreiro como Arquivo Vivo: Na Cartografia Social dos Terreiros, vemos que em cidades como Petrolina e Juazeiro (Bahia), a memória ancestral não se perdeu; ela se metamorfoseou. Os terreiros de Candomblé e Umbanda funcionam como guardiões de uma filosofia ecológica e comunitária. Eles são lugares de memória onde o corpo dança a história que a boca muitas vezes foi proibida de contar.

Se a teoria de Pierre Nora nos alerta para a fragilidade da memória e Saidiya Hartman nos aponta a continuidade do tempo da escravidão, os dados do Censo 2022 materializam esses conceitos em vidas reais. Aquela ‘memória que pulsa’, descrita anteriormente, tem agora um rosto e um número: são quase 80 mil pernambucanos que, ao se autodeclararem quilombolas, transformam a estatística em um ato político de afirmação identitária. Não estamos falando apenas de ruínas ou documentos antigos, mas da 5ª maior população quilombola do país, que resiste exatamente naqueles territórios do Sertão onde a liberdade foi historicamente negociada e conquistada.

Censo 2022: Pernambuco é o 5º Estado com Maior População Quilombola do Brasil

O Censo Demográfico de 2022 trouxe um marco histórico para a visibilidade das comunidades tradicionais no Brasil: pela primeira vez, o IBGE investigou especificamente o pertencimento étnico quilombola. Os dados revelam que Pernambuco ocupa a 5ª posição no ranking nacional, consolidando-se como um dos maiores territórios de resistência e identidade quilombola do país.

Aqui estão os principais destaques desse levantamento inédito:

A Força dos Números: Quase 80 Mil Quilombolas

Em Pernambuco, 78.827 pessoas se autodeclararam quilombolas. Esse número coloca o estado atrás apenas da Bahia (líder absoluta), Maranhão, Minas Gerais e Pará.

Essa contagem oficial é fundamental, pois tira essas populações da invisibilidade estatística e fornece a base necessária para a criação de políticas públicas de saúde, educação e regularização fundiária.

Onde Estão os Quilombolas em Pernambuco?

A presença quilombola é capilarizada: 113 dos 184 municípios pernambucanos (cerca de 61,4%) registraram a presença de ao menos uma pessoa autodeclarada quilombola. No entanto, algumas cidades se destacam como grandes redutos dessa ancestralidade, especialmente no Sertão e no Agreste.

Cidades com maior população absoluta (número total de pessoas):

  1. Custódia: 7.744 pessoas
  2. Bom Conselho: 6.473 pessoas
  3. Garanhuns: 5.938 pessoas
  4. Santa Maria da Boa Vista: 3.622 pessoas
  5. Mirandiba: 3.363 pessoas

A Densidade da Identidade: Mirandiba em Destaque

Quando olhamos para a proporção (a porcentagem da população da cidade que é quilombola), o cenário muda e revela onde a identidade é mais concentrada em relação ao total de habitantes:

  • Mirandiba: Lidera o ranking proporcional, com 23,74% de sua população total se declarando quilombola.
  • Betânia: 21,8%.
  • Custódia: 20,54%.
  • Brejão: 17,51%.
  • Itacuruba: 16,6%.

Raízes de Pedra e Rio: A Formação e Resistência dos Quilombos no Sertão

Para entender a força dessa identidade que hoje se afirma nas estatísticas, precisamos voltar ao chão batido da caatinga e ouvir as histórias de fundação que desafiam o senso comum, especialmente porque nem todo quilombo nasceu da fuga. No Sertão, a resistência assumiu múltiplas formas: nasceu de migrações pós-Canudos, da organização de negros libertos e de profundas alianças com povos indígenas. Essas comunidades não são apenas refúgios do passado; são territórios vivos, batizados com nomes de animais, árvores e gente — como os ‘Quilombos-Árvore’ (Gameleira, Jatobá) ou ‘Quilombos-Gente’ (Conceição das Crioulas, Negros de Gilú) — que revelam uma relação íntima e sagrada com o lugar.

Quando pensamos em quilombos, a imaginação nos leva quase que imediatamente à Serra da Barriga e ao grande Quilombo de Palmares: um refúgio de guerreiros em matas densas, isolados do sistema escravocrata. No entanto, ao voltarmos o olhar para a Caatinga e para as margens do Rio São Francisco, descobrimos uma história diferente.

A formação quilombola no Sertão de Pernambuco e na Bahia é mais complexa, surpreendente e, muitas vezes, contraintuitiva. Não se trata apenas de fuga, mas de negociação, compra de terras e alianças interétnicas. O estudo Sertão Quilombola revelou como essas comunidades não apenas ocuparam o espaço, mas criaram uma “territorialidade” única, moldando suas identidades entre a seca e o rio.

Muito Além da Fuga: As Múltiplas Origens

Embora os quilombos mais antigos tenham, sim, nascido da fuga da escravidão, a dinâmica mudou drasticamente no final do século XIX. As comunidades formadas a partir desse período são fruto de três movimentos principais:

  • Migrações Internas: Comunidades quilombolas já estabelecidas que se deslocaram em busca de melhores terras ou segurança.
  • Negros “Libertos”: Trabalhadores que deixaram fazendas de regime (semi)escravo para fundar seus próprios roçados.
  • A Diáspora de Canudos: A dispersão populacional após o fim da Guerra de Canudos (1897) levou grupos a migrarem para as margens do São Francisco, fundando novas comunidades baseadas na resistência e na fé.

O Fator Pluriétnico: O isolamento geográfico do Sertão favoreceu uma mistura única. Esses novos grupos não eram exclusivamente negros; eram frequentemente uma “configuração pluriétnica” que acolhia negros, brancos pobres e, fundamentalmente, indígenas.

A Terra Comprada: A Revolução Econômica Silenciosa

Uma das revelações mais fascinantes sobre o Sertão é que a liberdade, muitas vezes, não foi tomada pela força das armas, mas pela força do trabalho. Em uma realidade de resistência econômica monumental, diversos quilombos surgiram em territórios comprados — às vezes das mãos dos próprios ex-senhores — e registrados em cartório.

  • O Caso de Araçá e Buenos Aires: Homens como Seu Severino da Berruga (Buenos Aires) e João Balbino (Araçá) não esperaram por doações. Trabalharam arduamente para acumular capital e comprar suas terras, garantindo a posse legal para suas famílias.
  • O Sacrifício do Feijão: No quilombo do Feijão, a história conta que Jiboião precisou se desfazer de toda a sua criação de animais e vender inúmeros sacos de feijão para conseguir pagar por seus 42 hectares de terra.

A gente trabalha nessa terra há muitos anos. Já vem de 100 anos, meu avô morreu com a idade de 100 anos, eu acho que nós já pagamos essa terra! Já tá mais do que paga, a gente desde criança trabalhando nessa terra!” (Relato em Sertão Quilombola).

A Geografia da Identidade: O Nome é o Lugar

A conexão com o bioma Caatinga é tão profunda que ela define o “batismo” das comunidades. Os nomes não são aleatórios; eles refletem o que o estudo chama de territorialidade — o vínculo afetivo e prático com os recursos naturais que garantiram a sobrevivência do grupo.

  • Quilombos-Lugar (A Geografia): Brejo de Dentro, Serra do Talhado, Riacho do Meio.
  • Quilombos-Árvore (A Flora): Gameleira, Juazeiro Grande, Ingazeira, Jatobá.
  • Quilombos-Bicho (A Fauna): Abelha, Leitão, Gia, Poço dos Cavalos, Cachoeira da Onça.
  • Quilombos-Gente (A Ancestralidade): Conceição das Crioulas, Negros de Gilú.

Essa taxonomia revela que o território não era apenas um chão para morar, mas um espaço sagrado de caça, coleta, cura e refúgio.

Sede da AQCC. Fonte: acervo do INCRA. In: CARVALHO, Maria Letícia de Alvarenga. Quilombo de Conceição das Crioulas. Belo Horizonte: FAFICH, 2016, p. 11.

Mapeando a Resistência: Onde Estão?

MunicípioComunidades Quilombolas
SalgueiroConceição das Crioulas
MirandibaJuazeiro Grande, Araçá
CustódiaRiacho do Meio, Cachoeira da Onça, Serra da Torre, Buenos Aires
CarnaíbaBrejo de Dentro, Gameleira, Abelha
ItacurubaIngazeira, Poço dos Cavalos, Negros de Gilú
QuixabaGia
Afogados da IngazeiraLeitão (Leitão da Carapuça)
Santa TerezinhaSerra do Talhado

4. Alianças de Sangue: Negros e Indígenas

No Vale do São Francisco, a fuga das fazendas (como as de Floresta) não levou ao isolamento total, mas ao encontro. As rotas de fuga dos negros cruzavam territórios indígenas, gerando o que os historiadores chamam de “redes de sociabilidade intercomunitária”.

O acolhimento de negros em aldeias indígenas (temporário ou permanente) criou laços de parentesco indissolúveis. Essa fusão é visível hoje nos rituais, na medicina das rezadeiras e na própria fisionomia das populações sertanejas. A resistência à opressão colonial no Brasil foi, e continua sendo, uma luta interétnica.

O Progresso que Afoga a Memória

A água — elemento vital no semiárido — tornou-se um agente de apagamento da memória negra e indígena no século XX e XXI. Grandes projetos hídricos trouxeram o “desenvolvimento”, mas cobraram um preço alto das comunidades tradicionais.

  • Negros de Gilú (A Cidade como Exílio): Esta comunidade viveu o trauma do deslocamento compulsório pela CHESF para a construção da Hidrelétrica de Luiz Gonzaga. A inundação da velha Itacuruba forçou a comunidade a migrar para a periferia urbana (bairro Caixa D’água), rompendo o vínculo com a terra e o rio. Como lamentam os mais velhos: “perder a identidade é perder as brincadeiras, os rituais”.
  • Carvalho (O Risco da Transposição): Em Custódia, a comunidade de Carvalho viu sua igreja secular, construída pelas mãos de seus antepassados ex-escravizados, ameaçada de demolição pelas obras da Transposição do Rio São Francisco.

Filhos de Canudos: O Caso de Barrinha da Conceição

Um exemplo fascinante dessa resistência móvel é a comunidade de Barrinha da Conceição, em Juazeiro (BA). Sua origem não remonta à fuga de uma senzala colonial, mas à fuga da Guerra de Canudos (1896-1897).

Seus antepassados, sobreviventes do massacre de Belo Monte, migraram trazendo consigo a imagem de Nossa Senhora da Conceição e a tradição do “Samba de Veio”. Hoje, enquanto lutam por saneamento básico e educação, eles provam que a identidade quilombola é dinâmica: ela se refaz na luta diária pela cidadania, mantendo viva a memória de que seus avós não aceitaram a opressão da República Velha.

Uma História de Luta do Povo Negro: Vida, Fé e Memória nos Terreiros do Sertão

Se nos quilombos a resistência se deu historicamente através da conquista da terra e da produção agrícola, existe outro espaço no Sertão onde a memória africana não apenas sobreviveu, mas floresceu com uma força impressionante: os terreiros de Candomblé e Umbanda. Enquanto as comunidades quilombolas garantiam o sustento do corpo, os terreiros preservaram a “tecnologia” ancestral de cura e conexão com a natureza.

O estudo de Cartografia Social dos Terreiros, realizado por volta de 2015, revelou uma realidade que desafiava o senso comum. Longe da invisibilidade ou da presença discreta imaginada pela história oficial, pesquisadores mapearam uma rede vibrante e densa: quase cinco centenas de casas de culto espalhadas entre Petrolina (PE) e Juazeiro (BA).

Ao adentrarmos nesses territórios sagrados através dos registros dessa pesquisa, encontramos um caldeirão de resistência, onde a fé era definida como uma “religião ecológica” e a luta contra o preconceito se fazia no toque do tambor.

A “Pele” do Orixá e a Ecologia do Sagrado

A densidade religiosa identificada na época, liderada por figuras como Pai Gildo, Pai Jorge e Mãe Socorro, demonstrava que a fé de matriz africana era um pilar fundamental da organização social da região. Mais do que locais de culto, os terreiros funcionavam como guardiões de uma filosofia intrinsecamente ecológica.

Para essas comunidades, os Orixás são energias que atuam nas forças naturais – tempestades, rios, sol, plantas e metais. A máxima recorrente kosí ewe, kosí òrìsà (“sem folha não há orixá”) sintetizava essa relação onde a pessoa não apenas se sentia parte da natureza, mas entendia que “ela é a natureza”.

Essa sabedoria era transmitida através do que o Ogan Ricardo Nery definiu como uma “educação de pele”. O conhecimento não estava apenas nos livros, mas na vivência oral e corporal: aprendia-se olhando os rituais, escutando os mais velhos e vestindo a religião. A entrada nos cargos e funções, muitas vezes, era compreendida não como uma escolha pessoal, mas como uma designação ancestral.

A “Mãe África”: Metáfora e Identidade

Nos discursos recolhidos pela pesquisa, a figura da “Mãe África” aparecia como uma metáfora mítica necessária. Embora os entrevistados reconhecessem que o Candomblé “puro” pertencia ao continente africano, a idealização de uma “África ancestral” funcionava como uma estratégia política e discursiva para conferir legitimidade ao Candomblé, diferenciando-o da Umbanda.

Nesse contexto, a Umbanda era caracterizada como a “verdadeira religião brasileira” devido ao seu sincretismo de elementos africanos, indígenas e cristãos, enquanto o Candomblé se posicionava como guardião de uma proximidade maior com as raízes negras. Contudo, a prática sertaneja mostrava que tais fronteiras eram fluidas: inúmeros terreiros operavam com práticas “cruzadas”, transitando entre as nações e as linhas de caboclo.

Essa fluidez foi personificada em lideranças registradas na época:

  • Pai Gildo: Considerado então o Babalorixá mais antigo da região, transitava entre as vertentes, ensinando que “o importante é zelar pelos orixás”, independentemente do rótulo.
  • Mãe Maria de Tempo: Liderança da Nação Angola em Juazeiro, cujos relatos ajudaram a compreender como a realidade sertaneja forjou o “Candomblé de Caboclo”, uma fusão que honrava tanto a ancestralidade africana quanto a indígena local.

Conflitos e a “Ecologia de Sangue”

A pesquisa também documentou as tensões enfrentadas por essas comunidades, especialmente no que tange ao sacrifício animal, ou imolação. Para os povos de terreiro, essa prática não era crueldade, mas uma “Ecologia de Sangue”. O sangue (ou axé) era visto como veículo de energia vital circulando entre seres, divindades e terra.

Um caso emblemático registrado foi o de Mãe Renilda, em 2012. Seu terreiro, a Tenda de Umbanda Estrela da Guia, em Petrolina, sofreu uma invasão da Vigilância Sanitária que tratou o espaço sagrado como um “abatedouro clandestino”. O episódio evidenciou o racismo institucional e desencadeou uma batalha jurídica pelo reconhecimento de que a visão de mundo africana sobre a natureza e a vida é válida e deve ser protegida constitucionalmente.

As Rezadeiras: A Medicina da Fé nas Margens

Nas franjas dos terreiros e das igrejas, a cartografia também identificou a presença fundamental de rezadeiras e rezadores. Eles atuavam como guardiões de um saber medicinal que a ciência oficial muitas vezes ignorava, utilizando plantas da caatinga e orações.

Figuras como Seu Zé do Vira Beijú (entrevistado aos 84 anos) e Dona Maria dos Santos exemplificavam a sobrevivência desses métodos. Seja curando “espinhela caída” com pinhão-roxo ou retirando “quebranto” com galhos de mussambé, essas práticas misturavam fé católica e pajelança indígena, provando que a cura no Sertão sempre foi plural.

Considerações Finais: Caminhos da Revolta e a Memória Viva do Sertão

O site Caminhos da Revolta nasceu com a missão de trazer luzes sobre as histórias de resistência que moldaram a identidade do Sertão de Pernambuco, muitas vezes silenciadas ou simplificadas pela historiografia tradicional. Ao percorrermos as trilhas dos Quilombos e Terreiros, desde a compra da terra no século XIX até a luta contra o racismo institucional no século XXI, confirmamos que a memória não é um arquivo estático, mas uma força viva e transformadora.

Os registros aqui reunidos, fixados no tempo pelas pesquisas de Sertão Quilombola e da Cartografia Social dos Povos de Terreiro de Petrolina e Juazeiro, servem hoje como prova documental de uma resistência histórica. Eles revelam que o Sertão de Pernambuco, como também o da Bahia, nunca foi um vazio espiritual ou cultural. Pelo contrário, foi e continua sendo um palco onde a memória africana e indígena se reinventou para sobreviver à seca, à escravidão e ao esquecimento.

Seja na luta pela terra nos quilombos de Araçá e Conceição das Crioulas, seja na defesa do sagrado nos terreiros de Juazeiro e Petrolina, a história desse povo confirma que a memória cura, educa e, acima de tudo, resiste. Estes são os verdadeiros caminhos da revolta: trilhas que nos levam do passado traumático ao presente de luta, provando que, enquanto houver quem conte a história e quem bata o tambor, a chama da liberdade no Sertão jamais se apagará.

Referências

ARARIPE, André; NASCIMENTO, Erika (org.). Sertão Quilombola: a formação dos quilombos no sertão de Pernambuco. Olinda: Centro de Cultura Luiz Freire; Comissão Estadual de Comunidades Quilombolas de Pernambuco, 2008.

CENSO 2022: Pernambuco é o quinto estado do Brasil com maior população quilombola, com 78.827 pessoas. G1, Pernambuco, 27 jul. 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2023/07/27/censo-2022-pernambuco-e-o-quinto-estado-do-brasil-com-maior-populacao-quilombola-com-78827-pessoas.ghtml. Acesso em: 28 nov. 2025.

GONÇALVES, Janice. Lugares de memória, memórias concorrentes e leis memoriais. Revista Memória em Rede, Pelotas, v. 7, n. 13, p. 15-28, jul./dez. 2015.

GONÇALVES, Janice. Pierre Nora e o tempo presente: entre a memória e o patrimônio cultural. Historiæ, Rio Grande, v. 3, n. 3, p. 27-46, 2012.

HARTMAN, Saidiya. O Tempo da Escravidão. Tradução de Kênia Freitas, Cíntia Guedes e Matheus Araujo dos Santos. Periódicus, Salvador, n. 14, v. 1, p. 242-262, nov. 2020/abr. 2021.

MARQUES, Juracy; NOVAES, Joaquim (org.). Candomblé e Umbanda no Sertão: cartografia social dos terreiros de Petrolina/PE e Juazeiro/BA. 1. ed. Paulo Afonso: SABEH, 2015.

SANTOS, Márcia Guena dos et al. Quilombos do submédio São Francisco: definições e delimitações. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 34., 2011, Recife. Anais […]. São Paulo: Intercom, 2011.

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O Despertar da República: A Gênese do Debate e Suas Contradições https://caminhosdarevolta.com.br/o-despertar-da-republica-a-genese-do-debate-e-suas-contradicoes/ https://caminhosdarevolta.com.br/o-despertar-da-republica-a-genese-do-debate-e-suas-contradicoes/#respond Mon, 01 Dec 2025 14:22:17 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=959 O debate republicano no Brasil não nasceu de um evento ocorrido do dia para a noite. Ele foi lentamente discutido sobre os escombros de uma monarquia que, a partir de meados do século XIX, começou a perder sua capacidade de acomodar as transformações sociais e econômicas do Brasil. Longe de ser um movimento homogêneo, a “ideia republicana” foi um conjunto de interesses diferentes, unindo cafeicultores, militares descontentes e intelectuais urbanos sob uma mesma bandeira de contestação

1870: o marco da ruptura institucional

Embora o descontentamento existisse de muitas formas, o debate ganhou corpo e doutrina com a publicação do Manifesto Republicano em dezembro de 1870, em São Paulo. Este documento transformou críticas em um programa político organizado.

Os republicanos históricos atacavam as estruturas centrais da monarquia, focando em quatro pilares de descontentamento:

  • O Poder Moderador: Visto como uma ferramenta de arbítrio pessoal do Imperador e fonte de corrupção.
  • A Centralização: O desejo por um federalismo real que desse autonomia às províncias (futuros estados).
  • O Senado Vitalício: Um símbolo de privilégio aristocrático que impedia a renovação política.
  • A Exclusão Política: A crítica a um sistema representativo que ignorava a vasta maioria da população.

Duas Repúblicas em disputa: o agrarismo paulista vs. o urbanismo pernambucano

Um dos aspectos mais fascinantes do início desse debate é a profunda diferença de base social entre as províncias. Em São Paulo, por exemplo, o republicanismo foi impulsionado pela potência econômica do Oeste Paulista. Ali, a modernização do café e a expansão ferroviária criaram uma elite que via a Monarquia como um entrave ao seu poder econômico. Estatisticamente, 58,6% do movimento republicano paulista era composto por grandes lavradores. Para eles, a República era uma questão de federalismo e autonomia econômica.

Já em Pernambuco, havia um contraste radical. Embora tenha sido o berço histórico de revoluções, o republicanismo teve um caráter marcadamente urbano. Apenas 2,6% dos republicanos pernambucanos eram agricultores. O movimento era composto por advogados, estudantes, jornalistas e artesãos do Recife.

Isso gerou pautas distintas: enquanto o Sul priorizava o federalismo, em Pernambuco o debate foi moldado pelas urgências do trabalhador urbano. A carestia, o desemprego e os impostos abusivos fizeram com que a República fosse idealizada como uma ‘tábua de salvação’ para as mazelas cotidianas, criando uma expectativa de melhoria material imediata que, inevitavelmente, resultaria em frustração.

É fundamental ressaltar que o debate republicano não se limitou aos interesses econômicos, sendo travado também no campo das ideias políticas e filosóficas. Estudantes e intelectuais, especialmente das escolas militares do Rio de Janeiro, apropriaram-se do Positivismo de Auguste Comte e do Evolucionismo de Herbert Spencer para conferir um verniz ‘científico’ à oposição que faziam à coroa imperial. Para essa geração, a Monarquia não era apenas politicamente injusta; ela era ‘cientificamente’ obsoleta, uma etapa a ser inevitavelmente superada na evolução social.

O fator militar: da guerra à política

Esse debate transbordou dos jornais para a caserna, penetrando nas escolas militares e nas Forças Armadas após a Guerra do Paraguai (1864-1870). O Exército retornou do conflito com uma nova identidade corporativa e um profundo ressentimento contra a elite civil imperial, a quem acusava de negligência e corrupção. Cristalizava-se ali o conflito entre a ‘Casaca’ (os políticos civis) e a ‘Farda’ (os militares), com estes últimos passando a reivindicar um papel de protagonismo na condução do Estado.

Liderados por figuras como Benjamin Constant, que doutrinava a “mocidade militar” na Escola Militar do Rio de Janeiro, e pelo Marechal Deodoro da Fonseca no Clube Militar, as Forças Armadas passaram a se ver como um “Poder Moderador” alternativo. O debate, para eles, era sobre moralidade, ordem e progresso técnico, culminando na convicção de que a mudança de regime era uma missão patriótica de “salvação nacional”.

O debate republicano também foi impulsionado pela Questão Abolicionista. Inicialmente, muitos republicanos (especialmente em SP) evitaram o tema para não alienar os fazendeiros escravocratas. Mas com a inevitabilidade do fim da escravidão, o movimento republicano soube capitalizar o ressentimento da elite agrária tradicional pós-Lei Áurea (1888). Republicanos atraíram os “escravocratas feridos”, que aderiram à causa não por convicção democrática, mas por vingança contra a Coroa que lhes retirou a “propriedade” sem indenização, os chamados “republicanos do dia seguinte”.

O 15 de Novembro: um golpe, não uma festa popular

Ao contrário do imaginário popular, a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, não brotou da vontade do povo nas ruas. Tratou-se, na prática, de um golpe militar. A manobra foi orquestrada por uma facção específica do Exército, articulada sob dois pilares: a liderança de prestígio do Marechal Deodoro da Fonseca, essencial para mobilizar a tropa nas ruas, e a influência intelectual de Benjamin Constant, o grande ideólogo que doutrinou a “mocidade militar” com os ideais republicanos. Esse núcleo fardado agiu em diálogo com as elites civis – políticos e cafeicultores insatisfeitos – que deram o suporte político necessário para a derrubada do trono.

O Povo Ficou de Fora. A população comum não participou da decisão. No dia do golpe, as pessoas assistiram à movimentação das tropas sem entender o que estava acontecendo. Um jornalista da época, Aristides Lobo, descreveu a cena de forma célebre: o povo assistiu a tudo “bestializado”, ou seja, surpreso e confuso, achando que aquilo era apenas um desfile militar, sem saber que o governo imperial estava sendo derrubado.

Mas o que motivou a ruptura? Longe de ser fruto apenas de idealismo cívico, o movimento foi impulsionado por interesses pragmáticos e corporativos. De um lado, o Exército, fortalecido após a Guerra do Paraguai, ressentia-se do tratamento recebido pelo Império e exigia protagonismo político, vendo-se como o verdadeiro tutor da nação. Do outro, a elite agrária tradicional rompeu com o trono por uma questão de bolso: a assinatura da Lei Áurea (1888). Sentindo-se traídos pela Coroa, que aboliu a escravidão sem oferecer indenização, esses fazendeiros tornaram-se os chamados “republicanos de última hora”, apoiando a queda da Monarquia não por convicção democrática, mas por retaliação.

Benjamin Constant – Arquivo Nacional, Domínio público
Benjamin Constant – Arquivo Nacional, Domínio público

Manuel Deodoro da Fonseca, presidente do Brasil de 1889 a 1891 – Galeria dos Presidentes da República. Domínio Público
Manuel Deodoro da Fonseca, presidente do Brasil de 1889 a 1891 – Galeria dos Presidentes da República. Domínio Público

Pernambuco em ebulição (1889-1892)

A queda do Império, em 15 de novembro de 1889, não inaugurou uma era de paz em Pernambuco. Pelo contrário: quando a notícia da Proclamação chegou ao estado no dia seguinte, 16 de novembro, o súbito vácuo de poder transformou o território em um campo de batalha político. Instalou-se uma disputa acirrada pela hegemonia da nascente República, fragmentando o cenário local em três forças principais, cada qual com uma visão distinta de poder:

  • Os Marianistas (Democratas): Liderados pelo ídolo popular José Mariano. Eram abolicionistas, tinham o apoio do povo nas ruas e defendiam que Pernambuco tivesse muita autonomia (federalismo). Eram vistos com desconfiança pelos outros grupos por serem ex-liberais do Império.
  • Os Lucenistas (Conservadores): A elite tradicional, ligada aos grandes latifundiários. Seus líderes, como o Barão de Lucena e Rosa e Silva, eram políticos experientes que tentavam se adaptar ao novo regime para não perder prestígio.
  • Os Republicanos Históricos: Liderados por Martins Júnior. Eram os “puristas” ideológicos. Acreditavam que só eles, que eram republicanos antes de 1889, tinham legitimidade moral para governar. Odiavam os “adesistas” (gente que mudou de lado na última hora).

O primeiro governador, Marechal José Simeão de Oliveira, tentou uma política de moderação que desagradou profundamente os martinistas. Inconformado com a aproximação entre o governador e o grupo de José Mariano, Martins Júnior viajou ao Rio de Janeiro para intrigar pessoalmente contra Simeão, conseguindo sua queda em abril de 1890. Em seu lugar assumiu Albino Meira, um aliado dos martinistas que prontamente aparelhou a administração pública pernambucana.

Contudo, essa hegemonia durou pouco. A influência pessoal do Barão de Lucena sobre o Marechal Deodoro da Fonseca reverteu o jogo, derrubando Meira e colocando o próprio Lucena no poder em agosto de 1890. Lucena tentou uma “política de conciliação”. Mas, vencendo as eleições para a Constituinte, logo partiu para o Rio de Janeiro para ser ministro, deixando o desembargador José Antonio Correia da Silva em seu lugar para promulgar a primeira Constituição do Estado de Pernambuco em junho de 1891.

A situação sofreu uma reviravolta violenta com a renúncia de Deodoro da Fonseca em 23 de novembro de 1891. Sem seu protetor na capital federal, o governo apoio pelo Barão de Lucena em Pernambuco ficou isolado e vulnerável. Os republicanos históricos, vendo a oportunidade de retomar o poder, aliaram-se ao Exército e, na noite de 18 de dezembro de 1891, protagonizaram um combate sangrento no centro do Recife. Tropas federais comandadas pelo General Ourique Jacques enfrentaram a polícia estadual na Praça da República; o tiroteio resultou na deposição do governo e em um número incerto de mortos e feridos, levando uma Junta Governativa martinista ao poder.

No entanto, a vitória militar não garantiu a estabilidade política. O novo presidente, Floriano Peixoto, recusou-se a apoiar a Junta e impôs um nome de sua confiança, Alexandre José Barbosa Lima. Embora pernambucano, Barbosa Lima era visto como um forasteiro, pois fizera sua carreira no Ceará. Eleito formalmente em abril de 1892 pelo Congresso Estadual (então dominado pelos martinistas), ele logo rompeu com seus eleitores ao prometer a “verdade eleitoral” e recusar o uso da máquina pública para favorecer o partido. O conflito escalou quando o governador demitiu o Questor Policial, homem de confiança de Martins Júnior, e adiou as eleições federais. O que se seguiu foi uma guerra institucional:

  • O Legislativo tentou suspender o governador.
  • Barbosa Lima ignorou o Legislativo e governou com mão de ferro.
  • Para sobreviver politicamente, ele fez alianças impensáveis, unindo-se brevemente até aos seus inimigos, os Marianistas.

Os conflitos da República no interior de Pernambuco.

Enquanto as disputas políticas se desenrolavam nos salões e jornais do Recife, uma série de conflitos armados eclodiu no interior do estado, revelando que a nova ordem estava longe de ser um consenso. A luta central se deu entre o projeto centralizador do governador Alexandre José Barbosa Lima e o poder local dos chefes políticos — os coronéis — ligados à oposição dos “republicanos históricos”, liderados por Martins Júnior. Mais do que uma mera disputa pelo poder, o conflito colocava em questão a própria natureza da autoridade no novo regime.

O cenário que levou ao conflito começou a se formar durante o governo da Junta Governativa, período em que os “republicanos históricos” de Martins Júnior venceram as eleições municipais, um pleito boicotado por seus adversários “lucenistas“. Com isso, conseguiram instalar seus aliados no poder local, garantindo uma importante base de poder político e administrativo no interior de Pernambuco.

Em 15 de agosto de 1892, o governador Barbosa Lima lançou uma declaração de guerra a essa estrutura de poder. Em um ato de força, decretou a dissolução de todas as municipalidades do estado, desferindo um golpe fatal contra a base de seus rivais. A justificativa oficial foi dupla: que os conselhos haviam sido eleitos em um pleito sem oposição, o que questionava sua legitimidade, e que a nova Lei Orgânica Municipal ainda não havia sido devidamente implementada. No entanto, a natureza do ato era inequivocamente política, um desafio direto ao poder dos coronéis.

A resposta ao decreto foi imediata e violenta. Os conselhos municipais depostos, muitos diretamente ligados a Martins Júnior, recusaram-se a abandonar seus postos. O que começou como resistência passiva rapidamente se converteu em insurgência armada, dando início a uma onda de levantes que se espalhou por todo o interior, desafiando a autoridade do governo central no Recife.

Logo após o decreto do governador, diversas localidades se levantaram em armas, demonstrando a amplitude e a organização da resistência ao poder de Barbosa Lima.

• Goiana: A revolta foi liderada pelo ex-comandante da guarda local, Antonio dos Santos Medeiros de Aguiar. Sob seu comando, “matutos” armados inutilizaram a linha telegráfica e tomaram a cadeia da cidade. A insurgência forçou uma resposta imediata do governo estadual, que enviou uma força de 40 praças para reprimir o movimento.

• Canhotinho: A cidade foi assaltada por um grupo liderado pelo deputado estadual e capitão Manoel Câmara. Os revoltosos roubaram armamentos e, após o confronto, fugiram para a propriedade do capitão no município de Água Branca.

• Garanhuns: A cidade também foi palco de um ataque, com a particularidade de a insurreição ter sido liderada pelo próprio subcomissário de polícia local, demonstrando a divisão de lealdades dentro do próprio aparelho estatal.

• Outras Localidades: Para evidenciar a extensão da reação, insurreições semelhantes, embora rapidamente controladas, também ocorreram em Salgueiro, Ingazeira e Vila Bela (atual Serra Talhada).

A natureza geograficamente dispersa e quase simultânea desses levantes demonstrou a existência de uma lógica e organizada rede de oposição, provando que o decreto de Barbosa Lima havia atingido um nervo que se estendia por todo o estado, e não apenas em focos isolados de descontentamento.

O Sertão em chamas: a Rebelião de Triunfo

O conflito mais duradouro, organizado e violento desse período ocorreu no Sertão do Pajeú, centralizado no município de Triunfo. Este episódio não foi um evento isolado, mas sim parte integrante das tramas políticas estaduais, demonstrando a profunda conexão entre o interior e a capital nos primeiros anos da República.

O principal líder da rebelião foi o coronel e deputado estadual Antônio Gomes Correia da Cruz. Com forte ligação política com Martins Júnior, ele se recusou a aceitar a posse da nova intendência nomeada pelo governador para Triunfo. A revolta contou também com o apoio popular e a liderança religiosa do padre Laurindo Douettes, que mobilizou os sertanejos para a luta contra o governo do estado.

As forças de Correia da Cruz, compostas por mais de cem homens, adotaram táticas de guerrilha, transformando o conhecimento da caatinga em vantagem militar. As tropas não lutavam como unidade única, mas dispersas em pequenos grupos, dificultando a perseguição.

A logística do conflito, contudo, revela a dureza da vida no front. O diário de campanha do Coronel Correia da Cruz expõe uma “contabilidade de guerra” rigorosa, onde ele registrava cuidadosamente cada boi, novilho ou saca de farinha fornecidos por aliados — de grandes coronéis a sertanejos humildes — sugerindo uma rede de solidariedade e promessas futuras de pagamento. Apesar dessa rede, a escassez era constante. Em momentos de penúria, os combatentes chegaram a recorrer à caça de tatus-bola e outros animais de pequeno porte para não morrerem de fome.

A rebelião em Triunfo foi diretamente financiada e instruída pela oposição no Recife, desmentindo a ideia de um levante espontâneo ou isolado. Cartas apreendidas e publicadas posteriormente comprovam que Martins Júnior atuava como o estrategista intelectual do movimento.

Em uma carta confidencial datada de 4 de setembro de 1892, Martins Júnior não apenas incentivava o conflito, mas ditava táticas militares, sugerindo ao Coronel que procurasse “inutilizar a força” governista antes que chegasse ao destino ou realizasse uma “retirada falsa” caso a luta fosse desvantajosa. O apoio material era explícito: o líder republicano colocou à disposição dos revoltosos “até um conto de réis”, que poderiam ser sacados contra a Casa Tavares de Melo, uma firma comercial do Recife, evidenciando o fluxo financeiro que sustentava a pólvora no sertão.

Contrainsurgência e Violência Simbólica

A resposta do governador Barbosa Lima configurou-se como uma autêntica operação de contrainsurgência. As forças estaduais, reforçadas e sob o comando do Tenente Florêncio de Carvalho, descrito nas cartas de Martins Júnior como um homem “capaz de tudo”, focaram não apenas no combate direto, mas no desmantelamento das redes de apoio familiar e logístico dos rebeldes.

A violência repressiva adquiriu contornos de crueldade simbólica e ataque à honra pessoal. Relatos da época denunciam que as tropas governistas invadiam residências, destruíam currais e espancavam civis. Um episódio emblemático do “furor satânico” descrito pelas fontes foi o suplício imposto ao revoltoso João Cosme: após ser capturado, teve suas barbas cortadas pelos soldados e foi forçado a engoli-las — uma humilhação suprema no código de conduta masculino do sertão — além de sofrer outras torturas físicas.

A combinação de superioridade bélica e terror sistemático contra a população civil minou a resistência. Com a ocupação de Triunfo e Flores e a posse das novas autoridades, a rebelião foi oficialmente encerrada em meados de 1893, consolidando, através da força, a autoridade de Barbosa Lima sobre o Alto Sertão.

Considerações Finais: a República forjada a ferro e fogo

A transição do Império para a República, longe de representar uma ruptura mágica ou a instauração imediata da cidadania, revelou-se no interior de Pernambuco como a continuidade — e muitas vezes o agravamento — das velhas práticas de mando e violência. Os eventos descritos, especialmente a Revolta de Triunfo, desmistificam a narrativa de um interior passivo ou alienado politicamente. O Sertão não foi apenas um espectador distante das disputas do Recife, foi o palco sangrento onde a hegemonia política do estado foi decidida.

A análise dos conflitos em Goiana, Garanhuns e, sobretudo, no Sertão do Pajeú, expõe a umbilical conexão entre a “alta política” da capital e a guerrilha na caatinga. A revolta liderada pelo Coronel Correia da Cruz e pelo Padre Douettes não foi um surto isolado de “matutos”, mas uma guerra por procuração, financiada e estrategicamente orientada pela oposição urbana de Martins Júnior. A “contabilidade de guerra” encontrada nos diários e a brutalidade da repressão — com seus requintes de violência simbólica, como a humilhação imposta a João Cosme — demonstram que a disputa não era apenas por cargos, mas pela honra e pela sobrevivência de redes de clientelismo e poder local.

Em última análise, a vitória militar de Barbosa Lima sobre as insurgências do interior não inaugurou a democracia federativa sonhada pelos idealistas de 1870. Pelo contrário, ela consolidou um federalismo autoritário, onde a autonomia municipal foi sacrificada no altar da governabilidade estadual. A pacificação de Triunfo e a submissão dos coronéis rebeldes foram os atos fundadores de uma nova ordem oligárquica, provando que, para o sertanejo, a República não chegou com o hino da liberdade, mas com o estrondo da repressão e a centralização da força.

Referências

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DOLHNIKOFF, Miriam. História do Brasil Império. São Paulo: Contexto, 2017.

HOFFNAGEL, Marc Jay. O Movimento Republicano em Pernambuco (1870-1889). Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, Recife, v. 49, p. 31-56, 1977.

HOFFNAGEL, Marc Jay. Tensões e conflitos na consolidação da República em Pernambuco: a Revolta de Triunfo. Revista CLIO: Revista de Pesquisa Histórica, Recife, v. 28, n. 2, p. 01-12, 2010.

LEMOS, Renato. A alternativa republicana e o fim da monarquia. In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo. (Org.). O Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, v. 3, p. 401-444.

MELO, Mário. O Movimento Patriótico do Município do Triunfo. Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, Recife, v. 39, p. 189-203, 1944.

ZACARIAS, Audenice Alves dos Santos. Legalidade e autoridade: a implantação da república no Estado de Pernambuco (1889-1893). 2009. 154 f. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2009.

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A Confederação do Equador e os Sertões: rebeldia, esperança e resistência https://caminhosdarevolta.com.br/a-confederacao-do-equador-e-os-sertoes-rebeldia-esperanca-e-resistencia/ https://caminhosdarevolta.com.br/a-confederacao-do-equador-e-os-sertoes-rebeldia-esperanca-e-resistencia/#respond Tue, 26 Aug 2025 01:08:46 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=411 A Confederação do Equador foi uma das maiores revoltas ocorridas no Brasil no início do século XIX. O movimento teve início em Pernambuco, mas logo ganhou força na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte, chegando a inspirar movimentos no Maranhão e em outras províncias. Seu objetivo principal era claro: lutar contra o autoritarismo de Dom Pedro I e o sistema centralizador da monarquia recém-criada. A alternativa proposta era a de um Brasil republicano e federalista, no qual cada província teria mais autonomia para tomar decisões administrativas e políticas.

Logo após a Independência do Brasil, Pernambuco e outras províncias do norte viveram um período de grande tensão. Inicialmente, grande parte das elites locais apoiou a independência, mas sob certas condições: exigiam uma monarquia constitucional — ou seja, com limites ao poder do imperador — e a manutenção de certa autonomia política, a exemplo das Juntas Provinciais de Governo, criadas entre 1820 e 1821. Essas juntas permitiam que as províncias escolhessem seus próprios dirigentes.

Contudo, em 1823, o governo de Dom Pedro I adotou medidas que desagradaram a muitos, principalmente no Norte do país:

  • Criou os cargos de Presidentes de Província, que eram escolhidos diretamente pelo imperador, retirando dos grupos locais o direito de decidir sobre seus próprios governos.
  • Fechou a Assembleia Constituinte, que deveria discutir a Constituição do Brasil, em um ato considerado autoritário.

Foi nesse clima que Frei Caneca, importante líder religioso e intelectual, começou a publicar o jornal Typhis Pernambucano, no qual denunciava os abusos do governo e defendia ideias federalistas e liberais.

As disputas internas em Pernambuco

Em Pernambuco, o cenário político também estava dividido. Desde setembro de 1822, o poder provincial era controlado pela chamada “Junta dos Matutos”, formada por grandes senhores de engenho da Mata Sul. Em dezembro de 1823, porém, devido as insatisfações com o governo e falta de autoridade dos “Matutos”, outra junta foi eleita, liderada por Manoel de Carvalho Paes de Andrade e com nomes de peso como Frei Caneca e José da Natividade Saldanha, todos participantes da Revolução Pernambucana de 1817.

Os “Matutos” não aceitaram o resultado e recorreram ao imperador para manter sua influência. 15Em resposta, Dom Pedro I nomeou Francisco Paes Barreto — o “Morgado do Cabo” e seu aliado — para a presidência da província, que até então presidia a Junta dos Matutos. No entanto, quando o nome foi apresentado em fevereiro de 1824, a maior parte da elite pernambucana se recusou a aceitar a decisão do imperador.

Isso gerou a existência de dois governos rivais na província:

  • A junta de Manoel de Carvalho Paes de Andrade, apoiada pelos setores federalistas e liberais de Recife e Olinda.
  • O governo de Francisco Paes Barreto, sediado na vila do Cabo, com apoio direto do imperador.

O caminho para a revolta

Em abril de 1824, Frei Caneca escreveu que aceitar a nomeação de Paes Barreto seria o mesmo que legitimar a política autoritária e centralizadora de Dom Pedro I. Nos meses seguintes, a tensão apenas aumentou. Enquanto o imperador enviava sua nova Constituição de 1824 — outorgada por ele mesmo e vista como um “projeto pérfido” por seus críticos — para ser aceita pelas câmaras municipais, os líderes pernambucanos se recusavam a abrir mão do governo local.

Entre maio e junho, as tropas de Paes de Andrade começaram a agir contra o governo rival, que se retirou para Alagoas, aguardando reforços do imperador. Já era claro que o conflito não se restringiria a disputas políticas. Em 2 de julho de 1824, foi proclamada a Confederação do Equador. O nome fazia referência à linha do Equador, próxima ao território nordestino, e simbolizava a tentativa de criar uma união de províncias autônomas.

Inspirados pela experiência de 1817, os confederados defenderam um regime republicano e federalista, em oposição ao modelo centralizador de Dom Pedro I. A revolta rapidamente recebeu a adesão das províncias da Paraíba, do Ceará e do Rio Grande do Norte, contando com o apoio de militares, políticos e religiosos que buscavam um Brasil mais descentralizado.

O imperador reagiu sem demora, enviando tropas que, com a ajuda de aliados locais, estabeleceram uma forte repressão. A rebelião na Paraíba e no Rio Grande do Norte foi rapidamente sufocada. O Ceará resistiu um pouco mais, mas, em 12 de setembro de 1824, a revolta foi militarmente derrotada. 

A fuga foi a solução encontrada por alguns. Manoel de Carvalho Paes de Andrade conseguiu escapar para a Inglaterra com sua família. Já Frei Caneca, considerado o símbolo intelectual e político da Confederação, foi preso e executado, tornando-se o mártir mais lembrado da causa.

O que os confederados realmente queriam?

Segundo o historiador Luiz Geraldo Silva, os confederados não buscavam “esquartejar o império” e fundar novos países. Seu objetivo principal era garantir o pacto constitucional firmado na Independência e propor um modelo alternativo de organização para o Brasil, mais descentralizado e diferente do projeto autoritário imposto pelas elites do Sul e pela corte do Rio de Janeiro.

A Confederação do Equador foi uma das mais fortes contestações ao poder de Dom Pedro I. Embora tenha sido breve e violentamente derrotada, deixou lições fundamentais ao expor as profundas divisões do Brasil recém-independente e a força das províncias do Norte na defesa de projetos federalistas. A Confederação foi, em suma, uma tentativa frustrada de construir um projeto alternativo de Estado Imperial.

Por que Pernambuco se revoltava tanto?

Pernambuco tem uma longa história de lutas e contestações, o que ajuda a entender o clima de insatisfação que eclodiu em 1824.

  • Durante o domínio holandês (1630-1654), sob o governo de Maurício de Nassau, a região experimentou certa liberdade e organização autônoma, o que marcou a memória da província.
  • A Restauração Pernambucana, quando os pernambucanos expulsaram os invasores, reforçou a ideia de que poderiam se governar sozinhos.
  • Com a Guerra dos Mascates (1710), já surgiam os primeiros debates sobre a criação de uma república em Pernambuco.
  • A Revolução Pernambucana de 1817, embora fracassada, foi muito lembrada e consolidou ideias de republicanismo, resistência à dominação portuguesa e crítica à monarquia.

Esses antecedentes formaram o que Ulysses de Carvalho Brandão chamou de “gênio pernambucano” de autonomia. Além disso, após a Independência em 1822, muitos pernambucanos sentiram-se prejudicados: o dinheiro da província era enviado para o Rio de Janeiro, mas pouco retornava em benefícios. A dissolução da Assembleia Constituinte por Dom Pedro I em 1823 foi a gota d’água, deixando claro que o imperador desejava governar sem dividir o poder com as províncias.

A Proclamação da Confederação do Equador

Em 2 de julho de 1824, lideranças de Pernambuco proclamaram oficialmente a Confederação do Equador. Eles defendiam:

  • uma república, em vez da monarquia;
  • um sistema federalista, no qual cada província teria autonomia;
  • medidas ousadas, como a abolição do tráfico de escravos.

O movimento se espalhou rapidamente, com levantes na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte. Até regiões mais distantes, como o Maranhão, sentiram os ecos da revolução.

O Sertão entra em cena

É possível afirmar que foi nos sertões e nas áreas rurais que o movimento mostrou sua força real. Na Paraíba, a participação popular foi intensa, especialmente na vila do Brejo, enquanto a vila de Areia liderou importantes levantes contra o presidente nomeado pelo imperador. O maior momento de luta ocorreu na Batalha de Riacho das Pedras, em 24 de maio de 1824, perto de Itabaiana, com quase 2 mil combatentes e 113 mortos. Após a derrota, os rebeldes recuaram em direção ao Ceará, tentando reorganizar a resistência. 

No Agreste pernambucano, os indígenas de Cimbres também se mobilizaram. Eles não se uniram diretamente aos confederados, mas tomaram uma posição política em favor de Dom João VI, pois acreditavam que, assim, protegeriam suas terras coletivas. Isso demonstra como os povos indígenas interpretaram a crise segundo seus próprios interesses, exercendo sua autonomia.

No Ceará, o movimento teve um caráter ainda mais popular. No Crato, em 1823, muitos “cabras” (mestiços e trabalhadores pobres) se revoltaram contra o recrutamento para o Exército. Segundo historiadores, essas camadas mais baixas não obedeciam simplesmente aos líderes da elite; agiam com autonomia e sonhavam com transformações sociais mais profundas, evocando até mesmo lembranças da Revolução Haitiana.

No Maranhão, as ideias confederadas ressurgiram em 1828, com a chamada República de Pastos Bons. Esse eco tardio mostra como os ideais republicanos não morreram com a derrota de 1824, mas continuaram a circular, especialmente no sertão.

A Retirada e a criação da Divisão Constitucional

Quando Recife caiu em setembro de 1824, parecia que tudo estava perdido, mas a resistência continuou no interior. Foi criada a Divisão Constitucional da Confederação do Equador, formada por soldados, milícias populares, camponeses e até famílias que acompanhavam os revoltosos na fuga. Alguns líderes importantes, como Pedro Ivo e Frei Caneca, uniram-se a esse grupo.

Eles marcharam em direção ao Ceará, improvisando trilhas e abrindo caminho na mata com foices e machados, muitas vezes sobrevivendo de cana-de-açúcar. No percurso, enfrentaram batalhas duras, como em Couro d’Anta, onde o jornalista revolucionário João Soares Lisboa foi gravemente ferido. A odisseia terminou em 29 de novembro de 1824, já em território cearense, quando os rebeldes foram cercados e enganados com falsas promessas de paz. Os últimos sobreviventes, entre eles Frei Caneca, foram presos. Frei Caneca acabaria se tornando o mártir mais lembrado da Confederação, sendo executado no Recife.

O Significado da Confederação e seus ecos no Sertão

A Confederação do Equador foi muito mais do que uma rebelião regional; ela colocou em confronto dois projetos de país. Mesmo derrotada, a Confederação deixou um legado republicano e federalista que seria retomado ao longo do século XIX.

E aqui reside o ponto essencial: o sertão não foi apenas um cenário de apoio ou refúgio. Foi um espaço de mobilização, confronto e resistência, onde ocorreram as batalhas mais longas, onde os ideais ganharam capilaridade popular e onde se deu a última luta armada do movimento. O sertão, nesse sentido, ajudou a manter vivo o projeto revolucionário. Ele mostrou como, para além das elites urbanas, camadas populares — mestiços, camponeses e indígenas — também tiveram um papel ativo na construção do debate sobre que tipo de Brasil estava nascendo. 

Considerações Finais

A Confederação do Equador (1824) foi um dos momentos mais intensos da história brasileira no século XIX. Seu fim teve um custo alto: mortes, prisões e uma repressão violenta. Mas sua memória perdurou. O sertão nordestino, longe de ser periférico, foi protagonista: alimentou a luta, sustentou a resistência e tornou-se um símbolo de coragem diante do poder imperial.

Assim, ao olharmos para a Confederação do Equador, não vemos apenas uma revolta pernambucana ou um episódio isolado. Vemos uma batalha entre projetos para o Brasil: um centralizado e monárquico, outro descentralizado e republicano.

Referências

BRANDÃO, Ulisses de Carvalho Soares. A Confederação do Equador. Pernambuco: Officinas Gráficas da Repartição de Publicações Oficiais, 1924.

CÂNDIDO, Tyrone Apolo Pontes. “A anarquia das classes baixas”: radicalismo popular nas lutas da independência no Ceará, 1821-1824. In: SOUZA, George F. Cabral de; CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel de (Orgs.). Confederação do Equador: a luta pela cidadania na construção do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2025. p. 531.

CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel. Cavalcantis e Cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco, 1817-1824. Revista Brasileira de História (ANPUH), São Paulo, v. 18, n. 36, p. 331-365, jan./jul. 1998. 

DANTAS, Mariana Albuquerque. Políticas indígenas e enfrentamentos armados na Confederação do Equador (Pernambuco e Alagoas). In: SOUZA, George F. Cabral de; CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel de (Orgs.). Confederação do Equador: a luta pela cidadania na construção do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2025. p. 96.

GALVES, Marcelo Cheche; ARAÚJO, Roni César Andrade de. Repercussões do republicanismo de 1824 no Maranhão de 1828: a República de Pastos Bons. In: SOUZA, George F. Cabral de; CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel de (Orgs.). Confederação do Equador: a luta pela cidadania na construção do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2025. p. 637.

LEITE, Glacyra Lazzari. Pernambuco 1824: A Confederação do Equador. Recife: FUNDAJ, Editora Massangana, 1989.

MELLO, Evaldo Cabral. A outra independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824. São Paulo: Editora 34, 2014.

MELO, Josemir Camilo de. “A Paraíba é tão vizinha de Pernambuco, os hábitos e costumes de seus habitantes são tão semelhantes”: a Confederação do Equador em Pernambuco e Paraíba. In: SOUZA, George F. Cabral de; 

SILVA, Luiz Geraldo. Um projeto para a nação. Tensões e intenções políticas nas “Províncias do Norte”. Revista de História (USP), São Paulo, n. 158, p. 199-216, jan./jul. 2008. SOUZA, George F. Cabral de CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel de (Orgs.). Confederação do Equador: a luta pela cidadania na construção do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2025. p. 573.

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Ainda sobre Outras Independências: conflitos e mobilização política no Sertão de Pernambuco https://caminhosdarevolta.com.br/ainda-sobre-outras-independencias-conflitos-e-mobilizacao-politica-no-sertao-de-pernambuco/ https://caminhosdarevolta.com.br/ainda-sobre-outras-independencias-conflitos-e-mobilizacao-politica-no-sertao-de-pernambuco/#respond Tue, 26 Aug 2025 01:07:48 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=407 A história da Independência do Brasil que aprendemos na escola muitas vezes parece um caminho reto, que levaria inevitavelmente ao 7 de setembro de 1822. Mas a realidade foi bem mais complicada e cheia de reviravoltas. A Independência não foi um evento único, e sim o resultado de um verdadeiro cabo de guerra entre diferentes grupos com ideias muito distintas para o futuro do país.

O projeto que venceu — um Brasil unificado sob a monarquia de Dom Pedro I, com poder centralizado no Rio de Janeiro — não era a única opção na mesa. Havia alternativas que acabaram derrotadas e até mesmo o receio, entre os donos de escravos, de que acontecesse aqui uma grande rebelião de escravizados, como a vitoriosa revolução que libertou o Haiti (então Saint-Domingue) do domínio francês. O objetivo aqui é contar essa história sem heróis idealizados, mostrando as disputas e contradições daquele momento.

Podemos entender um pouco desse processo observando o que ocorreu na província de Pernambuco. Desde que a família real portuguesa se instalou no Rio de Janeiro em 1808, todas as ordens vinham de lá. Muitas elites locais não estavam satisfeitas com isso e ficaram animadas quando uma revolução liberal em Portugal, em 1820, permitiu que as províncias brasileiras elegessem seus próprios governantes por meio de Juntas de Governo — um movimento do qual Bahia e Pará foram pioneiras.

Essa ideia, conhecida como federalismo, ganhava cada vez mais espaço e popularidade no debate público, inspirada pela independência dos Estados Unidos e pelo início dos processos de emancipação das colônias espanholas na América. Significava que cada província teria mais autonomia para tomar as próprias decisões e, principalmente, para controlar o dinheiro arrecadado em seu território, em vez de enviá-lo para o Rio. Era um primeiro passo para um autogoverno que agradava a muitos.

Contudo, essa proposta de autonomia não agradava a todos, especialmente a D. Pedro e seus aliados, liderados por José Bonifácio de Andrada e Silva. Ambos enviaram emissários às províncias para convencer a população, focando nas elites políticas e econômicas das vilas. Esse grupo era formado por grandes proprietários de terras e de escravos, comerciantes e homens que ocupavam postos importantes em instituições administrativas e militares, além de ostentarem títulos que lhes conferiam nobreza e poder local. Por isso, a adesão de Pernambuco ao projeto do Rio de Janeiro não foi voluntária nem pacífica. Inclusive, diferente do que muita gente pensa, o Brasil teve guerras de independência, com mobilizações militares e focos de resistência em províncias como Bahia, Ceará, Piauí, Maranhão, Pará e Cisplatina (hoje Uruguai).

O historiador Evaldo Cabral de Mello, em sua análise sobre o processo em Pernambuco, relata um episódio ilustrativo. Ele argumenta que o emissário enviado para negociar com a Junta pernambucana — comandada pelo comerciante Gervásio Pires Ferreira e outras famílias influentes — chegou a prometer quase tudo que o grupo reivindicava. O objetivo era garantir a adesão ao projeto do Rio de Janeiro, liderado por D. Pedro e organizado por seu ministro José Bonifácio, mesmo que para isso fosse preciso fazer promessas conflitantes entre si.

Como afirmamos no início, havia outros projetos de independência em disputa. Seria impensável que, em um território tão vasto e diverso, todos tivessem a mesma ideia de nação. Havia uma pluralidade de grupos políticos e sociais, homens e mulheres trazidos à força de diferentes regiões da África e seus descendentes (livres ou libertos), além de inúmeras etnias indígenas que resistiam em suas terras. Justamente por essa complexidade, foi necessário que o príncipe D. Pedro e Bonifácio enviassem seus agentes para negociar, persuadir e, quando preciso, impor o seu projeto de Brasil.

Contudo, isso não significa que todos os grupos sociais foram ouvidos e participaram de forma igualitária no debate da independência e da formação do Estado Imperial. A historiografia recente tem apontado que, embora grupos como escravizados, libertos, pessoas de cor livres, homens e mulheres das classes baixas e indígenas tenham participado ativamente do processo, lutando e reivindicando suas pautas, eles foram, na maioria das vezes, deixados de lado nas decisões políticas das vilas e províncias.

Houve exceções, claro. Em algumas províncias, esses grupos tiveram mais autonomia e possibilidade de diálogo do que em outras. Mas Pernambuco é um exemplo claro de um lugar onde a participação desses grupos no processo de decisão foi severamente limitada pela atuação das elites locais.

A participação das vilas e regiões do sertão de Pernambuco no processo de independência do Brasil insere-se precisamente nessa questão. Nas principais obras sobre o tema em Pernambuco, são raras as análises que abordam a atuação da população do interior da província nesse momento. É uma história que precisa ser construída. Aqui, buscaremos apresentar um recorte desse processo, a partir da proposta do nosso projeto e em diálogo com textos de outros colegas.

Com certeza. O material que você reuniu é riquíssimo, mas está fragmentado como notas de pesquisa. Meu trabalho aqui será o de um tecelão: vou entrelaçar esses fios de informação em uma narrativa coesa, que flui diretamente do que já estabelecemos.

A ideia é transformar essa coleção de eventos, nomes e datas em uma história viva que demonstre, com provas documentais, como a Independência foi um processo construído ativamente no sertão, com suas próprias tensões, projetos e protagonistas.

Enquanto isso, no Sertão: A Independência em Carne e Osso

Se a história da Independência costuma ser contada a partir dos salões do Rio de Janeiro ou dos campos de batalha na Bahia, os documentos empoeirados da antiga Comarca do Rio São Francisco, no sertão de Pernambuco, nos oferecem uma perspectiva diferente e fundamental. Eles revelam como a construção de um país se dava na prática, no cotidiano de pequenas vilas distantes centenas de quilômetros do poder central. Longe de serem meros espectadores, os habitantes do sertão foram agentes ativos, negociando, conflitando e, finalmente, elaborando seu próprio projeto de futuro em meio à crise do Império português.

1. As Bases da Crise: Ordem, Justiça e Autonomia (1820-1821)

Antes mesmo que o grito do Ipiranga ecoasse pelo país, o sertão já fervilhava com as tensões da formação do Estado. A criação da Comarca do Rio São Francisco em 1820 foi o ponto de partida. Imediatamente, surgiram os desafios práticos: como governar um território tão vasto? A primeira medida do governador Luís do Rego Barreto foi ordenar a criação de um serviço de correios, passo essencial para a comunicação e o controle administrativo.

Ao mesmo tempo, a população local pressionava por seus interesses. Moradores reclamavam da ausência de juízes letrados, o que os forçava a longas e perigosas viagens para resolver disputas e garantia a impunidade de crimes graves. Em vilas como Pilão Arcado, a nomeação de oficiais e os conflitos entre potentados locais, como o Capitão-mor e seus desafetos, exigiam a intervenção constante do governo provincial.

Nesse cenário, a maior reivindicação era por autonomia. Povoados como Campo Largo e Carinhanha lutavam para serem elevados à categoria de vila, o que lhes daria uma Câmara Municipal e mais controle sobre seus próprios assuntos. A luta não era apenas por status, mas por sobrevivência e desenvolvimento, como argumentavam os moradores de Carinhanha ao citar sua importância comercial e a enorme distância da sede, a Vila da Barra.

2. A Ruptura: Brasileiros vs. Portugueses no Coração do Sertão (1822)

A crise política nacional chegou ao sertão e ganhou um rosto: o do ouvidor português João Carlos Leitão. Nomeado no final de 1821, ele inicialmente pareceu um administrador dedicado, apoiando a criação da vila de Carinhanha e mediando disputas de terra. Contudo, à medida que a tensão entre Brasil e Portugal crescia, sua lealdade foi posta em xeque.

Em junho de 1822, as Câmaras foram ordenadas a realizar o juramento às Cortes de Lisboa, mas o sentimento de separação já era forte. Em novembro, a situação explodiu. A Câmara da Vila da Barra, suspeitando que o ouvidor, por ser europeu, pudesse fugir e se unir às tropas portuguesas na Bahia, o intimou a aclamar Dom Pedro e jurar obediência às novas Cortes brasileiras. Pressionado e acuado, Leitão teria respondido com desdém: “Jurarei quando quizerem”. O juramento ocorreu sob coação e, logo depois, o ouvidor fugiu da Comarca, personificando a ruptura definitiva com a autoridade portuguesa na região.

3. A Adesão à Causa: Guerra, Política e um Projeto para o Futuro (1823)

Com a ruptura consolidada, o sertão abraçou a causa da Independência com fervor. Em 1º de janeiro de 1823, mesmo sem uma ordem direta do governo, a Câmara da Vila da Barra aclamou solenemente Dom Pedro I como Imperador do Brasil.

Mas a adesão não foi apenas simbólica. A região se mobilizou para a guerra. Discutiu-se o envio de armas para apoiar a luta contra as forças portuguesas em Oeiras (Piauí). O padre José Lúcio do Bomfim fez uma proclamação inflamada, convocando a população a formar o “Batalhão do Rio de São Francisco” para socorrer o exército na Bahia, bradando com orgulho: “porque também somos Pernambucanos“.

Foi nesse momento de efervescência que surgiu o mais audacioso projeto político local. Em 21 de julho de 1823, em uma reunião na Vila da Barra para preparar as reivindicações aos deputados eleitos para a Assembleia Constituinte, uma proposta revolucionária foi formalizada: a criação da Província do Rio São Francisco.

A justificativa era a mesma que por anos alimentara as queixas locais: a enorme distância da capital, Recife, que dificultava o acesso à justiça e aos recursos. A proposta era a expressão máxima do ideal federalista no sertão, um desejo de autogoverno que ecoava as disputas políticas de todo o Brasil. Eles não queriam apenas pertencer ao novo Império; queriam moldá-lo segundo seus próprios interesses, transformando sua remota comarca em uma província autônoma.

Mesmo que a proposta não tenha vingado, ela revela o vigor político de uma região frequentemente vista como periférica. Os fragmentos de documentos, embora incompletos, pintam um quadro claro: a Independência no sertão foi um processo de intensa negociação, conflitos violentos e, acima de tudo, de uma clara consciência política, onde homens e mulheres comuns, longe dos centros de poder, ajudaram a dar forma e sentido à nação que nascia.

Considerações Finais

Ao percorrer os caminhos sinuosos que levaram à Independência do Brasil, torna-se evidente que estamos diante de um processo histórico vivo e contraditório, e não de uma data cívica engessada no tempo. A narrativa aqui construída buscou deliberadamente se afastar da imagem de um evento monolítico, fruto da vontade de poucos heróis, para revelá-lo como um campo de disputas, um mosaico de projetos concorrentes e de realidades locais distintas que, juntas, deram forma à nação que nascia.

É nesse sentido que o mergulho na documentação do sertão pernambucano se revela tão fundamental. Longe das grandes narrativas, são as miudezas do cotidiano administrativo que nos mostram as verdadeiras engrenagens da formação do Estado. A criação de um serviço de correios, a anulação de uma eleição local, a queixa contra um ouvidor corrupto ou a mobilização para construir uma igreja não são meros detalhes pitorescos; são a materialização da política no nível mais elementar e, talvez por isso, mais autêntico.

O sertão, frequentemente visto como um espaço periférico e passivo, surge nesta análise como um palco de intensa atividade política. A proposta de criação da Província do Rio São Francisco, nascida no calor dos debates de 1823, não foi uma utopia local, mas a mais clara expressão regional de um anseio por autonomia que percorria todo o Brasil e que definiria os grandes conflitos políticos do Império e da República.

Portanto, revisitar a Independência sob esta ótica é mais do que um exercício de correção histórica. É compreender as origens de tensões que marcam o Brasil até hoje: a luta perene entre um poder centralizador e as autonomias regionais; o abismo entre os projetos formulados pelas elites e as demandas concretas das populações locais; e a persistente invisibilidade de um Brasil profundo, distante dos centros de decisão.

A Independência, afinal, não terminou em 1822. Ela deixou em aberto questões fundamentais sobre o país que queríamos ser, e cujas respostas ainda buscamos construir no presente.

Referências

BERNARDES, Denis. O patriotismo constitucional: Pernambuco,1820-1822. São Paulo: Editora da UFPE; HUCITEC; FAPESP, 2006.

CABRAL, Flávio Gomes. Conversas reservadas: vozes públicas, conflitos públicos e rebeliões em Pernambuco no tempo da independência do Brasil. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2013.

CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel. Cavalcantis e Cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco, 1817-1824. Revista Brasileira de História (ANPUH), São Paulo, v. 18, n. 36, p. 331-365, jan./jul. 1998.

DANTAS, Mariana Albuquerque. Dimensões da participação política indígena na formação do Estado Nacional brasileiro: revoltas em Pernambuco e Alagoas (1817-1848). 215. 321 f. Tese (Doutorado em História). Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2015.

MELLO, Evaldo Cabral. A outra independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824. São Paulo: Editora 34, 2014.

NEVES, Lúcia Maria Bastos. Os esquecidos no processo de independência: uma história a se fazer. Revista Almanack, São Paulo, n. 25, p. 1-44, set./dez. 2020.

PERNAMBUCO, Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano. Atas do Conselho de Governo da Província (1821-1834), v. 1. Recife: Assembleia Legislativa de Pernambuco; CEPE, 1997.

PERNAMBUCO, Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano. Documentos do Arquivo: documentos do Arquivo Público de Pernambuco e da Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco sobre a Comarca do Sertão do São Francisco, selecionados, coordenados e prefaciados por Barbosa Lima Sobrinho. V. IV e V. Recife: Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco, 1950.

PIMENTA, João Paulo. A independência do Brasil. São Paulo: Contexto, 2022.

QUINTAS, Amaro. A agitação republicana no Nordeste. In: HOLANDA, Sérgio Buarque (Org.). História geral da civilização brasileira: o Brasil monárquico, tomo II. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

SILVA, Luiz Geraldo. Um projeto para a nação. Tensões e intenções políticas nas “Províncias do Norte”. Revista de História (USP), São Paulo, n. 158, p. 199-216, jan./jul. 2008.

SOBRINHO, Barbosa Lima. Pernambuco: da Independência a Confederação do Equador. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 1998.SOUZA, George Cabral. Câmaras municipais e fiscalidade: negociação, resistência e conflito (Pernambuco, primeira metade do século XVIII). Varia História, Belo Horizonte, v. 37, n. 73, p. 85-118, jan./abr. 2021.

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A comarca do São Francisco:  entre a ampliação da prática da Justiça e a retaliação do território de Pernambuco https://caminhosdarevolta.com.br/a-comarca-do-sao-francisco-entre-a-ampliacao-da-pratica-da-justica-e-a-retaliacao-do-territorio-de-pernambuco/ https://caminhosdarevolta.com.br/a-comarca-do-sao-francisco-entre-a-ampliacao-da-pratica-da-justica-e-a-retaliacao-do-territorio-de-pernambuco/#respond Tue, 26 Aug 2025 01:00:57 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=402 A região do Rio de São Francisco, embora integrasse formalmente o território de Pernambuco desde a doação de 1534, sempre viveu uma situação paradoxal. Desde 1752 sua administração judicial estava subordinada à comarca de Jacobina, na Bahia, mas os vínculos eclesiásticos e as concessões de patentes militares continuaram sob Pernambuco.

Esse quadro de indefinição fazia com que, no início do século XIX, a região fosse percebida como uma terra de “falta de justiça”, expressão usada pelo governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro em vários momentos. O isolamento acentuava a precariedade: enormes distâncias, comunicação difícil, zonas despovoadas e a incidência de enfermidades como a malária, então chamada de “carneiradas”, reforçavam um cenário de insegurança. A ausência efetiva do aparelho judicial transformava a área em refúgio de “vadios e facínoras”, que ficavam impunidade atravessando o rio e mudando de jurisdição.

A população estimada em 30 mil habitantes, equipamentos em atividades peculiares nos “currais do São Francisco”. Apesar da escassez de recursos fiscais, a região sustentava uma atividade econômica clandestina de enorme importância: o comércio ilegal de gado com Goiás e Cuiabá, em troca de ouro em pó. Essas transações burlavam as rotas oficiais que deveriam passar por São Paulo, e já em 1732 o Conde de Sarzedas havia denunciado esse contrabando como uma perda significativa para a Fazenda Real. Assim, evidenciava-se a baixa capacidade da administração portuguesa em se importar na região.

Foi nesse contexto que se tomou a decisão de criar comarcas. Em 15 de janeiro de 1810, distribuía-se na Comarca do Sertão de Pernambuco, com sede na Vila de Flores. O primeiro ouvidor, José Marques da Costa, deu início ao funcionamento do aparelho judicial, transferindo a correição da Vila da Barra da jurisdição de Jacobina para a nova comarca. Criaram-se companhias de ordenanças e circularam listas de criminosos para serem presos. Em 1816, tenta-se ainda a criação de uma cadeira de gramática latina na Barra e de escolas de primeiras letras em Pilão Arcado, Flores e Garanhuns.

Apesar disso, uma “imensa longitude” territorial continuava sendo um problema. Entre 1811 e 1816, por exemplo, a Vila da Barra não recebeu nenhuma correição, e muitos presos “ou morriam nas cadeias, ou se eternizavam seus livramentos”. Esse abandono levou à criação da Comarca do Rio de São Francisco, pelo alvará de 3 de junho de 1820, desmembrada da Comarca do Sertão e com sede na Vila da Barra. A nova comarca fortaleceu a presença do Estado português: intensificou-se a correspondência com o governo de Pernambuco, estabeleceu correições entre as vilas, e passou-se a tratar de assuntos centrais, como listas de recrutas e a construção de uma nova igreja.

Essas medidas despertaram uma nova identidade regional e, em 1823, uma primeira iniciativa autonomista. Com a convocação da Assembleia Constituinte, moradores da comarca e do norte de Minas relataram, por meio de Tomás Antônio da Costa Alcami Ferreira, uma proposta de criar uma nova província com capital em Carinhanha. O território abrangeria a Comarca do Rio de São Francisco, a comarca mineira de Paracatu e partes da Bahia.

A proposta, no entanto, foi rapidamente rejeitada pela Comissão de Constituição. O parecer, redigido por deputados influentes como Pedro de Araújo Lima (futuro regente do Império) e Muniz Tavares, além de representantes de Minas e do Rio de Janeiro, sustentava que divisões territoriais só poderiam ser discutidas após a promulgação da nova Constituição. A derrota expôs o peso das elites provinciais, interessadas em não fragmentar seus territórios e preservar sua força política e econômica.

O estágio seria selado em meio ao movimento da Confederação do Equador, em 1824. Com a rebelião republicana em Pernambuco, D. Pedro I decretou, em 7 de julho de 1824, a anexação provisória da Comarca do Rio de São Francisco a Minas Gerais. A justificativa oficial era a necessidade de “salvar meus legítimos súditos do contágio da sedução e impostura, com que o partido demagogo pretende ilaqueá-los”.

Nos debates parlamentares posteriores, em 1827, revelaram-se as fragilidades dessa decisão. O deputado mineiro Limpo de Abreu afirmou que a comarca não fora unida à Bahia ou ao Piauí em 1824 porque estas províncias também “estavam em oscilação”, e Minas foi escolhida por ser leal e imune à “revolução”. Já Bernardo Pereira de Vasconcelos considerava a anexação um ato de “ignorância” do governo, que desconsiderara a distância e a falta de laços comerciais entre a comarca e Minas, avaliando a medida como um “funestíssimo erro”. Foi o próprio quem sugeriu que a transferência para a Bahia seria administrativamente mais lógica, ainda que provisória.

A proposta foi então aprovada, e em 15 de outubro de 1827 a comarca foi limitada para a província da Bahia, onde permanece até hoje. Para os baianos, essa incorporação significou expansão territorial, aumento populacional e acréscimo de representação política (de 13 para 14 deputados). Para o Império, representou a capacidade do governo central de tomar decisões unilaterais para sufocar dissidências regionais, isolar o “contágio” republicano de Pernambuco e garantir a centralização política.

Assim, a trajetória da Comarca do Rio de São Francisco — do abandono inicial à criação judicial, da tentativa frustrada de autonomia ao desmembramento de Pernambuco — revela tanto as limitações locais do Estado colonial e imperial quanto a lógica de repressão e centralização do poder no Primeiro Reinado. Ao fim, a comarca tornou-se símbolo de como interesses econômicos, aspirações regionais e a autoridade imperial se entrelaçaram em disputas que moldaram os contornos políticos e administrativos do Brasil oitocentista.

Referências

COSTA, F. A. Pereira da. Em prol da integridade do territorio de Pernambuco. Pernambuco: Typ. do Jornal do Recife, 1896. Obra do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano.MARTINS, Herbert Toledo. A retaliação de Pernambuco: o caso da Comarca do Rio de São Francisco. Revista CLIO – Revista de Pesquisa Histórica, Recife, v. 28, n. 2, 2010.

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O Grito do Sertão: A Face Oculta da Revolução de 1817 https://caminhosdarevolta.com.br/o-grito-do-sertao-a-face-oculta-da-revolucao-de-1817/ https://caminhosdarevolta.com.br/o-grito-do-sertao-a-face-oculta-da-revolucao-de-1817/#respond Sat, 16 Aug 2025 21:07:25 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=219

A manutenção da família real portuguesa no Rio de Janeiro desde 1808 e os custos das intervenções de Dom João VI no Uruguai e na Guiana levaram a um aumento de impostos no Nordeste. A seca de 1814-1817 e o fim da guerra (1812-1815) entre Inglaterra e Estados Unidos, derrubaram as exportações de algodão agravando a crise, que também atingia os militares nascidos no Brasil, que eram mal pagos e sem possibilidade de ascensão, reservada a gente nascida na Europa.

Em 6 de março de 1817, um grupo de liberais radicais (que não devem ser confundidos com o “liberalismo” atual) tomaram o poder. Chamaram de revolução, pois se inspiravam nos ideais da Revolução Francesa, que ampliou as liberdades e direitos civis, e na Revolução Americana, que promoveu um imenso crescimento econômico naquele país. Os revolucionários formaram um governo republicano, apoiados por muitos clérigos, magistrados e proprietários rurais e urbanos e governaram Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte por 74 dias. Tiveram muito apoio no Ceará, enviaram emissários para os EUA e cone sul e tentaram, sem sucesso, “revolucionar” outras partes do Brasil.
Baseados em uma Lei Orgânica” republicana, a primeira constituição do Brasil, pretendiam ampliar direitos que não existiam no Absolutismo, tanto que aboliram as formas de tratamento senhorial, como Vossa Mercê, obrigando todo mundo que não era escravizado a se tratar igualmente por Vós ou Patriota. 

O movimento de 1817 tinha contradições, como todas as revoluções já acontecidas, pois defendia a propriedade e não eram abolicionistas. Todavia, condenaram moralmente a escravidão, prometendo que o “cancro da escravidão”, nas palavras dos revolucionários, seria abolido no futuro, uma promessa que nunca havia sido feita até então pelo governo monárquico. Eram, portanto, emancipacionistas, pois defendiam o fim da escravidão, mesmo que não fosse de imediato. Esse emancipacionismo levou muita gente pobre, inclusive libertos, escravizados e o Batalhão dos Henriques a aderir ao movimento.

A Surpresa Sertaneja: Para Além do Mito da Monarquia

Por muito tempo, o interior de Pernambuco foi retratado como uma fortaleza de lealdade à monarquia. O historiador Evaldo Cabral de Mello descreveu a região como um lugar de “fanatismo monárquico”, onde a população era tão fiel ao rei que chegava a hostilizar violentamente os defensores da república. Embora existissem fortes laços econômicos entre o Sertão — grande fornecedor de gado e algodão — e o litoral, politicamente pareciam mundos opostos.

No entanto, essa visão conta apenas metade da história. Documentos e relatos da época revelam um cenário muito mais complexo e surpreendente. Longe de ser um espectador passivo, o interior foi um caldeirão de ideias e um viveiro de combatentes pela causa republicana.

As Sementes da Liberdade no Coração do Interior

As ideias revolucionárias não esperaram a explosão na capital para se espalhar. Sociedades secretas, como o famoso Areópago de Itambé, foram fundadas estrategicamente na zona rural, na divisa com a Paraíba, funcionando como centros de difusão do pensamento iluminista.

De lá, as notícias e os ideais viajavam nas bolsas dos almocreves, comerciantes e viajantes que cruzavam os sertões. Eles foram os verdadeiros mensageiros da revolução, levando panfletos e proclamações do novo governo a vilas distantes, incitando o povo a se levantar. O plano do Governo Provisório era claro: a revolução só venceria se conquistasse o vasto território interiorano.

Um Exército Vindo do Sertão

A resposta foi imediata e avassaladora. Quando a notícia da tomada do poder no Recife chegou, o Sertão não hesitou. De vilas como Limoeiro, Pão de Alho e Igarassu, um “avultado número de Ordenanças” — milícias locais — marchou em direção à capital para se juntar ao movimento, como relata o historiador Muniz Tavares.

O entusiasmo era tão grande que um dos principais líderes da revolução, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, escreveu ao irmão, maravilhado:

“Acabo de vir do Conselho assombrado de ver a imensa tropa que baixa do interior. (…) Deve montar a 10 mil a que com as milícias e ordenanças formará um exército de 30.000 soldados.” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, p. 69)

Mesmo que o número fosse um exagero do calor do momento, a carta revela a impressionante capacidade de mobilização popular da revolução. Não era um motim de poucos, mas um movimento com profundo apoio, capaz de formar um exército formidável com homens vindos do Agreste e do Sertão.

Construindo um Novo Poder no Interior

A adesão não foi apenas popular, mas também institucional. O Governo Provisório agiu rápido para desmantelar o poder da Coroa e instalar uma nova estrutura republicana. Na Paraíba, por exemplo, novos oficiais, leais à República, foram nomeados para comandar o estratégico Regimento de Cavalaria do Cariri (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, p. 53; 55; 56; 59). O próprio ouvidor da comarca do Sertão, José da Cruz Ferreira, aderiu à causa, assinando despachos em favor dos revolucionários (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, p. 214).

A Igreja Católica, instituição de imenso poder no interior, também se dividiu. Muitos padres, especialmente os de formação mais progressista, foram cruciais para espalhar as ideias e legitimar a revolta. Em uma carta, um padre da região do Cunaú, no Rio Grande do Norte, usou uma linguagem codificada para declarar apoio, afirmando dispor de um “grande número de gente a favor da causa”, disfarçando sua lealdade à República (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CIII, p. 31).

No Ceará, o Sertão foi o próprio epicentro do movimento, com a revolução liderada pela poderosa família Alencar, na região do Crato. Como os próprios documentos da repressão monarquista admitiriam mais tarde, “os sertões não entraram na revolução, senão depois que Pernambuco, Paraíba, e Rio Grande foram revolucionados”, mas quando entraram, desenvolveram focos de poder autônomos e resilientes (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CVI).

Quando o Sertão Ardeu: A Repressão e o Fim do Sonho de 1817

Se o Sertão foi o bastião que deu força e homens à Revolução de 1817, ele também se tornou o palco sangrento de sua derrocada. A mesma vastidão que permitiu a articulação secreta do movimento transformou-se em uma armadilha mortal quando a fúria da Coroa Portuguesa se abateu sobre os insurgentes. A repressão foi implacável, e o interior de Pernambuco, Paraíba e Ceará tornou-se um vasto e violento campo de batalha.

A Coroa Contra-ataca: O Sertão em Armas

A contrarrevolução não nasceu na capital. Ganhou força nas vilas do sul da província, como Santo Antão e Pão de Alho, que se declararam leais à monarquia e por onde avançou o exército vindo da Bahia. O objetivo era claro: sufocar a revolução a partir de suas bordas, cercando-a.

Os documentos da época, escritos pela ótica dos vencedores, narram uma ofensiva coordenada para “pacificar” o interior. O Governador do Ceará, Manuel Inácio de Sampaio, um dos mais ferozes repressores, ordenou a marcha de suas tropas pelos sertões da Paraíba para caçar rebeldes (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CII, p. 42). Foi uma guerra que não respeitou fronteiras provinciais.

Ao mesmo tempo, a Coroa travava uma batalha de narrativas. Para deslegitimar o movimento, culpava os “magnatas do sertão da Paraíba”, acusando-os de manipular o povo (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CII, p. 46). Líderes antes vistos como influentes, como padres e proprietários rurais, eram demonizados e chamados de “facinorosos” (criminosos), como foi o caso do Padre Luiz José Corrêa de Sá (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CV, p. 45). A intenção era apagar qualquer traço de apoio popular à causa republicana.

O resultado foi uma conflagração total. Uma carta da época, curta e alarmante, resume o cenário de forma poderosa: “o sertão está todo em armas” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CV, p. 70). Lealdades familiares, disputas por terra e a influência de coronéis fiéis a Portugal criaram divisões profundas, transformando o Sertão em um palco de uma verdadeira guerra civil, onde “os povos do sertão” foram convocados para lutar contra os rebeldes, como descreve Muniz Tavares (TAVARES, 2017, p. 132). Batalhas decisivas, como o Combate de Utinga, foram travadas no interior, selando o destino militar da revolução.

O Último Refúgio: A Fuga Pela Caatinga

Com a queda de Recife e a derrota militar, o Sertão mudou de papel mais uma vez. De berço da revolução e campo de batalha, tornou-se o último refúgio. Para os líderes e combatentes que tentavam escapar do fuzilamento, a geografia acidentada da Caatinga, com suas serras e rios secos, oferecia um esconderijo natural e uma rota de fuga.

Desde o início da repressão, muitos já fugiam da capital, “uns pelos portos onde há jangadas, e outros para o interior” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, p. 71). Com o fim do movimento, essa fuga se tornou desesperada. Os relatos dos sobreviventes pintam um quadro trágico:

  • Frei Caneca, uma das mentes mais brilhantes da revolução, fugiu desesperadamente para o “sertão do Açu” e depois para a remota “serra do Martins” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CIII, p. 11).
  • André de Albuquerque Maranhão, outro líder, “foi para o sertão, onde andou errante, e fugido” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CVI, p. 110).

A imagem desses homens, antes importantes revolucionários, agora como fugitivos errantes, capta a essência do fim do projeto em discussão. O Sertão foi o cenário do epílogo da revolução, o lugar onde a esperança de uma república se desfez em longas e perigosas jornadas de fuga.

Retratos do Sertão: A Vida por Trás da Guerra

Curiosamente, os documentos da repressão, focados em crimes e perseguições, nos oferecem vislumbres valiosos sobre a vida no Sertão no início do século XIX. Quase por acidente, eles revelam uma sociedade com suas próprias regras e costumes.

Uma nota simples informa que “nas grandes estradas do interior não há estalagens” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, p. 12), o que nos diz muito. Sem espaços para descanso e passarem as noites, os viajantes dependiam inteiramente da hospitalidade dos moradores, indicando uma cultura baseada em laços pessoais e confiança mútua.

A economia agropastoril, espinha dorsal da região, também aparece. Vemos decretos sobre a “arrematação dos dízimos das ribeiras do Cariri e Patu” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, p. 58). Uma carta descreve poeticamente a riqueza da pecuária, falando de como os “vigorosos pastos chamam os seus gados para os criar, e nutrir” (Documentos Históricos da Revolução de 1817, v. CI, página 64). Eram esses rebanhos a base do poder da população do sertão.

Um Legado Inesquecível

Analisar a Revolução de 1817 é perceber que o Sertão foi muito mais que um cenário. Foi um protagonista ativo: impulsionou a revolução com homens e recursos, foi o campo de batalha onde a repressão se mostrou mais brutal e serviu como santuário final para os sonhos desfeitos dos revolucionários.

Os documentos, criados para condenar, acabaram por preservar para sempre a prova do profundo envolvimento sertanejo na primeira grande tentativa de se construir um Brasil livre. Ignorar o papel do Sertão é, sem dúvida, compreender apenas metade da história de 1817.

Referências

Documentos Históricos, Devassa da Revolução de 1817, v. CI.

Documentos Históricos, Devassa da Revolução de 1817, v. CII.

Documentos Históricos, Devassa da Revolução de 1817, v. CIII.

Documentos Históricos, Devassa da Revolução de 1817, v. CIV.

Documentos Históricos, Devassa da Revolução de 1817, v. CV.

Documentos Históricos, Devassa da Revolução de 1817, v. CVI.

MOTA, Carlos Guilherme. Nordeste 1817: estruturas e argumentos. São Paulo: Perspectiva; Edusp, 1972.

SILVA, Luiz Geraldo. Igualdade, liberdade e modernidade política: escravos, afrodescendentes livres e libertos e a Revolução Pernambucana de 1817. In: SIQUEIRA, Antônio Jorge; WEINSTEIN, Flávio Teixeira; REZENDE, Antônio Paulo (Org.). 1817 e outros ensaios. Recife: CEPE, 2017.

TAVARES, Muniz. História da Revolução Pernambucana de 1817. Recife: CEPE, 2017.

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A Lei do Rei no Sertão: Como a Justiça Chegou ao Coração Selvagem do Brasil https://caminhosdarevolta.com.br/a-lei-do-rei-no-sertao-como-a-justica-chegou-ao-coracao-selvagem-do-brasil/ https://caminhosdarevolta.com.br/a-lei-do-rei-no-sertao-como-a-justica-chegou-ao-coracao-selvagem-do-brasil/#respond Sat, 16 Aug 2025 21:05:20 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=213

No início do século XIX, muito antes de a literatura imortalizar o sertão como um palco de misticismo e bravura, ele representava, para o Império Português, um imenso problema. A vasta região do interior de Pernambuco, entrecortada pelo rio São Francisco, era uma terra de fronteira em todos os sentidos que a palavra pode ter. Historicamente, desde a divisão do Brasil em capitanias, a carta de doação entregue a Duarte Coelho estipulava que suas terras se estendiam por “todo o curso do dito rio”. Essa definição, por si só, plantou as sementes de uma longa disputa territorial com a vizinha Bahia. Contudo, no dia a dia, essa jurisdição era pouco mais que uma abstração, uma linha frágil desenhada em um mapa distante. O sertão, descrito pelo então governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro como uma área com mais de duzentas léguas e lar de aproximadamente trinta mil almas, era um verdadeiro vácuo de poder, um lugar onde a presença da Coroa se sentia longínqua e a justiça era, na melhor das hipóteses, e outras vezes, uma arma nas mãos de poderosos locais.

A estrutura judicial formal era uma miragem no horizonte sertanejo. A principal autoridade, o ouvidor da comarca, despachava a partir do Recife, a centenas de quilômetros de distância. A jornada até o interior era tão longa e perigosa que tornava suas visitas de fiscalização — as chamadas correições — eventos extremamente raros, se é que chegavam a acontecer. Essa ausência manifesta do poder letrado do Estado português abria um perigoso vácuo, que era prontamente preenchido pelos juízes ordinários. Estes não eram magistrados de carreira; eram homens da elite local, grandes proprietários de terras e de gado, escolhidos entre os seus, nas câmaras municipais, com a missão de resolver as disputas da comunidade. Sem a supervisão atenta do ouvidor, essa justiça local invariavelmente se transformava em um sistema de opressão. Nas palavras do próprio Montenegro, o sertão sofria de “funestíssimos males”, uma consequência direta “da impunidade dos crimes e da falta de administração da justiça”.

Para complicar ainda mais o cenário já complexo, a fronteira porosa com a Bahia gerava uma confusa sobreposição de poderes. Partes do território que, em teoria, deveriam estar sob a alçada de Pernambuco eram, na prática, administradas pela comarca baiana de Jacobina. Os ouvidores de lá nomeavam seus próprios juízes ordinários na região, criando uma teia emaranhada de autoridade que o governador Montenegro descreveu como a origem de “perniciosos conflitos”. Esse caos institucional era o ambiente ideal para que a violência florescesse sem controle. O governador relatou a ação de “bandos facinorosos” e concluiu, de forma profundamente alarmante, que em “nenhuma parte dos domínios portugueses a vida dos homens tem menos segurança”. Para Montenegro, o sertão era uma fronteira da própria legalidade, um desafio direto à capacidade do Império Português de governar seu vasto e indomável território.

Um Administrador Singular: O Governador Letrado e sua Visão de Estado

Em 1802, a coroa portuguesa nomeou Caetano Pinto de Miranda Montenegro para o cargo de governador, que tomaria posse em maio de 1804. Diferente de seus predecessores, em sua maioria homens de armas, Montenegro era um letrado, com um doutorado em direito pela Universidade de Coimbra e com uma valiosa experiência administrativa como governador da igualmente desafiadora capitania do Mato Grosso. Sua formação acadêmica ocorreu em um período de profundas transformações em Portugal. A Universidade de Coimbra passava pela reforma pombalina, um ambicioso projeto que visava modernizar a elite administrativa do império, introduzindo, ao lado do saber jurídico tradicional, os princípios da ciência de polícia — uma nova filosofia de governo que pregava a racionalidade administrativa, o planejamento, a coleta de dados e a intervenção estatal para promover a ordem, a segurança e a prosperidade dos súditos como forma de fortalecer o próprio Estado.

Montenegro era a personificação dessa mentalidade de transição. Ele compreendia a importância da tradição jurídica, na qual governar era, antes de tudo, um ato de justiça, mas também abraçava as novas ferramentas de gestão que viam o Estado como um agente ativo e planejador. Sua jornada de nove meses de Mato Grosso até o Recife, cruzando o coração do sertão, não foi um mero deslocamento, mas sim uma extensa missão de reconhecimento da área. Ele não se contentou com os documentos que o aguardavam na vila do Recife; ele observou em primeira mão a realidade da fronteira, apontando os problemas não como um soldado que vê inimigos, mas como um jurista-administrador que enxerga as falhas estruturais. Sua solução, portanto, não seria apenas repressiva, mas fundamentalmente construtiva: era preciso implantar o Estado onde ele não existia.

O diagnóstico preciso de Montenegro rapidamente se converteu em um plano de ação, formalizado em um ofício enviado à Coroa em 22 de julho de 1805. Era uma proposta audaciosa e detalhada que ia muito além de um simples pedido de mais tropas. Refletindo sua formação, o plano era holístico, atacando os problemas em múltiplas frentes.

Os pedidos para a criação da Comarca

O coração do seu projeto era a fundação de uma nova comarca, a ser desmembrada dos territórios de Pernambuco e Jacobina, com uma jurisdição clara que se estenderia da ribeira do Moxotó até Carunhanha. A presença física de um ouvidor — um magistrado de carreira, letrado e representante direto da justiça do rei — seria a principal ferramenta para submeter os juízes locais e garantir que a lei fosse aplicada de forma imparcial.

Montenegro sabia que a autoridade judicial, sem a força para impô-la, era impotente. Ele solicitou a criação de um destacamento militar permanente de 31 praças, com uma função específica: “fazer respeitar os magistrados, fazendo também perder a esperança da impunidade”. Sua visão estratégica se revelou na sugestão de que os oficiais fossem europeus, para evitar conluios com as elites locais, enquanto os soldados seriam recrutados na própria região, para diminuir o risco de deserção.

O governador não apenas pediu recursos, mas também indicou como financiá-los. Ele propôs a criação de um novo imposto sobre o sal extraído às margens do São Francisco, garantindo que a nova estrutura administrativa não se tornasse um peso para o já sobrecarregado Tesouro Real.

Apesar da clareza e da urgência do plano, a resposta da Coroa foi lenta, pois Portugal estava mergulhado na turbulência das guerras napoleônicas. A situação mudou radicalmente com a transferência da corte para o Rio de Janeiro em 1808. Esse evento deu início a uma nova fase da administração colonial, na qual D. João, agora governando diretamente do Brasil, promoveu um vasto projeto de “adensamento e interiorização da justiça”, criando vilas, comarcas e postos de juízes letrados por todo o território. Montenegro, percebendo a janela de oportunidade, renovou sua proposta em 11 de novembro de 1809. Nessa segunda petição, ele não apenas reiterou a necessidade de ordem e justiça, mas fortaleceu seu caso com argumentos econômicos. Ele destacou o notável crescimento da cultura do algodão na região de Simbres, um dos mais valiosos produtos de exportação de Pernambuco, provando que o sertão não era um deserto improdutivo, mas uma área economicamente viável e capaz de sustentar a nova estrutura administrativa. Ele também apresentou um mapa preciso da jurisdição proposta, oferecendo à Coroa um projeto pronto para ser implementado.

A Vontade do Rei: A Carta Régia de 1810 e a Consolidação do Estado

Desta vez, a resposta foi rápida e afirmativa. A persistência e o planejamento meticuloso de Montenegro deram frutos. Em 15 de janeiro de 1810, o Príncipe Regente D. João assinou o alvará régio que finalmente criava a Comarca do Sertão de Pernambuco. D. João justificou sua decisão como um ato de um soberano paternal, movido pelo desejo de “remover os embaraços” que impediam seus “fiéis vassalos” de ter acesso à justiça e de garantir a “segurança pessoal, e a dos sagrados direitos de propriedade”. Era o discurso clássico do mantenedor da ordem, que servia para legitimar uma profunda e estratégica expansão do poder estatal.

O alvará transformou o plano de Montenegro em realidade:

  • Jurisdição Definida: A nova comarca foi oficialmente batizada como “Sertão de Pernambuco”. Seus limites territoriais foram estabelecidos exatamente como o governador havia proposto, abrangendo os julgados de Garanhuns e Simbres até a Barra do Rio Grande e Carunhanha. A medida não apenas organizava a administração, mas também consolidava a soberania de Pernambuco sobre a estratégica bacia do São Francisco, pondo fim aos longos anos de conflito jurisdicional com a Bahia.
  • Autoridade Presente: O alvará criou o cargo de ouvidor da comarca, um magistrado de carreira que passaria a residir na região, com a incumbência de administrar a justiça, fiscalizar os juízes locais e escolher a sede do seu poder — a futura cabeça da comarca.
  • Novos Centros de Poder Local: Indo além, o decreto ordenou a elevação dos povoados de Pilão Arcado e Flores à categoria de vilas. Este era um passo de enorme significado. A criação de uma vila implicava na instalação de uma câmara municipal, com seus vereadores eleitos localmente, e na ereção de um pelourinho, o poderoso símbolo da justiça do rei. Embora Montenegro tivesse criticado os juízes ordinários, a Coroa manteve essa estrutura de poder local, pois era a forma mais prática de administrar um território tão vasto. A diferença crucial era que, agora, esses poderes locais estariam sob a vigilância direta e constante de um ouvidor da Coroa.

A criação da Comarca do Sertão foi, portanto, o ponto culminante da visão administrativa de Montenegro é uma peça-chave na estratégia joanina de fortalecer o Estado português no interior do Brasil. Foi uma tentativa deliberada de substituir a lei do mais forte pela lei do rei, transformando uma fronteira anárquica em um território integrado à ordem imperial.

A trajetória da Comarca do Sertão é, assim, um microcosmo da turbulenta transição do Brasil Colônia para o Império. Sua criação foi um ato de afirmação de um Estado que buscava se modernizar e se impor, utilizando a justiça e a administração como suas principais ferramentas.

ReferênciasSILVA, Jeffrey Aislan de Souza.O Tribunal da Relação de Pernambuco: conflitos, governança e atuação política dos magistrados (1798-1822). Tese (Doutorado em História), Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2021.

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Os indígenas no Sertão: agentes da política, da guerra e da resistência https://caminhosdarevolta.com.br/os-indigenas-no-sertao-agentes-da-politica-da-guerra-e-da-resistencia/ https://caminhosdarevolta.com.br/os-indigenas-no-sertao-agentes-da-politica-da-guerra-e-da-resistencia/#respond Sat, 16 Aug 2025 20:58:58 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=207 Entre os séculos XVII e XVIII, os sertões das capitanias do norte do Brasil, descritos pelos colonizadores como “solidões vastas e assustadoras” , foram o palco de uma série de confrontos devastadores conhecidos como a “Guerra dos Bárbaros”. Longe de ser um conflito único e centralizado, essa “guerra” foi, na verdade, um conjunto de levantes, batalhas e negociações distintas, unificadas apenas pela perspectiva da administração colonial que buscava expandir suas fronteiras para o interior. Nesse cenário complexo, a capitania de Pernambuco destacou-se como o principal centro de comando militar para a conquista do sertão.

A chamada “Guerra do Açu” (1687-1704), uma das principais frentes do conflito, foi combatida por meio de expedições que partiram de Pernambuco e foram efetivamente comandadas por seu governo.

Choque de Mundos: As Causas e os Povos do Conflito

A principal causa desses confrontos foi a reação das nações indígenas do sertão, como os Kariri, ao avanço da pecuária e à escravização promovida pelos colonos a partir de Salvador e Olinda. À medida que os currais de gado se aprofundavam no interior, invadindo territórios tradicionais, a resistência indígena se intensificava.

Os povos envolvidos eram diversos e multifacetados:

  • Os Tarairiú: Povo de língua independente, habitava principalmente a região entre o Rio Grande do Norte e o Ceará. Grupos como os Janduí, Panati e Xucurú atuavam na jurisdição de Pernambuco. Sua cultura guerreira não se baseava no arco e flecha, mas em propulsores de dardos, tacapes e machados de pedra. Eles rapidamente se adaptaram ao contexto colonial, incorporando armas de fogo e cavalos para formar uma temível “artilharia montada”.
  • Os Kariri: Espalhavam-se por vastos territórios, desde a Bahia até o Ceará, passando por Pernambuco e Paraíba. Seus muitos grupos, como os Caropotó, Xocó, Carnijó, Porcáz e Payayá, eram protagonistas nos conflitos e negociações.
  • Agência e Estratégia: Os indígenas não eram vítimas passivas. Os Payayá, por exemplo, demonstraram um profundo conhecimento das táticas coloniais ao simularem ataques de “tapuias” desconhecidos para forçar a Coroa a transferi-los de volta para suas terras ancestrais na serra do Orobó, utilizando a estratégia colonial dos “muros do sertão” a seu favor.

O Exército Colonial: Uma Estrutura Dependente

As forças coloniais em Pernambuco eram um mosaico de diferentes grupos, cuja eficácia dependia fundamentalmente da participação e do conhecimento indígena:

  • Composição Mista: As expedições eram formadas por uma combinação de soldados regulares, milícias especializadas como o “terço dos Henriques” , sertanistas paulistas contratados e, de forma crucial, um grande número de guerreiros indígenas de aldeias aliadas, conhecidos genericamente como “flecheiros”.
  • Guias e “Línguas”: Além de combatentes, os indígenas eram indispensáveis como guias, tradutores de línguas e espiões. Sem seu domínio da geografia, dos rios, serras e plantas, nenhuma expedição teria adentrado os sertões. O poder desses “práticos do sertão” era tal que, em uma ocasião, um grupo de “Tapuias” vetou a rota planejada por um comandante colonial, ameaçando abandonar a expedição e forçando o comando a seguir o caminho que lhes era mais conveniente.
  • O Terço dos Índios: Pernambuco contava com a única tropa indígena oficializada na região, o “terço de índios“, também chamado de “terço de Camarão”. Essa unidade era composta principalmente por indígenas Potiguar e Tabajara, de aldeamentos em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande, e comandada por uma liderança nativa institucionalizada, o “governador de índios“.
  • O Governador dos Índios: Este líder possuía autoridade sobre os aldeamentos da capitania e tinha o poder de organizar ou vetar o recrutamento de guerreiros. Essa posição o transformava em uma figura de poder e negociação. Líderes como D. Sebastião Pinheiro Camarão chegaram a confrontar as autoridades coloniais e os sertanistas paulistas para proteger seu povo da exploração e do recrutamento forçado.

Esse posto, que se tornou hereditário e permaneceu ativo por cerca de cem anos (1636-1733), consolidou essas famílias como uma verdadeira elite, com autoridade sobre dezenas de aldeamentos espalhados pelas capitanias do norte. Longe de serem meros chefes de guerra, os governadores dos índios exerciam um poder administrativo complexo e essencial para a Coroa. A história dos governadores dos índios revela uma faceta pouco conhecida do Brasil Colonial: um mundo de intensas negociações, onde lideranças indígenas não foram apenas vítimas passivas, mas agentes poderosos que usaram sua força militar e sua inteligência política para forjar espaços de poder, defender seus povos e se tornarem figuras centrais na construção da própria sociedade colonial. Suas funções eram variadas e de imensa responsabilidade:

  • Comando Militar: Eram encarregados de recrutar, organizar e liderar as tropas de “flecheiros” para as diversas frentes de batalha, desde a luta contra quilombos, como o de Palmares, até os sangrentos conflitos de expansão para o interior, conhecidos como a “Guerra dos Bárbaros”.
  • Proteção e Administração: Atuavam como a principal autoridade sobre os aldeamentos, intervindo em disputas, defendendo seus liderados da escravização ilegal e dos abusos cometidos por colonos e fazendeiros.
  • Intermediação Política: Eram a ponte entre o mundo indígena e a administração colonial, participando de reuniões importantes como a Junta das Missões e levando diretamente as demandas de seu povo às mais altas autoridades, inclusive ao rei em Portugal.

Batalhas e Alianças no Sertão

A complexidade do conflito pode ser vista em diversas expedições e alianças. Em 1688, uma grande campanha partiu de Pernambuco com 200 soldados regulares, 100 Henriques e 400 homens do terço dos índios, ilustrando a diversidade das forças. Em 1691, uma expedição no sertão pernambucano contra os “Hoé Hoé” mobilizou guerreiros Xucurú da aldeia do Ararobá, além de Xocó, Carnijó e Carapotó.

Ao mesmo tempo, a guerra não era feita apenas de confrontos. Em 1692, o líder Francisco Dias Mataroa, da nação Porcáz, teve seus serviços militares reconhecidos pelo Governador de Pernambuco. Ele atuava como um “prático do sertão”, guiava entradas em busca de salitre e usava sua aliança com a Coroa para adquirir prestígio e recursos, solicitando pagamento e patentes militares para si e para seu filho.

O conflito em Pernambuco foi muito mais do que uma simples campanha de conquista. Foi um período marcado pelo papel central da capitania como base de operações militares e por uma complexa teia de negociações e batalhas. Os povos nativos, confrontados com a violência colonial, souberam usar a própria máquina de guerra invasora para resistir, negociar e reinventar sua realidade, desempenhando um papel central na definição do futuro e da ocupação do sertão nordestino.

Referências

FERREIRA, David Barbuda. Os Governadores dos Índios do Estado do Brasil: elites indígenas e administração colonial nos sertões da América portuguesa (1630-1755). Salvador: Sagga, 2024.

PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão Norte do Brasil, 1650-1720. São Paulo: Hucitec /Edusp, 2002.

SILVA, Kalina Vanderlei. Agência indígena na conquista do Sertão: estratégias militares e tropas indígenas na “Guerra dos Bárbaros” (1651-1704). Estudos Ibero-Americanos, v. 45, n. 2, p. 77-90, 2019.SILVA, Kalina Vanderlei. Sem os Tapuias não se conquista o Sertão: atuação militar e negociações de flecheiros, guias e tradutores Kariri e Tarairiú nas expedições de conquista das Capitanias do norte do Brasil no século XVII. Revista Latino-Americana de História, v. 12, n. 29, p. 117-137, 2024.

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Além dos Canaviais: a conquista do Sertão Pernambucano https://caminhosdarevolta.com.br/alem-dos-canaviais-a-conquista-do-sertao-pernambucano/ https://caminhosdarevolta.com.br/alem-dos-canaviais-a-conquista-do-sertao-pernambucano/#respond Sat, 16 Aug 2025 20:37:16 +0000 https://caminhosdarevolta.com.br/?p=197

Embora o Brasil Colonial frequentemente nos remeta à opulência dos engenhos de açúcar de Olinda e Recife, na Zona da Mata pernambucana, essa imagem, embora marcante, revela apenas uma parte da nossa história. Longe do litoral, outra narrativa se desenrolava, igualmente crucial: a colonização do Sertão de Pernambuco.

Contrariando a ideia de um vazio demográfico ou de um mero anexo da economia açucareira, o Sertão, entre os séculos XVI e XIX, foi um verdadeiro motor econômico. Foi também um palco de intensos conflitos e o berço de sociedades e culturas singulares.

A expansão para o interior não foi uma aventura de sertanistas solitários. Pelo contrário, foi um projeto ambicioso liderado pela própria elite do açúcar, com o pleno apoio da Coroa Portuguesa. Por meio da pecuária, da fé e da força militar, eles adentraram o território, transformando para sempre o cenário humano e econômico da capitania.

O termo “sertão”, que muitos associam a “deserto”, tem sua origem mais ligada à ideia de “interior”. Dicionaristas dos séculos XVIII e XIX o definiam como uma terra distante da costa, “o coração das terras”, em oposição ao litoral. Era, portanto, a designação para a vasta e pulsante região que se estendia para além da faixa litorânea.

Rasgando o Sertão: Conquista, Cobiça e Resistência

Com um olhar estratégico, Portugal já ambicionava ocupar os sertões desde o início da colonização. O Regimento de Tomé de Sousa, em 1548, já traçava planos para avançar em direção ao grandioso rio Opará, hoje, São Francisco. Em 1560, a primeira grande expedição em Pernambuco, liderada por Duarte Coelho de Albuquerque, partiu para efetivar essa conquista, resultando na fundação de Penedo, um ponto vital às margens do São Francisco, e no fortalecimento de pequenas vilas.

No entanto, o que se chamou de “conquista” foi, na prática, um processo de dominação violenta e quase extermínio dos povos originários, que resistiram bravamente à invasão. Muitas expedições posteriores, como a de Francisco Barbosa da Silva em 1578, buscavam o sonhado ouro, mas acabavam focadas na captura e escravização de indígenas, mais do que na descoberta de minérios.

É fundamental compreender que a ocupação do sertão não foi um avanço pacífico ou linear. A presença colonizadora era instável, marcada pela distância dos centros litorâneos e por constantes ameaças. De um lado, os povos indígenas lutavam para defender suas terras ancestrais. De outro, africanos escravizados e seus descendentes fugiam do cativeiro e criavam seus próprios espaços de liberdade e resistência, os quilombos, que desafiavam diretamente o poder colonial.

Aos poucos, o território foi sendo desbravado. Em 1738, já existiam três rotas principais que cortavam o sertão pernambucano, aproveitando antigas trilhas indígenas ao longo de rios como o Ipojuca e o Capibaribe. Esses caminhos eram mais do que simples trilhas: eram artérias vitais que conectavam Pernambuco a outras regiões cruciais do Brasil colonial, como as terras do ouro em Minas Gerais, além da Bahia, Alagoas, Sergipe, Ceará e Piauí.

A presença de nomes de lugares de origem portuguesa ao longo dessas rotas revela como os colonizadores, mesmo em pequeno número, iam marcando seu domínio. Viajantes, comerciantes de gado e “faiscadores” em busca de ouro deixaram seus rastros, transformando um território imenso e selvagem em uma paisagem progressivamente integrada às necessidades da Coroa Portuguesa.

Donos da Terra: Entre a Lei e a Posse

Para povoar o vasto território, a Coroa Portuguesa adotou uma política de distribuição de imensos lotes de terra, conhecidos como sesmarias. O sistema funcionava como um contrato: para receber a terra, o interessado precisava fazer um pedido formal, apresentar um fiador que garantisse o pagamento dos impostos e, crucialmente, se comprometer a tornar a terra produtiva com agricultura ou criação de gado em até cinco anos.

No entanto, a realidade no Brasil colonial era bem mais complexa que a lei no papel. A distribuição dessas terras frequentemente acontecia de forma arbitrária e, com o tempo, as exigências foram aumentando.

Um fato interessante é que muitos dos que se consideravam “proprietários” eram, na verdade, posseiros — pessoas que ocupavam e cultivavam a terra sem possuir um título de propriedade legal. Documentos do século XIX confirmam que essa prática de se apossar de terras “devolutas” (sem dono reconhecido pela Coroa) para só depois tentar legalizá-las era extremamente comum. Na prática, a ocupação muitas vezes vinha antes da lei, moldando a verdadeira forma como o Brasil foi colonizado.

A Riqueza do Sertão: O Poder do Gado e do Algodão

No coração do Sertão, duas atividades se tornaram os grandes pilares econômicos que moldaram a região: a pecuária e, posteriormente, o cultivo do algodão. Longe de ser isolada, essa produção estava profundamente conectada às áreas de exportação de açúcar e tabaco no litoral, além de ser fundamental para o ciclo do ouro em Minas Gerais e a fabricação de charque no Piauí.

A criação de gado, feita com os animais soltos pela vastidão da caatinga, deu origem a um modo de vida menos rígido que o dos engenhos de açúcar. Essa maior flexibilidade no trabalho chegou a servir como uma alternativa para indígenas e seus descendentes que buscavam escapar do controle e da disciplina severa do litoral.

Contudo, essa aparente liberdade escondia uma profunda desigualdade. Embora a sociedade sertaneja fosse composta por mais homens livres do que escravizados, a extrema pobreza e a concentração de terras nas mãos de poucos (o latifúndio) criaram uma elite tão poderosa quanto a dos senhores de engenho. Para complementar a mão de obra indígena e dos trabalhadores livres, a presença de escravizados de origem africana, ainda que em menor número, foi um elemento importante na engrenagem econômica do Sertão.

O Quintal do Engenho: Como o Gado Colonizou o Sertão

A grande riqueza dos engenhos de açúcar no litoral pernambucano dependia de um “quintal” gigantesco e produtivo: o Sertão. A razão era simples e prática. Cada engenho era uma máquina complexa que demandava uma força animal imensa, com bois sendo usados para mover as pesadas moendas, transportar cana e lenha, e alimentar toda a população, incluindo o crescente número de escravizados.

Como as valiosas terras da Zona da Mata eram preciosas demais para serem usadas como pasto, a solução foi empurrar a criação de gado para o interior. O que começou como uma necessidade prática foi oficializado por uma lei régia de 1701, que proibiu a pecuária a menos de dez léguas da costa. Essa lei foi o empurrão definitivo que forçou a fronteira da colonização a avançar ainda mais para o coração do continente.

Engana-se quem pensa que essa expansão foi uma aventura de homens pobres e isolados. Os verdadeiros agentes por trás dela eram figuras da mais alta elite rural. Grandes clãs, como os Garcia d’Ávila — senhores da famosa Casa da Torre da Bahia, cujos domínios se estendiam por áreas monumentais do sertão —, receberam sesmarias gigantescas como recompensa por seus serviços militares, principalmente após a expulsão dos holandeses.

Eram essas famílias poderosas que financiavam as expedições, armavam os sertanistas e, por fim, colhiam os lucros dos rebanhos imensos que se formavam às margens do Rio São Francisco. Foi este grande rio, aliás, que serviu como o eixo vital, a principal via de acesso que tornou possível a conquista do Sertão em nome do gado.

A Conquista a Ferro e Fogo: A Guerra dos Bárbaros

É fundamental entender que o avanço sobre o Sertão esteve longe de ser um processo pacífico. As terras não eram vazias; eram o lar de diversas nações indígenas, que os portugueses rotulavam genericamente de Tapuias. A tomada de seus territórios ancestrais aconteceu com uma violência extrema, que a Coroa Portuguesa tentava justificar sob o conceito de guerra justa — um pretexto que, na prática, legitimava a conquista pela força.

Agindo sob as ordens e com os recursos da elite do litoral, os sertanistas promoveram um verdadeiro extermínio. Aldeias inteiras foram dizimadas, inúmeros indígenas foram escravizados e os sobreviventes, confinados em missões religiosas. O objetivo era claro: esvaziar a terra para dar lugar aos currais de gado.

Este processo brutal, conhecido como a “Guerra dos Bárbaros”, durou décadas. Foi sobre essa fundação de sangue e terra que a pecuária sertaneja se ergueu, consolidando o Sertão como o grande fornecedor de carne e força motriz para a economia açucareira da colônia.

Vaqueiros e Capitães: A Sociedade e o Poder no Sertão Colonial

Enquanto a Zona da Mata se consolidava em torno de uma pirâmide social rígida — com o senhor de engenho no topo, uma vasta população de africanos escravizados na base e os indígenas confinados —, o sertão pernambucano dava origem a uma sociedade de contornos muito mais fluidos e complexos. O interior tornou-se um palco de intensa miscigenação, onde as fronteiras entre brancos, indígenas e africanos eram constantemente atravessadas.

Essa diferença fundamental nascia da própria economia. A lavoura de cana-de-açúcar exigia a concentração de mão de obra cativa, mas a pecuária extensiva do sertão, com rebanhos espalhados por territórios imensos, promovia uma maior mobilidade e interação. Nesse ambiente, onde conviviam colonos empobrecidos, indígenas remanescentes da “Guerra dos Bárbaros” e africanos escravizados ou libertos, surgiu a figura central da cultura sertaneja: o vaqueiro. Geralmente um homem livre e mestiço, sua identidade e função eram produtos diretos dessa nova sociedade, forjada pela adaptação e pela sobrevivência. Sua relação de trabalho com o grande proprietário, baseada na “partilha”, permitia que ele recebesse uma parte das crias como pagamento, abrindo a rara possibilidade de, um dia, formar seu próprio pequeno rebanho.

Para governar essa imensidão, a Coroa Portuguesa adotou a estratégia de fundar vilas, que funcionavam como centros de poder político, militar e religioso no coração do sertão. Lugares como Cabrobó e Penedo eram postos avançados da colonização. Suas Câmaras Municipais, controladas pelos “homens bons” — a elite dos grandes fazendeiros —, administravam a justiça e a ordem local, sempre sob a autoridade final do governador em Recife.

Contudo, o poder de fato no sertão era exercido pelos capitães-mores. Nomeados diretamente pelo governador, esses homens eram verdadeiros senhores da guerra e da terra. Eles comandavam as tropas locais, reprimiam rebeliões e não hesitavam em usar sua autoridade para expandir seus próprios interesses. Foi assim que se formou uma poderosa elite sertaneja que, embora devesse lealdade a Recife, governava com imensa autonomia, controlando a vida e a morte em seus vastos domínios.

Com certeza. Aqui está uma versão final elegante e acessível do texto, com uma sugestão de título que busca encapsular suas principais ideias.

Do Couro ao Algodão: A Revolução que Integrou o Sertão ao Mundo

Se a pecuária foi a força que impulsionou a ocupação do sertão, foi o cultivo do algodão que, na segunda metade do século XVIII, transformou radicalmente a região, conectando-a de forma definitiva ao mercado global. Com a Revolução Industrial na Inglaterra, a demanda por fibra têxtil explodiu, e o solo semiárido do sertão pernambucano revelou-se perfeito para a cotonicultura. Uma verdadeira “febre do algodão” tomou conta do interior.

Terras antes usadas para o gado foram rapidamente convertidas em vastos campos de algodão. O valor do solo disparou, atraindo novos colonos e acirrando os conflitos pela posse da terra. A economia sertaneja, antes voltada para o abastecimento interno, agora mirava a exportação. Após a colheita, os fardos de algodão iniciavam uma jornada épica em lombo de burro, atravessando por semanas os antigos “caminhos das boiadas” até o porto do Recife, de onde partiam para as indústrias da Europa.

Essa nova riqueza também aprofundou as contradições sociais. A cultura do algodão exigia mais mão de obra, o que levou a um aumento significativo do número de escravizados africanos no sertão. Paradoxalmente, o algodão também se tornou um caminho para a liberdade: como podia ser cultivado em pequenos roçados, muitos escravizados conseguiam plantar sua própria safra e, com a venda, comprar a tão sonhada carta de alforria.

Artérias Abertas: Comércio e Contrabando

Longe de ser uma região isolada, o sertão era um corpo vivo, cortado por uma complexa rede de estradas que o ligavam ao litoral e a outras capitanias. Esses “caminhos do sertão” eram as artérias pelas quais fluíam o gado, o couro, o algodão, o sal e as pessoas.

Essa teia de rotas, no entanto, dificultava o controle da Coroa. Uma brecha na lei, que permitia o comércio livre de monopólios nos “portos do sertão” ao longo do Rio São Francisco, transformou a região em um gigantesco corredor de comércio legal e, principalmente, de contrabando. Produtos vindos da Bahia e de outras províncias entravam em Pernambuco pelo interior, escapando de impostos e da fiscalização, muitas vezes com a conivência das autoridades locais.

A conectividade era tão intensa que o sertão pernambucano funcionava como um polo de atração para o comércio de lugares ainda mais distantes, como o couro do Piauí, que descia pelas estradas para ser exportado a partir do Recife.

O Legado de uma Fronteira

A colonização do sertão de Pernambuco foi um processo de muitas faces. Começou como uma expansão violenta sobre territórios indígenas para a criação de gado e evoluiu para se tornar o coração de uma próspera economia algodoeira, integrada às redes do comércio global.

Essa história deixou um legado profundo: uma estrutura de terras concentrada nas mãos de poucos; uma sociedade marcada pela miscigenação e pela violência; e uma cultura singular, simbolizada para sempre na figura do vaqueiro.

Acima de tudo, a história da conquista do sertão revela que essa região nunca foi o “fim do mundo” ou as “costas” da província. Pelo contrário, foi uma fronteira essencial, cuja integração, por mais brutal que tenha sido, foi fundamental para a formação econômica, social e territorial não apenas de Pernambuco, mas do próprio Brasil.

Referências

BARBOSA, Bartira Ferraz; FERRAZ, Maria do Socorro Ferraz. Sertão Fronteira do Medo. Recife: Editora UFPE, 2015.

PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão Norte do Brasil, 1650-1720. São Paulo: Hucitec /Edusp, 2002.

SOUZA, Jéssica Rocha. Nas rotas do sertão: comércio interno e contrabando entre as capitanias de Pernambuco e Bahia (1759-1780). 2018. 177 f. Tese de Doutorado (Doutorado em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2018.

SILVA, Jeffrey Aislan Souza. “Sobre a necessidade de criar” comarcas:: o governo da justiça em Pernambuco no período Joanino (1804-1817). Sæculum – Revista de História, v. 25, n. 42 (jan./jun.), p. 25–46, 2020.

SILVA, Kalina Vanderlei. Nas Solidões Vastas e Assustadoras: os pobres do açúcar e a conquista do sertão de Pernambuco, séculos XVII e XVIII. 2003. 362 f. Tese de Doutorado (Doutorado em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2003..SILVA, Kalina Vanderlei Paiva. Agência Indígena na Conquista do Sertão: Estratégias Militares e Tropas Indígenas na Guerra dos Bárbaros (1651-1704). Revista Estudos Ibero-Americanos, v. 45, .2 p. 77-90, 2019.

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