Agricultores desapropriado por Itaparica em 1979. Fonte: Boletim Ilhas da Resistência. Comissão Pastoral da Terra, 1979.

A ditadura civil-militar no interior Pernambucano: experiências e singularidades do Agreste ao Sertão


Adauto Guedes Neto
Professor de História do Tempo Presente da Universidade de Pernambuco (Campus Petrolina)

A ditadura civil-militar brasileira (1964–1985) produziu experiências múltiplas e heterogêneas em diferentes regiões do país. Embora a historiografia tenha privilegiado, por muito tempo, os grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro, São Paulo e Recife, estudos mais recentes têm demonstrado que o regime autoritário assumiu feições próprias no interior nordestino. No caso de Pernambuco, particularmente no Agreste e no Sertão, a compreensão desse período exige atenção às dinâmicas locais de poder, às relações entre Igreja, Estado e elites agrárias, bem como às formas específicas de vigilância e repressão que nem sempre se expressavam por meio de prisões espetaculares ou confrontos abertos. Nesse contexto, a experiência da chamada Teologia da Enxada, desenvolvida na cidade de Tacaimbó entre 1969 e 1971, constitui um caso singular para compreender a presença e a atuação da ditadura no interior pernambucano.

A Teologia da Enxada foi um projeto de formação presbiteral que rompeu, em muitos aspectos, com o modelo tradicional dos seminários. Inspirada pelas orientações pastorais e teológicas do Concílio Vaticano II, essa experiência buscava construir um “novo jeito de ser Igreja”, profundamente comprometido com os pobres e com a realidade social do campo. Em vez de uma formação isolada em instituições clericais distantes do cotidiano das comunidades, os seminaristas passaram a viver e trabalhar junto às populações rurais, participando das atividades agrícolas e inserindo-se na vida comunitária. A enxada, símbolo do trabalho camponês, tornou-se também um elemento pedagógico e espiritual, articulando fé, prática social e reflexão pastoral.

Nesse sentido, a formação realizada em Tacaimbó dialogava diretamente com as transformações que ocorriam na Igreja latino-americana no final da década de 1960, sobretudo após a Conferência de Medellín, que enfatizou a opção preferencial pelos pobres e a necessidade de uma presença eclesial comprometida com a justiça social. A Teologia da Enxada procurava formar padres preparados para atuar no meio rural, atentos às experiências de vida das comunidades camponesas e às expressões da religiosidade popular. A fé era compreendida não apenas como doutrina, mas como prática vivida no cotidiano, marcada por romarias, devoções, celebrações comunitárias e formas próprias de organização social.

Entretanto, essa proposta pastoral e formativa ocorreu em um momento de forte endurecimento do regime autoritário brasileiro. O final da década de 1960 foi marcado pela intensificação da repressão política, especialmente após a promulgação do AI – 5, em 1968. Nesse contexto, qualquer iniciativa que envolvesse organização popular, crítica social ou atuação junto aos pobres poderia ser interpretada pelos órgãos de segurança como potencial ameaça à ordem estabelecida. Foi exatamente o que ocorreu com a experiência da Teologia da Enxada.

Documentos produzidos por órgãos de informação da ditadura demonstram que seminaristas, padres e agentes pastorais ligados a essa iniciativa foram monitorados e investigados. A vigilância se dava por meio de relatórios, infiltrações e acompanhamento de atividades religiosas e comunitárias. Missas, reuniões pastorais e encontros de formação eram

observados por agentes que buscavam identificar possíveis vínculos com organizações consideradas subversivas. Nos registros produzidos por esses órgãos, a formação realizada em Tacaimbó passou a ser associada a ideias consideradas perigosas, e seus participantes foram rotulados como “comunistas” “Subversivos” ou “agitadores”.

A presença dessa vigilância evidencia uma característica importante da ditadura no interior: a repressão frequentemente se manifestava de maneira silenciosa e difusa. Diferentemente do que ocorreu em grandes cidades, onde prisões políticas e confrontos ganharam visibilidade pública, no interior pernambucano o controle social era exercido por meio de redes locais de poder, articulações entre autoridades políticas, elites agrárias e agentes do Estado. Informações circulavam entre delegacias, quartéis, prefeituras e setores conservadores da sociedade, produzindo um ambiente de suspeita e intimidação.

Assim, compreender a ditadura no interior não significa apenas identificar episódios de resistência organizada, mas também analisar as formas sutis de vigilância e controle que permeavam o cotidiano das comunidades. No caso da Teologia da Enxada, a espionagem sobre seminaristas e lideranças religiosas revela como o regime buscava acompanhar e neutralizar experiências que pudessem fortalecer a organização popular no campo.

Outro aspecto fundamental para entender as singularidades da ditadura no interior pernambucano diz respeito ao papel das elites locais e de setores políticos que apoiavam o regime. Prefeitos, fazendeiros e lideranças regionais frequentemente atuavam como mediadores entre o poder central e as realidades locais, contribuindo para consolidar a autoridade do regime. Em muitas regiões do Agreste e do Sertão, essas elites estavam diretamente interessadas na manutenção da ordem social e na repressão de iniciativas que pudessem questionar a estrutura fundiária ou fortalecer a organização dos trabalhadores rurais.

Nesse cenário, grandes projetos de desenvolvimento implementados pelo governo militar tiveram impactos profundos sobre as populações do interior. Um dos exemplos mais significativos foi a construção da Usina Hidrelétrica de Itaparica, no rio São Francisco, conduzida pela CHESF, empresa subsidiária da Eletrobras e vinculada ao Ministério de Minas e Energia do regime. Apresentado como símbolo do progresso e da modernização nacional, o empreendimento resultou no deslocamento de milhares de pessoas e na transformação radical do território sertanejo.

Militares inaugurando obras públicas no interior a partir de recursos do projeto Aliança para o progresso, financiado com recursos dos EUA para conter o avanço do comunismo no Brasil. Fonte: Arquivo Pessoal de Carlos Leite Barros, ex-prefeito de Tacaimbó.

As populações atingidas pela barragem enfrentaram processos de desapropriação marcados por conflitos, ausência de diálogo e desrespeito aos direitos humanos. Comunidades inteiras foram removidas de suas terras, muitas vezes sem garantias adequadas de reassentamento ou condições dignas de vida. O discurso do desenvolvimento, amplamente difundido pela propaganda oficial do regime, contrastava com a experiência concreta de agricultores, pescadores e moradores das áreas inundadas pelo lago de Itaparica.

A análise desse processo permite compreender como a ditadura civil-militar também se expressou por meio de políticas econômicas e projetos de infraestrutura que reforçaram desigualdades e produziram novas formas de violência social. No interior de Pernambuco, o autoritarismo não se limitava aos aparelhos repressivos tradicionais; ele se materializava também na imposição de grandes obras, na redefinição do uso do território e na marginalização de populações consideradas obstáculos ao progresso.

Sendo assim, a experiência da Teologia da Enxada e o processo de construção da barragem de Itaparica revelam dimensões complementares da ditadura no interior pernambucano. De um lado, a formação pastoral inspirada pelo Concílio Vaticano II expressava uma tentativa de construir práticas religiosas comprometidas com os pobres e com a transformação social. De outro, os projetos desenvolvimentistas do regime evidenciavam a força de um modelo autoritário de modernização, que subordinava territórios e populações aos interesses do Estado e de grandes empresas.

A articulação entre essas duas experiências permite ampliar a compreensão historiográfica sobre o período. Ao analisar a atuação da Igreja progressista em regiões rurais e os impactos de grandes empreendimentos estatais, torna-se possível perceber que o interior foi também um espaço central de disputa política durante a ditadura. Ali se confrontavam diferentes projetos de sociedade: de um lado, iniciativas que buscavam fortalecer a organização popular e a dignidade das comunidades; de outro, políticas que priorizavam a expansão econômica e o controle social.

A historiografia recente sobre o tema, tem demonstrado que o estudo da ditadura fora dos grandes centros urbanos contribui para revelar novas perspectivas sobre o período. Pesquisas sobre a Igreja no Nordeste, sobre a atuação pastoral em áreas rurais e sobre os conflitos decorrentes de grandes obras públicas evidenciam que o regime autoritário se manifestou de formas variadas, muitas vezes invisibilizadas pela narrativa tradicional.

No caso de Tacaimbó, a documentação produzida por órgãos de segurança e pelos próprios participantes da experiência pastoral constitui um acervo fundamental para compreender as tensões entre Igreja, Estado e sociedade no contexto da ditadura. Esses registros permitem reconstruir não apenas a trajetória da Teologia da Enxada, mas também as estratégias de vigilância e controle utilizadas pelo regime no interior. Ao mesmo tempo, os estudos sobre a construção da barragem de Itaparica e os impactos sociais desse empreendimento evidenciam a centralidade do Nordeste nos projetos de desenvolvimento do governo militar. A análise dessas experiências revela como a lógica autoritária se articulava com interesses econômicos e com a atuação de empresas estatais, produzindo efeitos duradouros sobre as populações locais. Portanto, compreender as singularidades da ditadura civil-militar no interior de

Pernambuco implica reconhecer a complexidade das relações entre religião, política e economia no período. A Teologia da Enxada, ao propor uma formação presbiteral enraizada na vida dos pobres e nas práticas da fé popular, representou uma experiência inovadora e, ao mesmo tempo, alvo de suspeita e repressão. Já a construção da barragem de Itaparica simboliza a face desenvolvimentista e autoritária do regime, marcada pela imposição de grandes projetos e pela marginalização das comunidades atingidas. O estudo dessas experiências não apenas amplia o conhecimento sobre o passado autoritário do país, mas também permite refletir sobre os legados desse período nas dinâmicas sociais e territoriais do presente. A memória da Teologia da Enxada e das populações atingidas por Itaparica continua a desafiar a historiografia e a convidar a novas investigações sobre a ditadura no interior brasileiro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Militares inaugurando obras públicas no interior a partir de recursos do projeto Aliança para o progresso, financiado com recursos dos EUA para conter o avanço do comunismo no Brasil. Fonte: Arquivo Pessoal de Carlos Leite Barros, ex-prefeito de Tacaimbó.

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